Desoxigenação do Atlântico está a empurrar os tubarões para superfície

Cientistas portugueses alertam para o facto dos tubarões no Atlântico estarem a ser pressionados pela desoxigenação do oceano profundo, causada pelas alterações climáticas.

Publicado 1/07/2021, 17:25 WEST
tubarão-de-pontas-brancas-oceânico

Um tubarão-de-pontas-brancas-oceânico à superfície.
O tão aguardado Sharkfest regressa no mês de julho ao National Geographic Wild.

Fotografia de Andy Mann/National Geographic

Investigadores do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE), da Universidade de Lisboa, e do Centro de Investigação de Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO-InBIO), da Universidade do Porto, assim como cientistas de institutos em Inglaterra e Espanha, estão a estudar zonas de oxigénio mínimo em expansão e a forma como comprimem o habitat dos tubarões.

As alterações climáticas estão a expandir as zonas de oxigénio mínimo, que tipicamente se encontravam entre os 200 e os 800 metros de profundidade nas regiões tropicais, diminuindo significativamente o habitat disponível para os grandes peixes marítimos, como os tubarões-azuis.

Vários fatores associados à desoxigenação do Atlântico, impulsionados pelo clima, contribuíram para a compressão vertical do habitat do tubarão-azul, em busca de concentrações de oxigénio mais elevadas, aumentando potencialmente a sua vulnerabilidade à pesca de superfície.

As causas da desoxigenação do Atlântico

O oxigénio dissolvido na água está a diminuir, provocando a desoxigenação dos oceanos. Esta mudança ocorre devido ao aquecimento da temperatura do mar, aumento da estratificação e alteração da circulação, e às interações desses processos com a atividade biológica indutora de hipoxia.

Esses níveis de oxigénio têm um papel importante na estruturação dos ecossistemas marinhos. As expansões verticais das zonas de oxigénio mínimo podem alterar os processos microbianos essenciais para o ciclo de nutrientes e fluxos de gás, alterando a dinâmica predador-presa e alterando as distribuições, abundância e risco de captura de espécies comercialmente importantes.

O alargamento dessas zonas pode ter implicações significativas para a ecologia e pesca de predadores de topo, uma vez que se espera que camadas hipóxicas de cardumes comprimam o habitat de peixes pelágicos, ou seja, espécies que vivem na zona pelágica (nem perto do fundo, nem perto da costa).

Nuno Queiroz, investigador do CIBIO-InBIO e co-autor do estudo, destaca algumas espécies de tubarões mais comuns ao longo da costa portuguesa: "os tubarões de profundidade como o Carocho e a Lixa”. Relativamente às espécies pelágicas, indica que "o tubarão pelágico mais comum é o tubarão-azul”, sendo ainda relativamente fácil observar esta espécie.

A compressão de habitat associada à expansão da hipoxia, pelo rebaixamento de água fria e hipóxica, reduz a profundidade da camada mista de superfície oxigenada.

Segundo o especialista existem “zonas costeiras já hipóxicas ou mesmo anóxicas. Isto devido ao impacto da atividade agrícola, uma vez que a chegada ao mar de adubos leva a um grande aumento da população de produtores primários e quando produtores primários e secundários são decompostos, a atividade bacteriana consome o oxigénio todo existente na água. O cientista acrescenta que “existem zonas que são naturalmente hipóxicas, sendo designadas como zonas de oxigénio mínimo, que estão ligadas aos grandes sistemas de afloramento (upwelling). No Atlântico Norte existe uma zona de oxigénio mínimo, ao largo da costa africana, sendo a zona mais hipóxica ao largo de Cabo Verde”.

Captura potencialmente mais fácil

Este trabalho estudou o efeito que uma das zonas de oxigénio mínimo no Nordeste Atlântico, próximo de Cabo Verde, tem nos movimentos e na distribuição do tubarão-azul. Os investigadores marcaram vários espécimes com transmissores de satélite e registaram as profundidades máximas de mergulho.

Ao seguir os movimentos horizontais e o comportamento de mergulho dos tubarões marcados, observaram mudanças no seu comportamento, com períodos de maior permanência à superfície, como forma de evitar o défice de oxigénio das águas profundas.

De acordo com Nuno Queiroz, a permanência dos tubarões-azuis à superfície apresenta riscos para a própria espécie, pois “é perto da superfície que se encontram os anzóis de pesca. O risco será maior para as espécies de valor comercial que são capturadas por anzóis, como tubarões-azuis e anequins”.

Os cientistas controlaram ainda as deslocações dos barcos de pesca, por palangre de superfície, e confirmaram que a zona de oxigénio mínimo da Costa Ocidental Africana é uma área de pesca intensiva, nomeadamente de tubarões-azuis.

A captura do tubarão-azul 

O tubarão-azul é uma espécie, comercialmente importante, sobretudo devido às suas barbatanas. Estes tubarões viajam milhares de quilómetros, da superfície até mais de 1600 metros de profundidade.

Esta espécie perfaz, aproximadamente, 90% do total das capturas reportadas no Atlântico e, no entanto, está classificada como “Quase Ameaçada” pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), tendo poucas restrições à sua captura a nível mundial.

Os resultados do trabalho de investigação, publicado no jornal eLife, sublinham a necessidade de medidas de gestão para mitigar os efeitos da desoxigenação do Atlântico nas capturas de tubarões, que são aparentemente substanciais acima de águas profundas pouco oxigenadas. Pode ainda ser necessário tornar as zonas de oxigénio mínimo em áreas marinhas protegidas, de forma a garantir a proteção de tubarões no futuro.

Para Nuno Queiroz existem outras estratégias de proteção que poderão também ser implementadas, tais como: “a implementação de quotas e a sua fiscalização rigorosa, e a mudança no tipo de anzóis usados. Por exemplo, os anzóis circulares permitem uma maior taxa de sobrevivência dos tubarões, quando capturados. Se um maior número de tubarões chegar vivo ao barco, será mais fácil implementar medidas como, por exemplo, a libertação obrigatória de uma determinada espécie”.

O estudo foi cofinanciado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia e fará parte de um projeto mais alargado financiado pelo Conselho Europeu de Investigação (CEI) atribuído ao professor David Sims, que conta com a participação de investigadores do CIBIO-InBIO. A previsão da duração da investigação é de cerca de cinco anos, continuando a pesquisa a providenciar uma visão crucial sobre os efeitos da desoxigenação do Atlântico em predadores de topo, como os tubarões e atuns.

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