Quantos pássaros existem no mundo?

Nova investigação estima que existem entre 50 mil milhões e 430 mil milhões de aves na Terra.

Publicado 20/05/2021, 14:40
população de pássaros

Um bando de pombos a voar sobre Bushwick, Brooklyn. Mas quantos pombos existem? Já agora, quantos pássaros existem? Um novo estudo tenta responder.

Fotografia por George McKenzie Jr

Quando estava num pântano a norte de Everglades em 2015, o biólogo Corey Callaghan observou um enorme bando de andorinhas-das-árvores a voar sob o sol da manhã. Quando a massa de pássaros cruzou os céus, Corey e o seu parceiro ficaram admirados. Quantas andorinhas-das-árvores havia no bando, pensou Corey – por falar nisso, quantos pássaros existem no mundo inteiro?

“Foi uma experiência espetacular”, diz Corey. Inspirado, começou a contar as aves no bando que acabara de testemunhar: mais de meio milhão. Corey chegou a este número tirando fotografias e contando os pássaros em diferentes segmentos das imagens ampliadas.

Contar todas as aves do mundo seria muito mais complicado, por razões óbvias, no entanto, alguns anos depois, Corey decidiu ser o primeiro a tentar estimar um número difícil – ou pelo menos estimar uma faixa plausível. Num novo estudo, Corey e dois outros investigadores da Universidade de Nova Gales do Sul, em Sydney, na Austrália, estimam que existem entre 50 mil milhões e 428 mil milhões de pássaros na Terra.

Esta faixa é muito ampla devido a várias incertezas – entre elas, a dificuldade de contar milhares de milhões de pequenos animais que conseguem voar, o alcance vasto e muitas vezes pouco evidente que os pássaros têm e a ausência de dados científicos em muitas áreas do mundo.

O estudo, publicado no dia 17 de maio na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, usa uma metodologia única que combina dados recolhidos por organizações científicas e cientistas cidadãos, e cobre 92% de todas as espécies de aves no mundo.

Este trabalho é a primeira tentativa para estimar a população mundial de pássaros, espécie por espécie. Para Corey, este esforço já vem tarde: “Perdemos muito tempo e esforço a contar humanos, mas precisamos de ter a certeza de que estamos a controlar toda a biodiversidade com a qual partilhamos o planeta Terra.”

Muitos pardais, poucas raridades

De acordo com o estudo, a ave mais abundante do mundo é o familiar pardal, com uma população de 1.6 mil milhões. Em segundo lugar está o estorninho-comum (1.3 mil milhões), seguido pelas gaivotas-de-bico-redondo (1.2 mil milhões), andorinhas-das-chaminés (1.1 mil milhões), gaivotas-hiperbóreas (949 milhões) e papa-moscas-dos-amieiros (896 milhões).

Os cientistas não ficaram surpreendidos por encontrar poucas espécies extremamente abundantes e outras bastante raras, dado que este é o padrão comum na ecologia. No geral, os cientistas estimam que 1.180 espécies de aves – 12% do total mundial – têm uma população total abaixo dos 5.000 indivíduos.

Quando uma espécie tem uma população total abaixo dos 2.500 indivíduos, a União Internacional para a Conservação da Natureza classifica-a como espécie em perigo de extinção.

Estas raridades incluem um pouco de tudo, desde o Apteryx haastii (população estimada: 377 indivíduos) à águia-gavião Javan (630) e o falcão-das-seychelles (menos de 100). Em relação às andorinhas-das-árvores, que ajudaram a despertar a curiosidade de Corey, existem cerca de 24 milhões, conforme Corey descobriu ao fazer o estudo.

Para fins comparativos, a população mundial estimada de galinhas domésticas gira em torno dos 25 mil milhões, tornando-as, de longe, nas aves mais abundantes. Mas este estudo concentrou-se apenas nos pássaros selvagens.

Não se sabe exatamente quantas aves desapareceram nas últimas décadas, mas este estudo ajuda a fornecer uma estimativa para estabelecer uma linha de base. Um artigo de 2019 calculava que a população total de aves reprodutoras adultas na América do Norte tinha diminuído em cerca de 3 mil milhões desde 1970.

A parte inédita deste estudo é a forma como combina os dados científicos de profissionais e cidadãos, diz Lucas DeGroote, investigador do Centro de Pesquisa Aviária Powdermill do Museu de História Natural Carnegie.

“É muito ambicioso – é uma tarefa árdua tentar descobrir quantos pássaros existem no mundo”, diz Lucas. “Eles refletiram muito sobre isto e tomaram todas as medidas possíveis para o tornar o mais exato possível.”

Fragilidade da natureza

Os investigadores usaram estimativas de três conjuntos de dados produzidos por especialistas de todo o mundo para as organizações científicas Partners in Flight, British Trust for Ornithology e BirdLife International. E combinaram os dados com observações do site eBird, o maior banco de dados do mundo recolhido por cientistas cidadãos – neste caso, observadores amadores de aves.

Os cientistas descobriram que, em muitos casos, a densidade e as estimativas populacionais recolhidas pelos profissionais e pelos cientistas cidadãos eram relativamente semelhantes. Depois, estimaram o tamanho da população de outras espécies, algumas das quais careciam de dados profissionais abrangentes, e usaram as informações do site eBird no seu modelo de computador.

Os investigadores são os primeiros a admitir que há várias incertezas inerentes às suas estimativas. Mas parte da força do estudo passa pela forma como quantifica essas incertezas e fornece uma vasta gama de populações possíveis para milhares de pássaros, diz Thomas Brooks, cientista-chefe da União Internacional para a Conservação da Natureza, que não esteve envolvido no estudo.

Ken Rosenberg, cientista de conservação do Laboratório de Ornitologia de Cornell, considera o estudo “uma tentativa ousada”. Mas recomenda cautela na interpretação dos dados, porque há muita variabilidade e incerteza nas estimativas.

“É difícil apontar números individuais para cada espécie”, diz Ken, sem falar nas estimativas globais. “Foi como se tivessem feito um desafio [aos outros investigadores] – se não gostarem deste número, descubram um melhor.”

Para Thomas Brooks, o estudo ilustra como muitas espécies de aves são preciosas e o quão perto do limite podem estar caso surjam novas ameaças.

“Informa-nos certamente sobre a fragilidade da natureza – precisamos de ficar atentos ao ambiente e ao nosso impacto sobre o mesmo”, diz Thomas.

Lucas DeGroote concorda. “Para se fazer conservação, temos de saber quantas [aves de uma espécie] existem e qual é a tendência. Esta é uma ótima ferramenta para medir populações no futuro.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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