Ursos, babuínos e tigres estão a ser vacinados contra a COVID em zoos nos EUA

Eis o que deve saber sobre a vacina experimental da COVID-19 que está a ser administrada a animais em zoos – e porque é que os nossos animais de estimação não a estão a receber.

Publicado 24/08/2021, 12:08
Vacinação no zoo de Oakland

Um chimpanzé examina um brinquedo no Zoo de Oakland, na Califórnia, em abril de 2020. Este macaco é um dos 48 animais de zoos que receberam uma vacina contra a COVID-19 concebida exclusivamente para animais. Nos EUA, milhares de doses estão a ser distribuídas em zoos, instituições de investigação e santuários.

Fotografia de Ben Margot, AP

Kern, um urso-pardo, recebeu a sua vacina contra a COVID-19 no dia 21 de julho. Depois, comeu natas diretamente da lata.

Os tigres, juntamente com a vacina, tiveram direito à sua carne favorita – carne de bovino – em espetadas com um borrifo de leite de cabra. Os macacos siamango –gibões enormes de pelo negro – receberam um marshmallow grande. Os babuínos receberam gomas de fruta e um ovo cozido (descascado).

No Zoo de Oakland, na Califórnia, 48 animais – incluindo hienas, chimpanzés e pumas – receberam pelo menos uma dose de uma vacina experimental contra a COVID-19 feita exclusivamente para animais. Metade dos animais já está completamente vacinado.

O Zoo de Oakland está entre dezenas de zoos, instituições de investigação e santuários que solicitaram vacinas à empresa farmacêutica veterinária Zoetis. Os requisitos surgiram após a notícia de que os grandes símios no Zoo de San Diego se tinham tornado nos primeiros animais do país a receber vacinas; isto aconteceu em fevereiro, conforme relatado pela primeira vez pela National Geographic.

“O artigo despertou o interesse de muitos outros zoos e foi isso que deu origem aos nossos grandes planos de doação”, diz Mahesh Kumar, vice-presidente do departamento de produtos biológicos globais da Zoetis, empresa que desenvolveu a vacina.

Os referidos planos de doação incluem o envio gratuito de cerca de 11 mil doses da vacina animal para mais de 80 instituições de 27 estados norte-americanos. É um desenvolvimento promissor para os animais que vivem em zoos e que correm o risco de contrair a doença devido à sua proximidade com humanos.

Mas ainda há muitas incógnitas. Quão eficazes são as vacinas? Será que irão proteger os animais contra a variante Delta? A sua implementação será dificultada pelas objeções das pessoas anti-vacinas? E será que os animais de estimação também precisam de ser vacinados? Os cientistas e instituições responsáveis pelo lançamento da vacina animal esperam encontrar respostas para estas questões durante os próximos meses.

Porquê vacinar animais nos zoos?

Desde o início da pandemia que os animais em zoos contraem o vírus. Primeiro foram tigres e leões no Zoo de Bronx, em abril de 2020; mais tarde, foi um grupo de gorilas no Zoo Safari Park de San Diego. Em junho de 2021, dois leões morreram num zoo na Índia depois de testarem positivo para a COVID-19.

Perus selvagens passeiam pelo parque de estacionamento do Zoo de Oakland em abril de 2020, quando o zoo foi encerrado aos visitantes devido à pandemia de COVID-19. Este jardim zoológico está entre as 70 instituições que esperam que a vacina experimental proteja os seus símios e carnívoros.

Fotografia de Carolyn Cole / Los Angeles Times via Getty Images

“Temos um vasto espectro de animais para cuidar, desde pequenos sapos venenosos a elefantes”, diz Alex Herman, vice-presidente de serviços veterinários do Zoo de Oakland.

Embora o Zoo de Oakland não tenha detetado sintomas de COVID-19 nos seus animais, “sabíamos que os nossos animais estavam em risco”, diz Alex. “A equipa do zoo está completamente vacinada, mas não sabemos o quão grave será a Delta ou qual o risco de transmissão para os animais.”

“Este vírus originou em animais e passou para as pessoas, e sabemos que se pode propagar novamente para os animais”, acrescenta Nadine Lamberski, diretora do departamento de conservação de vida selvagem da Wildlife Alliance do Zoo de San Diego. “Para além de querermos manter os animais do Zoo de San Diego mais seguros, queremos fazer o nosso melhor para interromper este ciclo [de transmissão] e evitar que o vírus se propague.”

Vacina experimental em zoos

Depois de um cão ter testado positivo para o vírus em Hong Kong em fevereiro de 2020 – o primeiro caso registado num animal domesticado – a empresa Zoetis começou a desenvolver uma vacina COVID-19 para cães e gatos. Em outubro de 2020, a empresa farmacêutica estava confiante de que a sua vacina era segura e eficaz em ambas as espécies.

A vacina experimental, de acordo com Mahesh Kumar, funciona de forma semelhante à da vacina da Novavax para humanos, que atualmente está na fase de ensaios de eficácia em grande escala. Em vez de usar mRNA (como acontece com as vacinas da Pfizer-BioNTech e da Moderna), um vetor viral (como a vacina da Johnson & Johnson) ou um vírus vivo, esta vacina usa proteínas “espigão” sintéticas para desencadear os mesmos anticorpos que o vírus vivo desencadearia.

A distribuição de vacinas nos zoos tem um caráter experimental. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos não está a considerar a aprovação comercial de qualquer vacina para animais, com a exceção de uma vacina para visons em cativeiro nas quintas de peles, onde os surtos têm uma enorme propagação, diz Mahesh. (Pelo menos 12.000 visons morreram de COVID-19 nas quintas de peles nos EUA e, em alguns casos, acredita-se que tenham transmitido o vírus a humanos.)

Archie, um furão, recebe a vacina animal COVID-19 da Zoetis no Zoo de Oakland, no dia 21 de julho de 2021. Archie lambe um pouco de “ferret-vite” – um suplemento vitamínico saboroso – da mão do seu tratador, algo que o distrai da injeção.

Fotografia de ZOO DE OAKLAND

Antes do envio de cada remessa de vacinas, a Zoetis tem de obter aprovação individual por parte do Departamento de Agricultura e do veterinário do estado onde fica o zoo. “Há muito trabalho”, diz Mahesh, que supervisiona 80 acordos individuais [com zoos] e 80 requisições individuais ao Departamento de Agricultura e aos veterinários estaduais. Até agora, a Zoetis concluiu o processo para 15 zoos e enviou cerca de 2.000 doses.

A empresa tem recebido muitos pedidos de zoos e de outras instalações internacionais, mas a logística adicional que acompanharia os regulamentos de vários países seria demasiado desafiante, diz Mahesh. Por enquanto, a empresa está focada apenas nos zoos dos EUA.

Decidir quais são os animais a vacinar

Um ano e meio após o início da pandemia, os cientistas ainda sabem pouco sobre a forma como o vírus afeta os animais não humanos. Alguns estudos identificaram espécies que podem estar em risco elevado. Em muitos casos, a comunidade veterinária tem de confiar nos conjuntos limitados de dados, aprendendo o que consegue com casos clínicos individuais e surtos esporádicos em meia dúzia de espécies.

Tanto o Zoo de San Diego como o Zoo de Oakland requisitaram vacinas para todos os seus primatas e carnívoros – um grupo de animais que inclui grandes felinos, ursos, hienas, furões e visons, entre outros. Sabe-se que estes animais são suscetíveis ao vírus, mas excluindo a referida morte de dois leões na Índia, a maioria dos grandes felinos e primatas apresenta apenas sintomas respiratórios ligeiros e recupera completamente.

No Zoo de San Diego e no Zoo Safari Park de San Diego, 266 animais receberam pelo menos uma dose da vacina. Nenhum destes animais ou os animais no Zoo de Oakland mostraram quaisquer efeitos secundários, de acordo com Nadine Lamberski e Alex Herman.

Anti-vacinas animais

Quando o Zoo de Oakland anunciou planos para vacinar alguns dos seus animais, a instituição enfrentou imediatamente a reação de pessoas anti-vacinas nas redes sociais, via telefone e por email. Os influenciadores anti-vacinas no Instagram, com dezenas de milhares de seguidores, ajudaram a ampliar os ataques.

“Foi um ataque violento”, diz Erin Harrison, vice-presidente do departamento de marketing e comunicações do Zoo de Oakland. “Dizem que estamos a envenenar os nossos animais, a matar os nossos animais.”

Muitas das mensagens, repletas de desinformação, interpretaram o facto de a vacina estar legalmente definida como experimental como uma indicação de que os zoos estavam a realizar experiências nos seus animais. “Metade das pessoas disseram que nos iam denunciar à PETA”, diz Erin.

A PETA, por sua vez, divulgou uma declaração a apoiar o Zoo de Oakland: “Estas vacinas foram clinicamente testadas e administradas a animais somente após uma análise aprofundada por parte de profissionais veterinários. Dado que um número cada vez maior de grandes felinos, macacos e lontras em zoos está a contrair SARS-CoV-2 – o vírus que provoca a doença COVID-19 – a partir de humanos assintomáticos, as evidências indicam claramente que os benefícios da vacinação em espécies suscetíveis superam em muito os terríveis riscos de infeção em animais não vacinados.”

Os zoos de Oakland e San Diego planeiam fazer testes de anticorpos aos animais vacinados e partilhar os resultados com a comunidade zoológica para construir uma base de dados que pode ajudar a determinar a eficácia da vacina em várias espécies.

Porque é que os animais de estimação não estão a ser vacinados

Apesar de cães e gatos terem testado positivo para a COVID-19 em alguns casos pelo mundo inteiro, os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA e a Associação Mundial de Veterinários de Pequenos Animais (WSAVA) não recomendam a vacinação de animais de estimação devido aos seus sinais clínicos relativamente moderados e à falta de evidências de que os animais de estimação podem transmitir o vírus a humanos.

“A nossa opinião continua a ser a de que, neste momento, não existe a necessidade de os donos considerarem a vacinação dos seus animais de estimação contra o SARS-CoV-2”, salienta a WSAVA num relatório de 29 de abril. (Michael Lappin, presidente do Comité de Saúde da WSAVA, confirma que a opinião da associação não se alterou.)

Amy, um chimpanzé, recebe a vacina contra a COVID-19 enquanto já está anestesiada para o seu exame anual. Os primatas são particularmente suscetíveis ao vírus; vários macacos noutros jardins zoológicos apresentaram testes positivos.

Fotografia de ZOO DE OAKLAND

Considerando o número de visitantes de zoos e tratadores de animais, a probabilidade de um animal ficar exposto ao vírus num zoo é maior, diz Mahesh. “Quando comparados com leões e tigres, eu não diria que os gatos [domésticos] são menos suscetíveis – porque os gatos provavelmente estão muito menos expostos às pessoas.”

Nos EUA, qualquer pedido de vacinação para um gato ou um cão teria de passar pelo mesmo processo que os pedidos de vacinação para os animais de zoos, com uma aprovação individual do Departamento de Agricultura e de um veterinário estadual. “É fácil imaginar o que aconteceria se tivéssemos 100.000 pedidos de vacinação para cães e gatos. Portanto, não é uma forma prática de o fazer”, afirma Mahesh.

“A vacinação de cães e gatos dependeria de uma solicitação e autorização do governo para um uso comercial amplo.” Atualmente, o Departamento de Agricultura dos EUA só está a aceitar pedidos de vacinas COVID-19 para visons, portanto, a não ser que esta situação se altere, a vacina da Zoetis só estará disponível para outras espécies numa base experimental avaliada caso a caso.

“A melhor forma de prevenir [a COVID-19] em cães e gatos é evitar que os seus donos fiquem infetados”, diz Michael Lappin. Por outras palavras, Mahesh Kumar diz aos donos de animais de estimação: “Vacinem-se.”

Natasha Daly é redatora da National Geographic, onde aborda a interseção entre animais e cultura. Siga-a no Twitter e no Instagram.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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