As formas surpreendentes como os tubarões mantêm o oceano saudável

Estes predadores têm um papel vital na estabilização dos seus ecossistemas – e isto pode ser ainda mais importante à medida que as alterações climáticas progridem.

Publicado 29/07/2021, 12:16
Tubarões-cinzentos, comuns na região do Indo-Pacífico, alimentam-se de peixes Naso brevirostris.

Tubarões-cinzentos, comuns na região do Indo-Pacífico, alimentam-se de peixes Naso brevirostris.

Fotografia de Laurent Ballesta, Nat Geo Image Collection

Os tubarões, que estão entre os predadores mais ferozes do oceano, também são alguns dos animais mais vulneráveis. Cerca de três quartos das espécies de tubarões e raias de alto-mar estão ameaçadas de extinção, principalmente devido à sobrepesca.

Os cientistas alertam há vários anos que o declínio destas populações pode ser catastrófico. Como os tubarões são os principais predadores que ajudam a manter a cadeia alimentar sob controlo, seria lógico pensar que eram uma espécie-chave – espécies que têm um efeito desproporcionalmente grande nos seus ecossistemas. Sem espécies-chave, os ecossistemas mudam ou podem até mesmo desaparecer.

Para os tubarões, porém, este conceito tem sido desde há muito tempo uma coisa principalmente teórica. Os peixes e os seus habitats marinhos são difíceis de estudar, exigindo equipamentos especiais para entrar na água e fazer a sua observação. As mais de 500 espécies de tubarões de que há conhecimento também variam em tamanho, caçam animais diferentes e vivem em ambientes dramaticamente diferentes, onde é quase impossível identificar a influência de uma espécie.

Estas complexidades têm prejudicado os esforços que visam estudar a forma como os tubarões afetam os seus ecossistemas de alto a baixo. Por exemplo, um estudo de 2007 parecia fornecer evidências claras de que a perda de grandes tubarões-brancos no Atlântico Norte levou a uma enorme abundância de raias gavião-do-mar, que por sua vez dizimaram as populações de vieiras, amêijoas e ostras. Mas os cientistas questionam se este declínio nos bivalves pode ter sido influenciado por outro fator – como o tráfego de embarcações.

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“Queremos que as coisas sejam simples, mas não vão ser”, diz Michael Heithaus, ecologista marinho da Universidade Internacional da Flórida e fundador do Projeto de Investigação do Ecossistema de Shark Bay, que estuda Shark Bay há mais de duas décadas, um refúgio com cerca de 22.800 quilómetros quadrados no oeste da Austrália.

A investigação feita em Shark Bay tem mostrado que os tubarões sustentam os seus ecossistemas não necessariamente enquanto caçadores, mas sim enquanto reguladores. Ao manter os seus ambientes estáveis e resilientes, os tubarões podem ajudar a mitigar as alterações climáticas e os efeitos de eventos climáticos extremos, como vagas de calor e furacões.

Descortinar um ecossistema

Shark Bay é o lugar ideal para estudar a forma como os tubarões interagem com os seus ambientes. Neste ecossistema, os tubarões-tigre são sazonais, permitindo aos investigadores observar como é que os outros animais se comportam na sua presença e durante a sua ausência. Considerado Património Mundial da UNESCO, Shark Bay também tem populações saudáveis de predadores e presas e prados densos de ervas marinhas temperadas, que abrandam as correntes de água, mantêm a água limpa e fornecem habitat e alimento para diversas espécies. As ervas marinhas também retêm dióxido de carbono, um forte gás de efeito estufa, e estabilizam os sedimentos no fundo do oceano que armazenam este gás. Assim que o dióxido de carbono fica preso nos sedimentos, pode permanecer lá durante dezenas de milhares de anos.

A Origem do Nosso Medo de Tubarões
Ver um tubarão pode ser bastante assustador. Não faz mal admitir isso. Os tubarões são alguns dos predadores mais poderosos do oceano. E sim, ocasionalmente mordem pessoas que entram no seu habitat. No entanto, a noção de que os tubarões são os animais vingativos e que devoram humanos que vemos nos filmes não poderia estar mais longe da verdade. Pelo contrário, estima-se que todos os anos 100 milhões de tubarões são mortos por humanos, colocando uma série de espécies à beira da extinção. Embora frequentemente os tornemos vilões nas nossas histórias, os tubarões podem ter mais motivos para nos temer a nós.

“Não conheço outro lugar na Terra como este”, diz Rob Nowicki, cientista investigador afiliado ao Laboratório Marinho Mote, que trabalhou com Michael Heithaus em Shark Bay. “É o cenário perfeito para testar estas coisas numa escala realmente grande.”

Desde 1997, ano em que Michael, que também é um Explorador da National Geographic, lançou o projeto, os investigadores recolhem dados sobre todos os elementos do ecossistema de Shark Bay, fornecendo a base para desvendar as suas intrincadas relações.

Uma das descobertas importantes, publicada em 2012, mostrava que os tubarões-tigre exercem controlo sobre os habitantes de Shark Bay, como os dugongos (parentes dos manatins) e tartarugas marinhas, afugentando estes herbívoros dos prados de ervas marinhas tropicais, que são escoadores de carbono menos eficientes do que as ervas marinhas temperadas. Por outras palavras, perder as ervas marinhas tropicais não é tão prejudicial para o ambiente como perder as ervas temperadas.

Mas nos locais onde os tubarões estão em declínio e as tartarugas marinhas foram protegidas, como nas Caraíbas e na Indonésia, os répteis começaram a desgastar demasiado as ervas marinhas, algo que pode afetar os esforços que querem mitigar as alterações climáticas globais, de acordo com Trisha Atwood, que lidera o Laboratório de Mudança Global e Ecologia Aquática da Universidade Estadual de Utah.

“Ao longo das últimas duas décadas percebemos que os ecossistemas das ervas marinhas são, na verdade, alguns dos melhores retentores de carbono do mundo”, diz Trisha. “Conseguem reter carbono muito mais depressa do que qualquer floresta terrestre.” (Descubra como a floresta amazónica danificada está agora a emitir dióxido de carbono em vez de o reter.)

Em 2015, baseada na descoberta de 2012, Trisha descobriu que os tubarões-tigre de Shark Bay também evitam que os herbívoros perturbem os sedimentos repletos de carbono que estão debaixo das ervas marinhas temperadas.

“Não estamos a sugerir que não devemos proteger as tartarugas marinhas. O que estamos a sugerir é que precisamos de proteger os tubarões para eles conseguirem ajudar a regular a alimentação dos outros animais”, diz Trisha.

Recuperar do clima extremo

Shark Bay também tem oferecido uma visão sobre a forma como os tubarões podem tornar os ecossistemas mais resistentes aos efeitos das alterações climáticas.

Em 2011, uma vaga de calor marinho extremo atingiu Shark Bay e destruiu cerca de 90% das suas ervas marinhas temperadas, deixando as restantes particularmente vulneráveis. Sabendo que as ervas marinhas precisavam de muito tempo para recuperar, os investigadores aproveitaram esta situação como uma oportunidade.

“Queríamos saber o que acontecia num mundo alternativo de Shark Bay, onde os tubarões-tigre tinham sido todos pescados”, diz Rob Nowicki. “Será que os dugongos conseguiriam terminar o trabalho iniciado pela vaga de calor?”

Rob e os seus colegas dividiram as esteiras de ervas marinhas da baía em parcelas e simularam qual seria a sua reação com e sem a presença de tubarões. Os investigadores descobriram que as esteiras de ervas marinhas que não eram protegidas por tubarões-tigre degradaram-se até ao ponto de colapso. Enquanto isso, as parcelas patrulhadas pelos tubarões eram mais estáveis, porque os tubarões forneciam às ervas marinhas mais tempo para recuperar.

Este estudo mostra que os tubarões-tigre são uma verdadeira espécie-chave em Shark Bay, diz Rob – e provavelmente também são noutros lugares.

“Isto levanta um alerta vermelho gigante de que ter populações robustas de grandes tubarões pode ser importante para a estabilidade dos ecossistemas”, diz Michael Heithaus, coautor do estudo. “À medida que os ecossistemas são mais impactados, provavelmente queremos optar por ter populações de predadores intactas em vez de cruzarmos os braços e esperar que corra tudo bem.”

Manter a calma

Shark Bay oferece um vislumbre sobre o papel importante que os tubarões podem desempenhar enquanto predadores, mas Michael diz que a questão agora é saber o quão aplicável é este modelo no mundo inteiro. “Não podemos estudar apenas os próprios tubarões – temos de estudar todos os aspetos do ecossistema.”

Por exemplo, Michael diz que também há evidências de que as crias de tubarão-buldogue, que também nadam em água doce, depositam nutrientes vitais no rio em Everglades – mas ainda não se sabe o quão importante é esta infusão de nutrientes.

Rob compara a diversidade de tubarões num ecossistema aos suportes que sustentam uma ponte, ou seja, com a perda de cada espécie, derruba-se mais um dos pilares que mantém a estrutura unida.

“O problema é não sabermos quando é que isto vai resultar em colapso”, diz Rob. “Mas com predadores como os tubarões, precisamos de ter cuidado – porque podemos perder ainda mais com o seu desaparecimento.”  
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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