Nuno Queiroz: “É já evidente que o tubarão-anequim devia ter uma quota de pesca de zero”

Em conversa com a National Geographic, o investigador Nuno Queiroz sublinhou a urgência da melhoria das medidas de proteção dos tubarões e a necessidade da sua implementação rigorosa.

Publicado 15/07/2021, 14:49 WEST
Nuno Queiroz

Nuno Queiroz, um dos maiores especialistas portugueses no estudo e monitorização de tubarões, esteve recentemente nos Açores a marcar tubarões para posterior análise do seu comportamento.

Fotografia de Nuno Queiroz

Os tubarões podem provocar medo e receio como nenhuma outra criatura marinha, mas isso não justifica a sua ingrata demonização pela cultura popular. Sabia que a probabilidade de morrermos esmagados por uma máquina de venda automática é maior do que no ataque de um tubarão?

O relatório internacional de ataques de tubarões do Museu de História Natural da Flórida confirmou um total de 96 ataques de tubarões a humanos no ano de 2020, em todo o mundo. A análise revela ainda que o número de incidentes sem “provocação” humana foi substancialmente mais baixo do que a média dos cinco anos anteriores (2015-2019). Embora os confinamentos generalizados, as praias fechadas e a redução das viagens possam ter contribuído para esta queda em 2020, o relatório indica que as tendências de curto prazo demonstram a redução dos ataques de tubarões.  

Se o número de ataques é reduzido, por outro lado, a ação humana continua a apresentar um grande perigo para estes animais. Apesar da destruição do habitat, da poluição e das alterações climáticas prejudicarem a conservação dos tubarões, o maior impacto é a pesca excessiva. Estima-se que ocorram anualmente cerca de 100 milhões de capturas. De acordo com um estudo recente, as populações de 18 espécies de tubarões e raias colapsaram 70% desde 1970. Os autores da investigação alertam que, caso este ritmo se mantenha, muitas das espécies podem desaparecer dentro de uma ou duas décadas.

Nuno Queiroz, investigador do Centro de Investigação de Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO-InBIO) dedicado ao estudo e monitorização de tubarões, tem vários trabalhos a decorrer com o seu grupo de investigação MOVE, Movement Ecology. Além da procura de padrões semelhantes no comportamento de diferentes espécies de predadores marinhos, a equipa analisa o risco a que os tubarões estão sujeitos, comparando zonas onde os tubarões passam mais tempo com zonas onde os barcos de pesca também passam mais tempo.

O grupo de investigadores do CIBIO-InBIO está a desenvolver tecnologia própria, como um logger capaz de medir o oxigénio disponível na água, para melhor estudar o impacto da desoxigenação dos oceanos no comportamento dos tubarões e como isso influência o seu risco de captura.  

Numa conversa com a National Geographic, Nuno Queiroz explicou o impacto dos declínios populacionais de algumas espécies e frisou a urgência de aumentar os esforços de conservação.

O que o levou a dedicar o seu trabalho ao estudo de tubarões?
Desde pequeno que sempre senti um fascínio pela vida marinha e em particular por tubarões. O meu pai tinha uma série de livros do Hans Hass e ia regularmente pescar, e contava sempre histórias do que ia vendo, incluindo tubarões (isto ao largo de Moçambique onde nasci). 

Em que zonas de Portugal existe maior concentração de tubarões? E maior diversidade de espécies?
Os tubarões existem por toda a costa portuguesa, mas há zonas onde é mais fácil encontrá-los, como por exemplo no Algarve ou ao largo dos Açores e Madeira. Diria que os Açores serão a zona onde existe uma maior diversidade porque para além de ser possível observar espécies também comuns em Portugal continental, é uma região que recebe a 'visita' sazonal de espécies menos frequentes, como tubarões-baleia por exemplo.

Esquerda: Superior:

A equipa de investigadores esteve a marcar tubarões com a tag da equipa e transmissores de satélite. 

Direita: Fundo:

A marcação dos indivíduos é feita através de transmissores colocados na barbatana, uma zona maioritariamente composta por cartilagem e pouco vascularizada, ideal para uma marcação com o menor impacto possível. 

Fotografia de Nuno Queiroz

Tem conhecimento de algum acidente relacionado com tubarões em Portugal?
Acidente grave não. Mas tenho um amigo que sofreu um corte num dedo durante um torneio de marcação de tubarões.

Qual o impacto da pandemia na migração de tubarões?
Ainda não se conhece bem. O que foi observado, sobretudo no primeiro confinamento mundial, foi um maior número de tubarões avistados perto da costa, em praias e portos. Isto estará provavelmente relacionado com a enorme diminuição de ruído que foi verificada. Existe agora um projeto mundial de biotelemetria da International Bio-Logging Society (COVID-19 BIO-LOGGING INITIATIVE) que vai analisar o comportamento de várias espécies de animais antes, durante e depois do confinamento. 

Por que motivo é tão urgente proteger estes animais?
Porque nas últimas décadas várias espécies sofreram declínios populacionais enormes (algumas espécies chegaram a perder cerca de 80 a 90% da população). E foram sobretudo as espécies de valor comercial a sofrer os maiores declínios. São predadores de topo que têm uma função importantíssima de controle top-down. Há casos bem documentados de como a remoção de predadores de topo como tubarões causa um distúrbio ecológico grave que leva, por exemplo, a uma explosão populacional das suas presas, muitas vezes com impactos económicos. Estes exemplos são sobretudo para zonas costeiras com cadeias alimentares bem definidas sendo que o impacto da remoção de tubarões no mar alto não está ainda bem estudado.

Quais as ações de conservação atualmente praticadas em Portugal?
Portugal tem algumas zonas de proteção marítima costeiras, mas em relação às espécies pelágicas de mar alto, adota as medidas definidas a nível europeu para as diferentes zonas de pesca (Atlântico, Pacífico Sul e Índico). Por exemplo, existe atualmente uma quota de pesca (limite de captura) para os tubarões-anequins (em águas internacionais do Atlântico Norte) e para tubarões-azuis (mais recente).

Como se podem aumentar os esforços de conservação das espécies de tubarão que ocorrem na Zona Económica Exclusiva (ZEE) portuguesa?
Sobretudo com a melhoria das medidas de proteção definidas para as diferentes zonas de pesca, como por exemplo o Atlântico Norte. Estas medidas acabam depois por ter um impacto nas ZEE. Por exemplo, é já evidente que o tubarão-anequim devia ter uma quota de pesca de zero. Aliás, esta espécie foi recentemente incluída no anexo II da CITES e tem o seu comércio proibido. Mas incompreensivelmente, é ainda possível aos barcos de bandeira europeia capturar anequins.

De que forma a população pode contribuir para a conservação dos tubarões?
Uma vez que o consumo de carne e barbatanas não é muito expressivo, a população poderia fazer pressão sobre a classe política para que as medidas de proteção fossem melhoradas e implementadas rigorosamente, uma vez que muitas espécies estão em risco não só pela pesca excessiva, mas também por causa das alterações climáticas (ligadas ao aquecimento e desoxigenação).

 

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