Vacina COVID-19 Pode Ameaçar Ainda Mais os Tubarões de Águas Profundas

O óleo de fígado de tubarão ajuda a tornar as vacinas mais eficazes, mas o aumento da procura por esta substância pode afetar espécies em perigo crítico de extinção. As vacinas candidatas promissoras da Pfizer e Moderna não contêm a substância.

Tuesday, November 17, 2020
Por Justin Meneguzzi
Um tubarão-martelo-recortado a nadar ao largo das Ilhas Galápagos. Este peixe está em perigo crítico de ...

Um tubarão-martelo-recortado a nadar ao largo das Ilhas Galápagos. Este peixe está em perigo crítico de extinção devido à demanda pelas suas barbatanas e óleo de fígado.

Fotografia de Michele Westmoreland, Nature Picture Library

Enquanto caça as suas presas a mais de trezentos metros de profundidade, o tubarão-martelo-recortado depende de um óleo especial que tem no fígado para suportar as pressões esmagadoras das profundezas.

O óleo de fígado de tubarão, ou esqualeno, é uma substância gordurosa que fornece flutuabilidade vital para esta espécie em perigo crítico de extinção, e para muitas outras. Mas também é um salva-vidas para os humanos, dado que age como um agente de reforço nas vacinas, chamado adjuvante, que melhora o sistema imunitário e torna as vacinas mais eficazes.

À medida que as grandes farmacêuticas mundiais tentam criar uma vacina contra a COVID-19, pelo menos cinco das 202 candidatas a vacinas dependem de esqualeno proveniente de tubarões capturados na natureza.

Uma das candidatas é uma vacina desenvolvida na Austrália pela Universidade de Queensland, em parceria com a empresa biofarmacêutica australiana CSL e a sua subsidiária Seqirus. A vacina, ainda sem nome, contém o adjuvante esqualeno MF59, que é proveniente de uma variedade de espécies de tubarões. Esta vacina começou os ensaios clínicos em humanos em julho deste ano e, se for bem-sucedida, terá uma produção inicial de 51 milhões de doses.

Todos os anos são capturados e comercializados internacionalmente dezenas de milhões de tubarões – tanto legal como ilegalmente – a maioria pela sua carne e barbatanas, mas cerca de três milhões ou mais são capturados pelo esqualeno. São necessários entre 2500 e 3000 fígados de tubarões para extrair cerca de uma tonelada de esqualeno.

Os conservacionistas receiam que o aumento da demanda por esqualeno para vacinas, entre outros usos, possa ameaçar ainda mais as espécies de tubarões, um terço das quais já está vulnerável à extinção.

“Esta é uma exigência insustentável sobre um recurso natural finito, como é o caso dos tubarões”, diz Stefanie Brendl, fundadora e diretora executiva da Shark Allies, uma organização de conservação sem fins lucrativos sediada na Califórnia.

Apenas cerca de 1% do esqualeno acaba em vacinas, a maioria vai para cosméticos como protetor solar, cremes para a pele e hidratantes. Ainda assim, com o crescimento da população global, a necessidade de vacinas só irá aumentar nos próximos anos, salienta Stefanie, acrescentando que alguns especialistas médicos sugerem que as pessoas vão precisar de várias doses de vacinas contra a COVID-19.

“Não estamos a dizer que os ensaios das vacinas devem parar, mas se continuarmos a encarar os tubarões como uma solução fácil, e se não considerarmos as alternativas existentes, então vamos continuar a usar [esqualeno] como um modelo para as vacinas”, diz Stefanie.

Perante o declínio das populações de tubarões, algumas empresas de biotecnologia estão a procurar outras fontes de esqualeno. Plantas como a cana-de-açúcar, azeitonas, sementes de amaranto e farelo de arroz, por exemplo, contêm esta substância. Embora as alternativas baseadas em plantas estejam a ser testadas em estudos e ensaios clínicos, as agências reguladoras como a Food and Drug Administration dos EUA ainda não as aprovaram como parte de um produto final para as vacinas.

‘Fígadização’ – uma indústria em crescimento

Nesta fotografia histórica, pescadores removem o fígado de um tubarão no Porto de Keel, na Irlanda.

Fotografia de Hulton-Deutsch Collection, CORBIS, Corbis via Getty Images

Os humanos exploram os fígados de tubarão há séculos como forma de alimento e energia – o óleo de fígado, por exemplo, servia de combustível para os postes de iluminação por toda a Europa no século XVIII. Este óleo também é usado há muito tempo em têxteis e corantes alimentares, bem como em produtos de cosmética.

Mas só em 1997 é que a Chiron – uma antiga empresa de biotecnologia que desde então foi adquirida pela Novartis – usou esqualeno como adjuvante na vacina FLUAD contra a gripe. Outras grandes empresas farmacêuticas, como a GSK e a Novartis, começaram a depender do esqualeno para as suas vacinas contra a gripe sazonal e a gripe suína.

Embora a esmagadora maioria dos tubarões seja capturada involuntariamente por atividades pesqueiras de grande escala que perseguem atum, lulas e salmões, as incongruências nos relatórios significam que é difícil separar a captura acessória legítima das atividades de pesca ilegal. As espécies de tubarões comercializadas raramente são identificadas nos registos comerciais.

Para responder à demanda por fígados de tubarão, desenvolveu-se uma indústria especializada de pescadores, produtores e comerciantes, sobretudo na Indonésia e na Índia. Num processo denominado “fígadização”, os pescadores matam um tubarão para remover o seu fígado e, de seguida, atiram o resto da carcaça ao mar.

Em terra, nos centros de processamento, os fígados são picados, fervidos e colocados em tanques, onde um processo de centrifugação separa o óleo de quaisquer resíduos. O óleo é depois embalado e enviado para todo o mundo. Uma tonelada de óleo de fígado de tubarão pode valer milhares de dólares, dependendo do conteúdo de esqualeno. (Descubra como o comércio de barbatanas de tubarão pode ser mais fácil de restringir do que se pensava.)

Num relatório de 2014, a organização sem fins lucrativos WildLifeRisk descreveu uma fábrica no sudeste da China que processava anualmente de forma ilegal 600 tubarões-baleia – uma espécie protegida – e tubarões-elefante.

‘Glóbulos brancos naturais’
Embora todos os tubarões tenham esqualeno, os pescadores procuram espécies de águas profundas, que têm os fígados maiores e, consequentemente, maiores concentrações de óleo. Estes tubarões são particularmente vulneráveis à pesca excessiva porque demoram a atingir a maturidade – alguns levam uma década para se começarem a reproduzir.

Isto faz com que quase metade das 60 espécies de tubarões mais procuradas pelos seus fígados – incluindo o tubarão-martelo-recortado, o tubarão-anequim e o tubarão-baleia – sejam consideradas vulneráveis à extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), o corpo que define o estado de conservação de animais e plantas selvagens.

Muitas destas espécies são protegidas pela Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagem Ameaçadas de Extinção (CITES), que restringe ou proíbe a pesca de determinadas espécies marinhas, como tubarões e raias.

Factos sobre Tubarões
Os tubarões podem despertar medo e respeito como nenhuma outra criatura no mar. Descubra os maiores e mais rápidos tubarões do mundo, como se reproduzem e como algumas espécies estão em risco de extinção.

Joanne Cleary, porta-voz da Seqirus, empresa que usa o adjuvante esqualeno MF59, disse à National Geographic que o esqualeno é proveniente de espécies de tubarões que não são protegidas pela CITES. Numa solicitação de acompanhamento, Joanne Cleary não disse se os fornecedores da Seqirus respeitam os padrões de pesca sustentável definidos pela organização sem fins lucrativos Marine Stewardship Council. (Leia como os tubarões dos recifes estão em declínio acentuado pelo mundo inteiro.)

De acordo com Stefanie Brendl, da organização Shark Allies, “independentemente de uma pescaria evitar espécies protegidas, isso não significa que seja sustentável. Apenas algumas espécies são protegidas por lei, e colocar uma nova espécie nas listas de proteção demora anos”.

Perder os principais predadores marinhos, como o tubarão-martelo-recortado, pode ser desastroso para o ambiente, diz Austin Gallagher, explorador da National Geographic e cientista-chefe do Beneath the Waves, um grupo de conservação de tubarões sediado na Virgínia.

“Os tubarões desempenham um papel crucial enquanto glóbulos brancos naturais dos nossos oceanos”, diz Austin. “Os tubarões mantêm os nossos ecossistemas robustos porque comem outros animais que estão doentes, feridos ou que não estão em condições de transmitir os seus genes. São agentes de seleção natural da forma mais poética.”

Pureza em questão?
Stefanie Brendl diz que a responsabilidade de desenvolver alternativas viáveis ao esqualeno de tubarão para apresentar aos reguladores recai sobre as empresas farmacêuticas. Stefanie refere que a Novavax, uma empresa americana de desenvolvimento de vacinas, já está a usar um adjuvante alternativo ao esqualeno, o Matrix-M, em ensaios clínicos para a sua vacina experimental contra a COVID-19. O adjuvante Matrix-M é feito de cascas de árvore quilaia, que é abundante no Chile.

Embora a empresa tenha considerado o adjuvante da casca de quilaia seguro, este extrato ainda não foi avaliado como parte de um produto final na submissão feita à Food and Drug Administration dos EUA.

Joanne Cleary, porta-voz da Seqirus, diz que, “nesta fase, os esqualenos [alternativos] ainda não foram aprovados pelos reguladores para uso em vacinas devido aos níveis de pureza exigidos”.

Contudo, o Instituto de Investigação em Doenças Infecciosas dos EUA descobriu que o esqualeno de nível farmacêutico produzido pela empresa americana de biotecnologia Amyris correspondeu, e em alguns casos ultrapassou, os perfis de segurança e pureza do esqualeno de tubarão, de acordo com Chris Paddon, cientista da Amyris.

A Amyris está a apostar na cana-de-açúcar como uma alternativa ao esqualeno de tubarão, diz Chris. No sudeste do Brasil, a empresa está a cultivar milhares de hectares de cana-de-açúcar semelhante a bambu para ser processada em esqualeno. Apenas 10 hectares de cana-de-açúcar podem, em teoria, produzir esqualeno suficiente para suportar mil milhões de vacinas contra a COVID-19.

Como os produtores conseguem controlar a forma como a cana-de-açúcar é cultivada e colhida, é possível garantir a qualidade do esqualeno, diz Chris. “Quando usamos produtos de origem animal, há impurezas associadas devido ao ambiente em que são criados e aos locais onde são processados.” Para além disso, diz Chris, plantar cana-de-açúcar também é mais barato do que capturar tubarões e remover os seus fígados.

Austin Gallagher, da organização Beneath the Waves, acrescenta que a pandemia aumentou o escrutínio público sobre o processo de desenvolvimento de vacinas e sobre os ingredientes incluídos nos medicamentos.

“Uma das questões importantes que também resultaram desta pandemia”, diz Austin, “foi trazer à luz a grande questão ambiental que é a perda significativa de tubarões nos nossos oceanos a uma escala global”.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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