Alterações climáticas influenciam o ciclo de vida dos robalos

Um estudo da Universidade de Coimbra concluiu que as alterações climáticas têm influência no início do ciclo de vida dos robalos, atrasando a sua eclosão.

Publicado 13/07/2021, 17:17
robalo

O atraso no nascimento do robalo pode ter consequências a longo prazo, como alterações na conetividade mar-estuário e na dinâmica populacional.

Fotografia de Joel Sartore, National Geographic Photo Ark

Um estudo, intitulado “Influence of oceanic and climate conditions on the early life history of European seabass Dicentrarchus labrax”, chegou à conclusão de que, entre outros resultados, o início do ciclo de vida do robalo é influenciado pela temperatura da água do mar e pela variabilidade atmosférica e oceânica. A investigação foi conduzida por Miguel Pinto, Filipe Martinho e Miguel Pardal, do Marine Research Lab, do Centro de Ecologia Funcional (CFE) da Universidade de Coimbra e o trabalho foi publicado na revista científica Marine Environmental Research.

Os resultados indicam que o aumento da temperatura do mar tem atrasado o nascimento dos robalos e isso pode revelar-se prejudicial devido à possibilidade de quebra da sincronia entre as larvas recém eclodidas e a sua fonte preferencial de alimento, o zooplâncton. Uma eclosão mais tardia pode vir a coincidir com os fenómenos de afloramento costeiro, típicos da primavera e do verão, e pode impedir as larvas de chegar aos estuários e, assim, completar o seu ciclo de vida.

Possíveis efeitos a longo prazo para o robalo

O estudo permitiu compreender, pela primeira vez, como o início do ciclo de vida do robalo é influenciado pela temperatura da água do mar e pela variabilidade atmosférica e oceânica, medida pelo índice da Oscilação do Atlântico Norte (NAO, na sigla em inglês).

De acordo com Filipe Martinho, "em anos de NAO negativo, reconhecidos como períodos de produtividade oceânica muito reduzida, o atrasar da eclosão poderá contribuir para uma elevada mortalidade dos juvenis, com efeitos negativos nos stocks pesqueiros a longo prazo".

Para conseguir avaliar a variabilidade interanual das datas de eclosão e crescimento do robalo na costa portuguesa, entre os anos de 2011 e 2017, e tendo em conta a dificuldade no acesso a amostras no ambiente marinho, foram utilizados os otólitos de robalos juvenis, permitindo maximizar a informação obtida sobre as espécies ao longo da sua vida.

Os otólitos, que existem no ouvido interno de todos os peixes ósseos, são compostos por carbonato de cálcio e desempenham uma função importante na audição, orientação e equilíbrio. Estes são considerados as melhores ferramentas ao dispor dos cientistas, uma vez que é depositada uma nova camada de material em função dos ritmos circadianos, sazonais e anuais, formando um anel distinto.

Este processo permite a reconstrução da história de vida dos peixes com elevada resolução, que se assemelha à forma como se determina a idade de uma árvore, pela contagem dos anéis do seu próprio tronco. No caso do robalo, a deposição de um novo anel a cada dia permitiu determinar com precisão a sua data de nascimento, a sua idade, assim como a taxa de crescimento diária, obtida através da distância entre cada anel.

A análise da microestrutura do otólito foi então utilizada para determinar o dia de nascimento dos robalos e desenvolver correlações de crescimento inicial. Na maioria dos anos, a eclosão ocorreu de fevereiro a abril, com exceções do ano de 2012, em que a eclosão começou no início de janeiro, e do ano de 2016, onde foi registado um período de eclosão excecionalmente longo.

A influência das alterações climáticas

O robalo revelou ainda ter um crescimento bastante rápido nos primeiros dias de vida. A equipa de investigadores observou ainda que tal facto suporta a teoria de Johan Hjort (1914), relativa à existência de um período crítico de crescimento que irá determinar o sucesso, ou não, de uma coorte.

Assim, conclui-se que quanto mais o robalo cresce nos primeiros dias de vida, maior a sua probabilidade de alocar energia para nadar ativamente, procurar alimento, fugir de predadores e conseguir fazer a migração entre a zona costeira e os estuários. Os impactos no seu ciclo de vida são mais sentidos nas regiões do sul da Europa.

Os resultados obtidos determinaram que as alterações climáticas têm várias implicações para a gestão das pescas. Com esta descoberta, ficamos a conhecer que o aumento na temperatura da água do mar vai conduzir a uma eclosão do robalo tardia, assim como, as consequências desse atraso em termos da ligação mar-estuário e na dinâmica populacional.

Desta forma, é possível prever o impacto que o aquecimento global irá ter nos stocks desta espécie, sob as suas consequências a longo prazo e, assim, contribuir para o desenvolvimento de medidas de gestão adequadas.

Os resultados da investigação são fundamentais para definir estratégias de preservação

A compreensão da história da infância de peixes marinhos é afetada, a longo prazo, por fatores ambientais e oceanográficos, dada a sua importância para a dinâmica e conetividade populacional.

Para além do exposto, a investigação revelou que a relação com a temperatura da água do mar fornece informações imprescindíveis acerca da capacidade, ou falta dela, do robalo lidar com as alterações climáticas.

O declínio generalizado da espécie em estado selvagem na Europa deve-se a ser uma espécie muito apreciada pelos consumidores. No território português, o robalo é a terceira espécie mais produzida por aquicultura, depois do pregado e da dourada.

A equipa de investigadores alerta que "em Portugal, a estrutura dos stocks desta espécie é virtualmente desconhecida, pelo que mais do que nunca é necessário desenvolver medidas de gestão e proteção direcionadas a esta espécie".

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