Primatas Ameaçados de Extinção Enfrentam Risco Elevado de Contrair COVID-19

Novo estudo prevê que algumas espécies em perigo crítico de extinção, como os orangotangos-de-sumatra e os gorilas-ocidentais-das-terras-baixas, podem contrair mais facilmente o coronavírus.

Por Paul Nicolaus
Publicado 26/11/2020, 15:37 WET
Uma mãe orangotango-de-sumatra dá a mão à sua cria

Uma mãe orangotango-de-sumatra dá a mão à sua cria no Parque Nacional Gunung Leuser, na Indonésia.

Fotografia de CYRIL RUOSO, NATURE PICTURE LIBRARY

À medida que a pandemia de coronavírus se propaga pelo globo, grande parte das atenções concentram-se no aumento do número de mortes humanas, que já ultrapassou um milhão. Mas os especialistas alertam que alguns dos nossos parentes vivos mais próximos no reino animal também estão em perigo com o SARS-CoV-2, o novo coronavírus que provoca a COVID-19.

Uma análise feita recentemente a mais de 400 espécies de vertebrados, incluindo aves, peixes, anfíbios, répteis e mamíferos, prevê que algumas espécies de primatas em perigo crítico de extinção, como o gibão-de-bochechas-brancas-do-norte, o orangotango-de-sumatra e o gorila-ocidental-das-terras-baixas, bem como os chimpanzés e bonobos que estão em perigo de extinção – são particularmente vulneráveis ao vírus devido às semelhanças genéticas que partilham com os humanos.

O líder do estudo, Harris Lewin, decidiu identificar animais que pudessem servir de hospedeiros para o coronavírus – acredita-se que o antecessor do SARS-CoV-2 tenha surgido numa espécie de morcego nativa da China, que pode ter infetado outra (ou mais) espécie animal antes de o passar para os humanos. Mas, à medida que a investigação de Harris progredia, os dados começaram a revelar que os humanos também podiam ser um vetor de transmissão, propagando a doença aos animais selvagens.

“O potencial para surtos de doenças semelhantes à COVID em populações de primatas ameaçados de extinção que vivem em cativeiro ou na natureza é muito elevado”, diz Harris, professor prestigiado de ecologia e evolução da Universidade da Califórnia, em Davis. É uma preocupação em particular para os animais raros que vivem em cativeiro, semelhante aos oito tigres e leões infetados no Jardim Zoológico de Bronx, em Nova Iorque. Harris diz que é provável que estes felinos tenham contraído o vírus a partir dos seus tratadores humanos.

Os humanos infetados podem transmitir o vírus em partes do mundo onde os animais selvagens têm contactos de proximidade com as pessoas, como acontece em algumas regiões de África, alerta Harris.

Para a base do seu estudo, Harris e a sua equipa examinaram de perto a evolução e a estrutura do recetor da proteína ACE2, onde o coronavírus se liga às células humanas e, subsequentemente, entra nas mesmas. Os investigadores estudaram a proteína em centenas de espécies de vertebrados, permitindo-lhes determinar os riscos relativos de cada espécie contrair o vírus.

A equipa examinou o tipo e o número de alterações em 25 posições-chave do recetor ACE2 e criou um sistema de classificação categórico, que varia entre risco muito elevado e muito baixo, com base nas semelhanças e diferenças encontradas nesses pontos. Os animais com todas as 25 posições correspondentes à proteína humana são considerados os mais suscetíveis. Por outro lado, os animais que se prevê terem um risco muito baixo têm recetores ACE2 que são bastante diferentes dos humanos.

De acordo com o estudo, publicado recentemente na Proceedings of the National Academy of Sciences, entre as 103 espécies consideradas em risco muito elevado, elevado ou médio, 40% estão classificadas como ameaçadas pela Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza.

Os 18 animais de risco muito elevado são primatas do Velho Mundo e grandes símios. No entanto, algumas espécies ameaçadas de risco elevado – como os golfinhos baiji de água doce, o veado Elaphurus davidianus e a baleia Neophocaena asiaeorientalis – surpreenderam os investigadores, porque são parentes distantes dos humanos.

Menos letal

Os investigadores alertam que não se deve fazer uma interpretação exagerada dos seus resultados, salientando que os perigos reais precisam de ser confirmados com dados experimentais. E não se pode descartar a possibilidade de a infeção poder acontecer através de uma via celular diferente da ACE2, dado que o vírus pode penetrar no corpo de outras formas, diz Harris.

Apesar de várias espécies serem teoricamente suscetíveis ao vírus, até agora, apenas alguns animais em cativeiro foram infetados – cães domésticos, gatos domésticos, leões, tigres e visons – diz Dalen W. Agnew, professor no Departamento de Investigação em Patobiologia da Universidade Estadual do Michigan.

De acordo com um estudo feito recentemente, em ambientes experimentais, os macacos-rhesus, os Macaca fascicularis e os macacos Chlorocebus sabaeus contraíram o vírus, mas a maioria apresentou uma doença relativamente ligeira. Estudos semelhantes mostraram que os furões domésticos apresentam sinais ligeiros ou indetetáveis da doença, os morcegos-da-fruta-egípcios não apresentam sintomas e os hamsters sírios apresentam uma doença ligeira a moderada.

De acordo com Klaus-Peter Koepfli, coautor do estudo e investigador associado do Instituto de Biologia de Conservação Smithsonian, mesmo que o vírus não pareça ser tão letal para os animais como é para os humanos, há visons que podem morrer devido a terem contraído o vírus SARS -CoV-2. (Relacionado: A Dinamarca vai abater 15 milhões de visons após casos de transmissão de coronavírus para humanos.)

Pela forma como as coisas estão, Klaus-Peter diz que simplesmente não há informações disponíveis suficientes para compreender totalmente as razões pelas quais o vírus pode levar ao aumento da mortalidade nalgumas espécies em comparação com outras.

Não há evidências de que o coronavírus se esteja atualmente a propagar para as populações de animais selvagens, ou dentro dessas mesmas populações. Ainda assim, alguns investigadores dizem que provavelmente não temos noção de todas as infeções, tal como acontece com muitos casos em humanos que podem passar despercebidos durante a pandemia.

É difícil determinar até que ponto o vírus se está realmente a propagar para os animais, diz Andrew Bowman, professor associado no Departamento de Medicina Veterinária Preventiva da Universidade Estadual de Ohio. “Certamente é algo para ficarmos atentos”, diz Andrew, sobretudo observar as populações vulneráveis ou as populações na ligação humano-animal.

Prevenir a propagação

Os nossos parentes animais mais próximos são suscetíveis devido à genética e, tal como acontece com os humanos, o seu comportamento altamente social também os coloca em perigo.

Klaus-Peter diz que um dos animais mais preocupantes é o gorila-do-oriente, dado que restam menos de 5000 indivíduos e estão divididos em pequenas populações e subespécies, incluindo o conhecido gorila-da-montanha. Se estes grandes símios, que vivem em grupos familiares unidos, ficassem infetados e morressem com uma taxa semelhante à dos humanos, isso poderia colocar estes animais ainda mais em perigo.

Dadas as ramificações implicadas, Klaus-Peter Koepfli e Harris Lewin afirmam que é fundamental colocar em prática medidas de precaução. Em locais como parques nacionais, os funcionários devem ser testados regularmente, porque qualquer contacto pode levar ao início de uma pandemia em espécies de primatas do Velho Mundo. Também é crucial que os zoológicos continuem a executar os seus planos de gestão para evitar uma propagação que comece através dos tratadores de animais.

“Talvez tenhamos tido sorte, porque o vírus só passou para os tigres”, diz Harris, “porque se tivesse passado para os primatas, os resultados poderiam ter sido bem diferentes e possivelmente devastadores para os primatas do Velho Mundo em cativeiro no Zoo de Bronx”.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

Continuar a Ler