As aranhas comem cobras pelo mundo inteiro, revela estudo surpreendente

As viúvas-negras norte-americanas, e não as tarântulas tropicais, têm um gosto particular por répteis, de acordo com uma análise abrangente de dados de seis continentes.

Publicado 29/06/2021, 13:41
aranha-errante

Uma aranha-errante enorme ataca uma cobra na floresta amazónica do Peru.

Fotografia de Anton Sorokin / Alamy Stock Photo

Uma aranha consegue matar e comer uma cobra?

Esta pergunta pode parecer um pouco infantil, mas é o tema de um novo estudo publicado na Journal of Arachnology. A resposta é um grande sim – tanto que os próprios cientistas que conduziram o estudo ficaram surpreendidos com os seus resultados.

“Fiquei surpreendido quando percebi que as aranhas que comem cobras podem ser encontradas em todos os continentes (exceto na Antártida)”, diz Martin Nyffeler, líder do estudo e especialista em aranhas da Universidade de Basileia, na Suíça. “Fiquei surpreendido por ver que tantos grupos de aranhas diferentes conseguem matar e comer cobras. E fiquei surpreendido por tantas espécies diferentes de cobras serem ocasionalmente mortas por aranhas.”

“Tudo isto era previamente desconhecido”, diz Martin por email.

Ao todo, Martin e o seu coautor, J. Whitfield Gibbons, especialista em cobras da Universidade da Geórgia, examinaram todos os artigos de literatura científica que conseguiram encontrar, bem como sites de redes sociais, coberturas noticiosas e edições antigas da National Geographic, para revelar mais de 300 observações de aranhas a matar cobras. Os dados abrangem mais de 40 espécies de aranhas e mais de 90 espécies de cobras.

Uma viúva-negra ataca uma cobra no Parque Nacional de New River Gorge, na Virgínia Ocidental.

Fotografia de Julia Statler

Como seria de esperar, as aranhas grandes, como as tarântulas, estão entre as que têm mais probabilidades de enfrentar um réptil. Mas não são as que comem mais cobras. Em vez disso, uma família de aranhas conhecida por Theridiidae, que inclui viúvas-negras e parentes, foi responsável por capturar a maioria das cobras. Ainda mais curioso, a grande maioria destes relatos não aconteceu nos trópicos, mas sim na América do Norte.

Esta investigação também expande significativamente o nosso conhecimento sobre o comportamento predatório das aranhas, que pode desempenhar um papel mais importante do que se pensava no equilíbrio do ecossistema, acrescenta Martin.

“Todas as aranhas do mundo juntas pesariam cerca de 25 milhões de toneladas e matariam cerca de 400 a 800 milhões de toneladas de presas por ano”, diz Martin. “Para compreender completamente o papel importante das aranhas no equilíbrio da natureza, é crucial compreender todo o espectro dos seus hábitos alimentares.”

Como as aranhas atacam

Normalmente, as cobras caçadas pelas aranhas são pequenas – com cerca de 25 centímetros de comprimento. Mas estas pequenas serpentes têm corpos muito maiores do que os aracnídeos, que têm um comprimento corporal médio de pouco mais de um centímetro.

Na maioria dos casos (como acontece com as Theridiidae), estas aranhas pequeninas constroem teias extremamente resistentes, que muitas vezes se estendem até ao solo, e prendem cobras desprevenidas. Quando captura uma cobra, a aranha usa a sua picada venenosa para paralisar a vítima, envolvendo-a em seda e puxando-a para cima para jantar. As enzimas digestivas presentes na picada da aranha liquefazem as partes moles da cobra, assim como fariam a uma mosca. A aranha leva depois o seu tempo a sorver o interior do animal, com algumas refeições a estenderem-se durante dias e até semanas.

“Apesar de eu estar sempre a falar sobre o quão forte é a seda de aranha, creio que ainda subestimava este material incrível”, diz por email Sebastian Echeverri, cientista especializado em aranhas e editor do site Arachnofiles. “Eu presumia que uma cobra conseguia escapar para um lugar seguro. As cobras são basicamente músculos abdominais que são duros como uma rocha!”

Cerca de 30% das cobras no estudo também eram venenosas, como a cobra-coral do Novo Mundo, a cobra Pseudonaja australiana, as cascavéis e cobras Bothrops insularis. Mas de que serve o veneno se o nosso inimigo é demasiado pequeno para ser perfurado?

“Não é fácil uma cascavel conseguir usar o veneno para se defender contra uma aranha”, diz Emily Taylor, bióloga de cobras e diretora do Laboratório de Ecologia Fisiológica de Répteis da Universidade Politécnica Estadual da Califórnia.

Boas (cobras) samaritanas

Como muitos dos incidentes tinham acontecido na selva e sido observados por leigos, os cientistas analisaram outra tendência – quando os humanos intervêm.

Entre as 319 ocorrências aranha/cobra, a aranha conseguiu matar a cobra 87% das vezes. Em 1.5% dos incidentes, a cobra conseguiu escapar sem ajuda. Mas em 11% dos casos, as pessoas intervieram para resgatar as serpentes.

Mesmo na Austrália, onde a maioria dos confrontos acontecem entre cobras castanhas e aranhas de dorso vermelho – duas espécies letais para os humanos – houve ocasiões em que as pessoas também ficaram cobertas de teias antes de conseguir libertar as cobras.

“Como a maioria dos humanos tem repulsa tanto de aranhas como de cobras, é muito surpreendente ver que existem humanos dispostos a salvar uma cobra”, diz Martin, que também sofre de “fobia severa de cobras”. (Descubra se já nascemos com medo de serpentes e aranhas.)

Dada a dieta mais diversificada dos aracnídeos, o estudo também pode inspirar uma investigação mais aprofundada sobre a forma como o seu veneno funciona.

“Apesar de já compreendermos bem como é que as toxinas da viúva-negra afetam o sistema nervoso dos vertebrados, ainda não percebemos bem a forma de atuar das toxinas de muitas outras famílias de aranhas”, diz Martin.

“No geral, o estudo é realmente provocador”, acrescenta Emily Taylor, porque apresenta dois animais que muitas pessoas temem.

“Para a maioria das pessoas, este seria o seu pior pesadelo. Oito patas contra zero patas”, diz Emily. “Mas, para mim, é o meu país das maravilhas.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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