Estão a desaparecer camelos na Índia, ameaçando uma cultura nómada secular

Vender leite de camelo pode ser uma solução para manter o modo de vida de pastoreio de camelos dos Raika.

Por Kalpana Sunder
Publicado 18/08/2021, 15:52
Passeio de camelos no pôr-do-sol

O sol poente revela a silhueta de camelos no Deserto de Thar, uma região na fronteira entre a Índia e o Paquistão.

Fotografia de Matthieu Paley, Nat Geo Image Collection

CHENNAI, ÍNDIA – O seu pai e avô eram pastores de camelos, pelo que Bhanwarlal também se tornou pastor de camelos. “Os nossos camelos são uma extensão das nossas famílias”, diz Bhanwarlal, de 35 anos, membro do grupo étnico Raika, grupo que acredita ter uma vocação divina do deus hindu Shiva para cuidar de camelos no estado noroeste do Rajastão.

“Os nossos filhos criam laços com os camelos desde muito pequenos. Os camelos vivem e morrem connosco”, disse Bhanwarlal à National Geographic em entrevista por telefone.

Quando chega a estação seca, Bhanwarlal – que só tem um nome – e os seus companheiros pastores levam os rebanhos de ovelhas, cabras e camelos, apetrechados com chocalhos ao pescoço e pompons multicoloridos, ao longo de mais de mil quilómetros através do Deserto de Thar para as suas pastagens de verão. Vestidos com os seus turbantes carmesim e túnicas brancas, Bhanwarlal e os seus antepassados levam uma vida seminómada há séculos.

Agora, este ritual anual está ameaçado por diversos fatores, sendo que o mais severo é o declínio no número de camelos. A população total de camelos na Índia – todos descendentes de dromedários selvagens, ou camelos árabes – teve um decréscimo de 37% entre 2012 e 2019, de acordo com a última contagem do 20º Censo Pecuário que foi publicada em 2019. As estimativas atuais sugerem que há menos de 200.000 camelos entre as nove raças, e 80% destes animais vivem no Rajastão, onde são criados para fornecer transporte, lã e leite, bem como para arar campos.

Contudo, uma vaga recente de desenvolvimento no oeste da Índia trouxe novas estradas e veículos que substituíram os animais de carga – muitas vezes apelidados de “navios do deserto” – enquanto principal meio de transporte de pessoas e mercadorias. Os projetos de irrigação, como o Canal Indira Gandhi, o maior da Índia, levaram ao aumento de terras agrícolas e, juntamente com a instalação de novos parques solares e eólicos, há menos espaço aberto para os camelos pastarem. Os camelos também parecem ter ficado menos populares entre o público: os festivais de camelos, que outrora apresentavam músicas e danças folclóricas, tendas de comida e de artesanato e vendas animadas de camelos, praticamente desapareceram.

Colocando ainda mais em perigo esta tradição está o colapso do turismo devido à pandemia e uma lei estadual de 2015 que proíbe a exportação e venda de camelos macho, que inclui uma proibição total sobre a venda de carne de camelo. (Os Raika consideram que comer carne de camelo é uma violação das suas crenças religiosas.)

Esta lei estadual foi motivada pelo contrabando de camelos dos Raika para outros países, onde há demanda pela sua carne, diz Ilse Köhler-Rollefson, veterinária alemã que em 1996 fundou a organização sem fins lucrativos Lokhit Pashu-Palak Sansthan para proteger os Raika e os seus meios de subsistência. Mas esta lei tem sido controversa. “Não é prático restringir a venda de animais domésticos, que está intrinsecamente ligada à rentabilidade”, diz Ilse, que também é Exploradora da National Geographic. “Os camelos macho têm de ser vendidos para os Raika conseguirem sustento.”

Os camelos da Índia são descendentes de dromedários selvagens, ou camelos árabes.

Fotografia de Matthieu Paley, Nat Geo Image Collection

Devido a estes obstáculos, Bhanwarlal, cuja família vive na aldeia de Malari, decidiu mandar os seus filhos para a escola e incentiva-os a terem uma vida longe do pastoreio de camelos.

“A única coisa que ainda nos sustenta é a venda de leite de camelo. A menos que o governo nos dê alguns incentivos, crie laticínios à base de leite de camelo e nos permita vender camelos macho, estamos condenados”, diz Bhanwarlal.

O departamento de criação de animais do Rajastão não respondeu aos pedidos da National Geographic para comentar.

O novo superalimento?

O leite de camelo tornou-se numa bebida da moda na Índia, considerado por muitos nutricionistas como o novo superalimento, diz Dharini Krishnan, nutricionista da cidade de Chennai. O leite de camelo tem baixo teor de açúcar, é rico em vitaminas e minerais, como vitamina C e potássio, e é uma alternativa para quem tem intolerância à lactose, diz Dharini.

Os cientistas estão a investigar os potenciais benefícios terapêuticos que o leite de camelo pode ter para a saúde humana, embora estes estudos ainda sejam muito limitados para se tirarem quaisquer conclusões. Por exemplo, um dos estudos sobre um pequeno grupo de diabéticos tipo 1 em Bikaner, no Rajastão, mostrou que o leite de camelo pode reduzir a necessidade de insulina.

Porém, tornar o leite de camelo numa fonte de rendimento para os pastores de camelos apresenta os seus próprios desafios. O transporte de leite de camelo cru para as cidades exige que o leite seja pasteurizado e refrigerado, um processo dispendioso, diz Sumanth Vyas, cientista do ICAR-Centro Nacional de Investigação de Camelos, sediado em Bikaner, no Rajastão.

“Não é suposto os camelos serem criados pelo seu leite, e o leite de camelo enquanto negócio é difícil porque a logística entre procura e oferta está muito distante uma da outra”, diz Sumanth.

Estes obstáculos motivaram Ilse Rollefson a fundar a Kumbhalgarh Camel Dairy perto de Sadri em 2010. Esta empresa de laticínios gerida pelos Raika recolhe perto de 500 litros de leite por semana de vários pastores, que ordenham manualmente as fêmeas com estas em pé, permitindo às crias beberem leite do outro lado. O leite é congelado, embalado com gelo e vendido a vários mercados nas cidades.

Em 2016, Shrey Kumar foi o cofundador da Aadvik Foods, uma startup sediada em Deli que usa leite proveniente de produtores de camelos Raika no Rajastão. A Aadvik Foods começou a vender leite de camelo congelado através de encomendas online, sendo a primeira empresa na Índia a lançar leite de camelo de marca, bem como leite de camelo em pó. “Queríamos torná-lo acessível a pessoas de todos os grupos económicos e foi por isso que começámos a fazer leite de camelo em pó”, diz Shrey. “O leite de camelo é um mercado de nicho, mas está em crescimento.”

Estimular os pastores de camelos

Os laticínios à base de leite de camelo têm-se revelado lucrativos noutros estados próximos, incluindo em Gujarat, onde pastores de camelos da região Kutch fizeram parceria com a Amul, uma cooperativa de laticínios sediada em Gujarat que lançou leite de camelo em 2019. Para além do leite de camelo, que tem um prazo de validade de seis meses, a Amul também vende leite de camelo em pó, gelado e chocolates de leite de camelo.

Para responder ao aumento da demanda, cerca de 60 a 70 pastores de camelos ordenham quase 2.000 camelos, um negócio avaliado em 40 a 50 milhões de rúpias (cerca de 538.000 a 673.000 dólares), diz RS Sodhi, diretor administrativo da Amul.

Ramesh Bhatti, do Fundo Sahjeevan, uma organização sem fins lucrativos que trabalha para proteger camelos em Gujarat, diz que as observações sugerem que a população de camelos de Gujarat aumentou devido ao crescente interesse no leite de camelo, embora não exista um censo oficial. “Há definitivamente uma demanda por leite de camelo e, neste momento, é superior ao que conseguimos fornecer”, diz Ramesh.

Ainda assim, desenvolver uma indústria de leite de camelo não é a única solução que os Raika precisam para sobreviver, alerta Sumanth Vyas.

Com a lei estadual de 2015 a sufocar a sua principal fonte de rendimento, os pastores também precisam de mais acesso a pastagens para os seus camelos, bem como de mais apoios do governo que, por exemplo, incentivem o uso de camelos nos transportes, promovendo o turismo sustentável com camelos, e a criação de empresas de laticínios geridas pelo governo.

“Temos empréstimos bancários para todos os tipos de veículos, mas quando se trata de apoiar os pastores no transporte de mercadorias com camelos dificilmente há ajuda financeira”, diz Sumanth.

Em relação a Bhanwarlal, o pastor diz que a criação de camelos está permanentemente entrelaçada na cultura Raika.

“Era isto que os nossos antepassados faziam e espero que também o possamos continuar a fazer”, diz Bhanwarlal. “É uma vocação sagrada e não podemos permitir que morra.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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