A China declara que os pandas já não são uma espécie ameaçada – mas as ameaças persistem.

A competição com vida selvagem nativa pode impedir os esforços que visam aumentar as populações do famoso urso negro e branco no seu habitat nativo.

Por Kyle Obermann
Publicado 3/09/2021, 11:08
panda em perigo

Um panda-gigante em cativeiro e a sua cria exploram o recinto no Centro de Pesquisa e Conservação Wolong da China, na província de Sichuan.

Fotografia de Ami Vitale, Nat Geo Image Collection

HONG KONG – O panda-gigante, o animal nacional da China, é um símbolo global de beleza. Mas estes ursos negros e brancos há muito que sofrem devido às suas qualidades irresistíveis – são caçados pelas suas peles, contrabandeados para os EUA e o Japão e alvo de especulação de mercado por parte de colecionadores.

Na década de 1980, o seu número populacional na natureza já tinha declinado para pouco mais de mil. A extinção estava no horizonte.

Mas neste verão, os pandas também se tornaram num símbolo global de sucesso de conservação. As autoridades chinesas anunciaram que estes animais – cuja população selvagem quase que duplicou após 30 anos de esforços de recuperação liderados pelo governo – já não estão ameaçados.

Em 2016, a União Internacional para a Conservação da Natureza já tinha reclassificado o panda-gigante, passando de ameaçado para vulnerável, citando um aumento populacional constante e a expansão do seu habitat. Mas alguns cientistas e as autoridades chinesas rejeitaram essa avaliação, alegando que era prematura e que podia prejudicar os esforços de proteção dos pandas.

Muitos dos grandes predadores foram eliminados das florestas da China, o que permitiu a proliferação de espécies de presas, como a cabra-gnu de Sichuan e o javali do norte da China.

Fotografia de Kyle Obermann for Conservation International

Desde 2016, os avanços foram muitos. A China designou um novo Parque Nacional do Panda Gigante, que cobre 70% do habitat existente dos animais, principalmente na província de Sichuan. E o número de pandas em programas de reprodução em cativeiro pelo mundo inteiro quase que duplicou, contando agora com 633 individuos. São valores a rondar mais do dobro do que os cientistas dizem ser necessário para preservar a diversidade genética, que é vital para a sobrevivência da espécie.

Enquanto isso, um estudo sobre os efeitos das alterações climáticas nos pandas e no bambu, que constitui 99% da dieta destes animais, mostra que a sua tolerância às variações de temperatura e precipitação é muito maior do que se pensava anteriormente.

“Na realidade, o aumento que verificamos atualmente era algo que ninguém tinha a certeza que iria acontecer há 20 anos. Agora, os pandas são um caso de muito sucesso”, diz Fang Wang, biólogo conservacionista da Escola de Ciências da Vida da Universidade de Fudan, em Xangai.

Mas este sucesso tem os seus limites, porque a recuperação dos pandas não está garantida, alertam os especialistas. A desflorestação generalizada e a fragmentação de habitat restringem os movimentos dos pandas na natureza a uma área inferior a  1% da sua distribuição histórica. E há novas ameaças no horizonte.

Conflitos naturais

O facto de a China alocar mais terras nas reservas naturais para ajudar os pandas a recuperar também tem beneficiado as cabras-gnu de Sichuan, animais ungulados de tons castanhos claros que fazem lembrar um cruzamento entre uma vaca e uma cabra das montanhas – animais que podem pesar mais de 360 quilos. A população de cabras-gnu na Reserva Natural Nacional de Tangjiahe, um importante refúgio de pandas, quase que triplicou, passando de 500 individuos em 1986 para mais de 1.300 em 2015. (Os machos de cabra-gnu podem ser perigosos, sobretudo durante o cio. Nas montanhas Qinling, ao longo de um período de nove anos, estes animais mataram 22 pessoas e feriram 184.)

“Temos observado a forma como a atividade das cabras-gnu influencia claramente o crescimento da vegetação”, diz Diao Kunpeng, fundador da Qingye Ecology, uma organização sem fins lucrativos sediada em Sichuan, que trabalha na gestão de reservas naturais e faz trabalhos de investigação.

As cabras-gnu retiram a casca das árvores para se alimentar, expondo-as a infeções mortais provocadas por fungos e insetos. Assim, a composição da floresta muda – ficando com menos árvores grandes e com mais vegetação rasteira. “Mas os pandas gostam de florestas de bambu com árvores grandes”, que servem como covis de maternidade para cuidarem das suas crias, diz Diao.

Os pandas-gigantes vivem numa área inferior a 1% da sua antiga distribuição, uma área que geralmente consiste em reservas protegidas.

Fotografia de Kyle Obermann for Conservation International

Os pandas marcam as árvores com uma substância cerosa, que é segregada pelas glândulas que têm por baixo das caudas, como uma forma comunicação e para encontrar parceiros. Mas quando as cabras-gnu se esfregam nas árvores para aliviar a comichão, podem eliminar ou diminuir as marcas odoríferas dos pandas.

Os cientistas ainda não têm dados concretos para mostrar de que forma as alterações na floresta afetam os pandas selvagens, mas um estudo de longo prazo feito em Tangjiahe pode fornecer mais respostas, diz Diao.

De acordo com Fang Wang, os javalis do norte da China podem ser ainda mais problemáticos para os pandas. “Ambos os animais são protegidos na China. Não existe uma estimativa oficial sobre o número de javalis, mas aparentemente são mais numerosos do que as cabras-gnu, o seu alcance é maior e o impacto no ambiente também é muito mais pronunciado”, diz Fang.

Na primavera, os rebentos de bambu são uma fonte valiosa de proteína e nutrientes para os pandas, sobretudo para as mães grávidas ou lactantes. Mas os javalis também gostam de comer os rebentos e as investigações mostram que os pandas evitam comer nas áreas habitadas por javalis. Por outro lado, o número de pandas tem aumentado nas áreas circundantes que têm poucos javalis.

Para além disso, os javalis transmitem doenças como cinomose e peste suína, que podem afetar outras espécies. “Sabemos que estes vírus infetam os pandas”, diz Fang.

Os javalis também danificam plantações, e Fang receia que isso possa reduzir o apoio dado aos esforços de conservação de vida selvagem nas áreas onde vivem os pandas.

Os pandas-gigantes têm poucos predadores naturais e, no passado, animais como leopardos-das-neves, cães-selvagens-asiáticos e lobos mantinham o número de animais e javalis sob controlo. Mas estes predadores de topo quase que desapareceram, de acordo com um estudo de 2020 da coautoria de William McShea, ecologista de vida selvagem do Instituto de Biologia de Conservação Smithsonian. A maioria morreu devido à caça furtiva e perda de habitat, diz William, que trabalhou na China durante mais de 20 anos e defende “o regresso destes carnívoros”.

As autoridades de vida selvagem não têm dados suficientes sobre cabras-gnu ou javalis para desenvolver planos de gestão que equilibrem os seus números e necessidades com os dos pandas, diz Fang.

A Administração de Silvicultura de Sichuan, a agência responsável por supervisionar a conservação de vida selvagem e habitat na região, não respondeu aos pedidos da National Geographic para comentar.

‘O futuro positivo dos pandas’

Durante grande parte do século XX, as peles de panda vendidas no mercado negro internacional alcançavam somas avultadas – até 100.000 dólares. No seu livro de 1994, The Last Panda, o naturalista George Schaller descrevia os pandas como uma espécie atormentada pela caça furtiva, perda de habitat e fraca gestão por parte das autoridades. Na época, George previu que “os caçadores furtivos eliminariam os pandas muito antes de a consanguinidade se tornar um problema”.

Atualmente, a caça furtiva é rara e a extração de madeira foi praticamente eliminada, tanto dentro como fora das reservas. George Schaller, agora com quase 80 anos, diz que está muito mais otimista. “Se eu fosse escrever outro livro, teria de ser algo sobre o futuro positivo dos pandas.”

Uma rede dedicada de guardas florestais ajudou a conter o declínio dos pandas – na província de Sichuan, lar da maioria dos pandas selvagens, pelo menos 4.000 guardas-florestais patrulham as 166 reservas naturais. “Os guardas florestais agem como uma barreira entre a lei e as práticas tradicionais”, diz Fang.

Os guardas florestais também ajudam os conservacionistas e biólogos na recolha de informações vitais sobre os animais. Os guardas florestais geralmente vivem nas reservas, caminhado durante semanas a fio através de florestas montanhosas de bambu para manter as armadilhas fotográficas e registar o comportamento da vida selvagem. Os dados recolhidos são usados para determinar a contagem oficial de pandas selvagens na China – o próximo levantamento oficial será feito em 2022 – e ajudam nas investigações e estratégias de conservação.

Uma das medidas adotadas pelos conservacionistas chineses passa pela criação de pandas em cativeiro com o objetivo de os libertar em reservas para fortalecer as populações selvagens.

A reintrodução de pandas na natureza é controversa porque a criação de pandas em cativeiro é muito dispendiosa e morosa.

Os resultados destes esforços têm sido contraditórios. Até agora, foram libertados 14 pandas, 12 dos quais tinham sido criados em cativeiro. Entre estes, nove sobreviveram. Os dois pandas selvagens foram resgatados e mantidos em cativeiro. Após a sua reintrodução, um morreu; o outro é o único panda de que há conhecimento a ter reproduzido com sucesso depois de ter sido libertado na natureza.

No final de 2019, o Centro de Conservação e Pesquisa de Pandas Gigantes da China anunciou um plano para libertar três pandas na província de Jiangxi, onde estes animais estão extintos há pelo menos 10.000 anos.

Esta seria a primeira libertação de pandas em cativeiro fora da província de Sichuan se o plano não tivesse fracassado em meados de 2020, durante um intenso debate entre investigadores e autoridades chinesas sobre a eficácia da reintrodução de pandas.

“No seio das comunidades de especialistas chineses e até mesmo entre as equipas do programa de criação, há opiniões divergentes muito fortes”, diz Fang. “Portanto, em relação à libertação dos pandas, não há um plano completo.”

Fang espera que seja tomada uma decisão para libertar os pandas de uma forma metódica e direcionada, para aumentar as pequenas populações regionais e ligar os corredores de vida selvagem, para os animais conseguirem movimentar-se livremente entre as áreas com bom habitat.

“Independentemente do que venha a acontecer, não precisamos de 600 pandas em cativeiro”, diz Fang. “Talvez só depois de algum fracasso é que vamos conseguir libertar melhor os pandas e melhorar também a vida dos pandas selvagens.”

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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