Estes lémures cantam com um ritmo que até agora só era conhecido em humanos e aves

A descoberta de que os lémures indri cantam em ritmos semelhantes ao tique-taque de um metrónomo, ou como o ritmo de “We Will Rock You” dos Queen, sugere que um traço que pensávamos ser “exclusivamente humano” pode não ser assim tão exclusivo.

Publicado 28/10/2021, 12:14
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O lémure indri, um animal em perigo crítico de extinção – aqui retratado no Parque Nacional Andasibe-Mantadia de Madagáscar – é um dos maiores lémures da atualidade. Este é o primeiro mamífero de que há conhecimento, para além dos humanos, que faz “ritmos categóricos”.

Fotografia de JASON EDWARDS, Nat Geo Image Collection

Durante doze anos, Chiara De Gregorio e os seus colegas acordaram antes do amanhecer e embrenharam-se nas florestas tropicais de Madagáscar para observar um primata em perigo crítico de extinção conhecido por indri, ou lémure cantor. Os investigadores enfrentaram chuvadas que encharcaram os equipamentos, sanguessugas e lémures pouco cooperantes, mas foram recompensados com uma descoberta surpreendente.

Depois de analisarem centenas de canções destes primatas, os cientistas descobriram que os indri cantam com um tipo de ritmo que até agora só estava comprovado nos humanos e aves. Esta é a primeira vez que se descobre que um mamífero para além dos humanos usa estes ritmos, que são definidos por terem um determinado período de tempo entre cada nota musical.

DUETO DE LÉMURES INDRI
Ouça uma fêmea indri, com a sua filha de um ano, a cantar com um macho que está fora da imagem.

“Os indri são os únicos lémures que comunicam através de canções”, diz Chiara De Gregorio, primatóloga da Universidade de Torino, em Itália, e autora principal de um novo estudo sobre os ritmos dos indri que foi publicado na revista Current Biology.

Neste caso, Chiara De Gregorio refere-se à tendência que estes animais têm para se harmonizarem em duetos e até coros com mais de dois animais. Os lémures cantam para encontrar familiares que se perderam, para reivindicar trechos de floresta e até para realizar “batalhas vocais” com os seus vizinhos, diz Chiara De Gregorio por email.

Para o ouvido humano, todos estes sons parecem feitos por uma criança com uma buzina. Mas dentro destes ruídos existem padrões e durações de notas que se sobrepõem às características encontradas na música feita por humanos.

Esta descoberta é ainda mais interessante considerando que, apesar de sermos ambos primatas, a última vez em que humanos e indri partilharam um antepassado comum ainda havia dinossauros a caminhar pela Terra.

“Descobrir que as pessoas e os indri partilham esta forma de ritmo compensa todos aqueles dias passados a tremer debaixo de chuva, à espera que os animais cantassem”, diz Chiara De Gregorio.

Os indri “will rock you

Para compreender melhor por que razão as canções dos indri são especiais, precisamos de conhecer um pouco sobre os blocos de construção musicais.

Em 2015, uma equipa de cientistas analisou mais de 300 peças musicais feitas por humanos e gravadas pelo mundo inteiro. Em todos os continentes e culturas, há determinadas semelhanças que surgem repetidamente. Os cientistas descobriram mais de uma dúzia de características comuns nas músicas, incluindo a utilização de tons específicos e repetição de frases.

Oito das características nas quais os cientistas se concentraram estavam relacionadas com ritmo. Mais especificamente, a música tende a apoiar-se em estruturas de duas batidas, também conhecidas por ritmos categóricos. Nestes padrões, as notas podem ter a mesma duração, criando uma proporção de 1:1 – semelhante aos cliques de um metrónomo – ou uma proporção de 1:2, onde algumas notas são duas vezes mais longas do que as outras.

“Para termos o exemplo de um padrão 1:2, podemos usar a música ‘We Will Rock You’ dos Queen”, diz Andrea Ravignani, coautor do estudo e bio-musicólogo no Instituto Max Planck de Psicolinguística, nos Países Baixos. Na referida música, o padrão “curto-curto-longo” do bombo e das palmas é um exemplo épico da proporção 1:2.

“Este padrão rítmico é muito comum na música humana”, diz Andrea Ravignani.

Recentemente, ficou demonstrado que o rouxinol (Luscinia luscinia) canta na proporção 1:2, mas a sua preferência recai sobre o padrão 1:1. Agora, Andrea Ravignani diz que as evidências são ainda mais fortes de que os indri usam a proporção 1:2 com regularidade – com muito mais frequência do que as aves.

Curiosamente, os lémures também costumam terminar as suas canções com um floreado conhecido na música clássica por ritardando. Isto acontece quando abrandamos o andamento ou prolongamos as notas finais da música.

“Mais uma vez, esta característica não é muito comum”, diz Andrea Ravignani. “A maioria dos animais segue ou não um padrão. O facto de os lémures mudarem as coisas sugere uma flexibilidade impressionante.”

Esta descoberta é ainda mais urgente considerando a situação atual dos indri e de outros lémures. Os lémures estão ameaçados pela caça furtiva e perda de habitat, e os especialistas dizem que só restam entre 1.000 e 10.000 animais na natureza.

“Estamos muito preocupados com a situação dos indri, que é extremamente precária”, diz Chiara De Gregorio. “Estes animais não conseguem sobreviver em cativeiro, ou seja, quando a floresta desaparecer, eles também desaparecem.”

As baleias conseguem fazer o mesmo?

Apesar de ser surpreendente que os indri e os rouxinóis possuam algumas das componentes musicais que outrora eram consideradas exclusivas dos humanos, esta nova descoberta também levanta a questão de saber se outros animais que cantam, como as baleias, também usam estes ritmos.

“Que eu saiba, nunca foram feitas investigações como a nossa em cetáceos, incluindo baleias e golfinhos”, diz Andrea Ravignani. “Creio que este tipo de investigação, onde procuramos os blocos de construção de música noutros animais, ainda está na sua infância.”

Por exemplo, em todos os estudos que foram feitos sobre o canto de aves, os ritmos foram amplamente ignorados até recentemente, diz o biólogo Ofer Tchernichovski, do Hunter College, em Nova Iorque. Em 2020, a equipa de Ofer Tchernichovski publicou um estudo sobre os rouxinóis Luscinia luscinia.

“Só recentemente é que descobrimos isto nas aves, e agora este artigo é o primeiro a descobrir o mesmo em mamíferos”, diz Ofer Tchernichovski, que não participou no novo estudo. “A minha sensação é de que, quanto mais procurarmos, mais iremos encontrar.”

Nos humanos, o amor pela música é praticamente universal. A música pode fazer com que nos sintamos alegres, tristes ou românticos. Pode fazer-nos dançar, chorar ou até lutar. Porém, explicar o que é música ou por que razão atrai as emoções humanas de forma tão poderosa é incrivelmente difícil.

“Num determinado nível, estes ritmos estão a fazer a mesma coisa nos animais”, diz Ofer Tchernichovski. Quer se trate de acasalamento, competição ou parentesco, o criador de cada som está a tentar influenciar os seus ouvintes.

“A música é realmente uma espécie de magia”, diz Ofer Tchernichovski. “Não tem sentido, mas continuamos a gostar e envolvemo-nos nela, e isso dá um propósito às nossas vidas.”

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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