As cascavéis enganam os humanos fazendo-os pensar que estão mais perto do que estão

Ao alterarem a frequência dos seus ruídos, estas cobras venenosas alertam os intrusos quando estes estão demasiado perto.

Publicado 27/08/2021, 11:19
 cascavel de diamante do oeste

Uma cascavel-diamante-ocidental coloca-se em posição de ataque. Uma nova investigação descobriu que as cascavéis alteram a velocidade dos seus ruídos quando uma potencial ameaça se aproxima.

Fotografia de Karine Aigner

O som de alerta da cascavel, um ch-ch-ch estridente, é um dos ruídos mais arrepiantes da natureza – porque se o conseguimos ouvir, já estamos demasiado perto.

Contudo, de acordo com um novo estudo publicado no dia 19 de agosto na revista Current Biology, esta comunicação é mais complexa do que se imaginava.

Ao analisar as vibrações de alerta das cascavéis-diamante-ocidentais (Crotalus atrox), os cientistas descobriram que os ruídos das cascavéis têm frequências baixas de até 40 hertz, ou mais lentas, quando uma ameaça está mais distante. Mas quando um intruso se aproxima demasiado – uma distância que difere dependendo de cada cobra – as cascavéis mudam abruptamente para um sinal de alerta mais rápido e de alta frequência, que ronda os 60 e os 100 hertz.

Quando foi pedido aos participantes no estudo para ouvir e estimar a distância de uma cascavel numa pastagem de realidade virtual, os palpites eram bastante precisos quando os ruídos eram mais lentos ou de baixa frequência. Quando os ruídos ficavam mais rápidos, porém, os humanos eram enganados e pensavam que as cobras estavam muito mais perto do que estavam realmente.

Quando uma cascavel agita a cauda lentamente, o ouvido humano consegue discernir cada som individual. Mas nas frequências mais elevadas, os sons individuais fundem-se num ritmo contínuo, que soa “completamente diferente para o ouvido humano”, diz Boris Chagnaud, neurocientista da Universidade de Graz, na Áustria, e autor do novo estudo.

Para além disso, através de uma peculiaridade de perceção, os ruídos de alta frequência soam mais alto para nós, embora tenham basicamente a mesma amplitude, ou volume, diz Boris.

“Talvez essa seja outra função destes sons, para confundir os predadores”, diz Bree Putman, herpetologista da Universidade Estadual da Califórnia, em San Bernardino, que não participou no estudo.

Uma cascavel-diamante-ocidental prepara-se para atacar.

Fotografia de Joel Sartore

A linguagem secreta das cascavéis

Mais de 35 espécies de cascavéis vivem nas Américas, desde o sul do Canadá até à Argentina. Quando se sentem ameaçadas, as cobras sacodem rapidamente as pontas das caudas como se fossem chocalhos biológicos, agitando secções interligadas de queratina oca, a mesma matéria que compõe os nossos cabelos e unhas.

Apesar de os humanos estarem apenas agora a começar a descobrir os detalhes da comunicação das cascavéis, outras espécies já ouvem os seus ruídos há muito mais tempo.

Por exemplo, os esquilos terrestres conseguem determinar o quão perigosa é uma cobra através da frequência dos sons que emitem.

Isto acontece porque as cobras são ectotérmicas, ou animais de sangue frio. “O seu desempenho depende do quão quentes estão”, diz Bree. “Portanto, uma cobra mais quente é uma cobra mais perigosa e chocalha mais depressa.”

As cascavéis também variam os seus ruídos por outros motivos. As cascavéis em período de gestação ou que acabaram de dar à luz tendem a ser mais agressivas, enquanto que as que estão escondidas e seguras debaixo de uma rocha ou perto de um buraco têm menos tendência para emitir sons. Algumas cascavéis nem sequer fazem barulho e confiam na sua camuflagem para se esconderem do perigo.

Embora não seja surpreendente para Bree que as cobras codifiquem informações relacionadas com a distância nos seus movimentos de cauda, a herpetologista acha intrigante o facto de os humanos avaliarem mal a distância das serpentes.

Não é para ouvidos humanos

As cascavéis já existiam há milhões de anos antes de os humanos migrarem para as Américas, pelo que os cientistas acreditam que o chocalho destes répteis evoluiu como uma forma de prevenção para outras ameaças. Na verdade, alguns cientistas acreditam que os ruídos podem ter sido originalmente uma forma de impedir que os bisontes pisassem as cobras camufladas.

“O aspeto mais interessante para um biólogo como eu é que muitas vezes ouvimos outros animais a comunicar e ainda não sabemos o que estão a dizer uns aos outros”, diz Boris.

Outros predadores também podem estar a ouvir esta comunicação. Como têm uma boca cheia de veneno que pode destruir a pele e células sanguíneas, pode ser tentador pensar que as cascavéis são completamente imunes a predadores. Mas nada poderia estar mais longe da verdade.

Scott Boback, ecologista evolucionário do Dickinson College, na Pensilvânia, usa câmaras remotas para estudar cascavéis numa experiência chamada Project RattleCam. Scott diz que ficou chocado por ver a quantidade de criaturas – desde falcões e pegas a guaxinins e doninhas – que arriscam a vida para comer uma cobra.

“Elas têm de enfrentar muitos animais diferentes”, diz Scott sobre os desafios de sobrevivência que as cascavéis enfrentam.

Se há tantos predadores que gostam de comer cascavéis, então é possível que alguns animais usem o som de uma cascavel não como um alerta para se afastarem, mas sim como um sinal que leva até à sua próxima refeição.

“Fico a pensar que as cascavéis podem estar a usar os sons de alta frequência, onde um predador não consegue realmente discernir a sua distância, mais como um último recurso [para desaparecerem]”, diz Scott.

O que fazer se encontrar uma cascavel

Mesmo para as pessoas que estão habituadas a ver estes animais na natureza, o som ch-ch-ch tipo maraca é sempre surpreendente.

“É sempre um momento de parar o coração”, diz Asia Murphy, ecologista da Universidade da Califórnia, em Santa Cruz. “Adoro encontrá-las, embora o som me assuste.”

Asia Murphy encontra frequentemente cascavéis enquanto estuda as suas interações com outros predadores, como linces, raposas e coiotes, e diz que existem algumas regras simples para nos mantermos seguros.

“Tenha sempre a noção de onde se senta e onde coloca as mãos e os pés. Nunca tente tocar nas cobras, quer seja com um ramo ou uma vara. Não as manuseie, obviamente.”

Mantenha sempre uma distância de pelo menos dois metros e resista ao impulso de retirar vegetação nas proximidades ou outras partes do seu habitat para conseguir obter uma boa fotografia.

Para além de existir uma razão lógica para recearmos qualquer animal venenoso, as cascavéis também merecem respeito.

“Na verdade, elas são extremamente educadas”, diz Asia Murphy, referindo que têm consideração quando “nos avisam de que estão lá”.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registrar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2017 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados