Aves em perigo de extinção têm ‘nascimentos virgens’, acontecimento inédito para esta espécie

Os condores-da-califórnia fêmea não precisam dos machos para procriar – juntando-se a tubarões, raias e lagartos na lista de criaturas que conseguem reproduzir sem acasalar.

Publicado 3/11/2021, 11:17
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O condor-da-califórnia esteve muito perto da extinção na década de 1980, mas tem recuperado lentamente desde então.

Fotografia de ZSSD, Minden Pictures

“Há alguma coisa estranha nos dados sobre os condores.”

Não eram estas as palavras que Oliver Ryder queria ouvir enquanto caminhava para o seu carro após um longo dia de trabalho a tentar salvar condores-da-califórnia, um dos animais mais ameaçados do planeta. Quando a sua colega Leona Chemnick explicou o que estava a ver, o seu receio rapidamente se transformou em entusiasmo.

Há décadas que os cientistas tentam afastar o condor-da-califórnia do abismo da extinção. A população inteira destas aves caiu para apenas 22 indivíduos em 1982. Em 2019, a reprodução em cativeiro e os esforços de libertação já tinham aumentado lentamente a população total destas aves para mais de 500 indivíduos. Este processo exigiu uma gestão cuidadosa das aves em cativeiro, sobretudo na seleção dos machos e fêmeas que conseguiam procriar e produzir proles saudáveis.

Conforme os cientistas analisavam estes dados genéticos, descobriram que dois pássaros macho – conhecidos apenas pelos seus números de estudo SB260 e SB517 – não mostravam quaisquer contribuições genéticas das aves que deviam ser seus pais.

Por outras palavras, estes pássaros vieram ao mundo através de partenogénese facultativa – ou nascimento virgem – de acordo com um artigo revisto por pares que foi publicado no dia 28 de outubro na Journal of Heredity. Nas espécies que normalmente se reproduzem através de relações sexuais, este tipo de reprodução assexuada acontece quando determinadas células produzidas com o óvulo de uma fêmea atuam como espermatozoides e fundem-se com o óvulo.

Um condor-da-califórnia em cativeiro (não é um dos animais mencionados no artigo), numa instalação gerida pela San Diego Zoo Wildlife Alliance.

Fotografia de Ken Bohn, San Diego Zoo Wildlife Alliance

Apesar de ser rara nos vertebrados, a partenogénese já foi observada em tubarões, raias e lagartos. Os cientistas também já registaram a autofecundação em algumas espécies de aves em cativeiro, como perus, galinhas e codornizes-da-china, mas geralmente isto só acontece quando as fêmeas não têm acesso a um macho. Porém, esta é a primeira vez em que algo assim é registado nos condores-da-califórnia.

O mais estranho sobre estes condores, diz Oliver Ryder, é que o SB260 e o SB517 têm mães diferentes, e cada uma delas está alojada com machos. Para além disso, ambas as mães já reproduziram antes e depois com aqueles machos.

“Porque é que isto aconteceu? Simplesmente não sabemos”, diz Oliver Ryder, diretor do departamento de genética de conservação da San Diego Zoo Wildlife Alliance. “O que sabemos é que aconteceu mais do que uma vez, e aconteceu com fêmeas diferentes.”

“Será que vai acontecer novamente? Prefiro acreditar que sim”, diz Oliver Ryder.

Uma ferramenta de sobrevivência?

Nesta espécie em perigo crítico de extinção, só cerca de 300 indivíduos é que voam pelos céus da Califórnia, Arizona e Utah. Com uma população tão reduzida, é possível que os condores estejam a usar a partenogénese como uma ferramenta de sobrevivência, diz Reshma Ramachandran, fisiologista reprodutiva e microbióloga da Universidade do Mississippi, que não participou na investigação.

Existem evidências noutras espécies que sugerem que a partenogénese pode ser uma espécie de salva-vidas para uma espécie em perigo. Por exemplo, o peixe-serra-de-dentes-pequenos, que também está em perigo crítico de extinção, pode estar a recorrer à partenogénese porque não consegue encontrar parceiros na natureza.

Contudo, esta teoria pode não ser aplicável aos condores-da-califórnia. Por um lado, as fêmeas em cativeiro que tiveram as aves macho tinham acesso a parceiros. E nenhum dos descendentes produzidos pela partenogénese sobreviveu para se reproduzir. O SB260 morreu passado pouco mais de um ano; o SB517 morreu antes de completar oito anos. Mas alguns condores-da-califórnia podem viver até aos 60 anos.

Os cientistas fazem uma triagem cuidadosa sobre as possíveis perturbações genéticas quando criam condores em cativeiro, mas é possível que estas aves tivessem mutações genéticas que acabaram por provocar as suas mortes prematuras, diz Oliver Ryder.

“Apesar de ser uma teoria interessante, é demasiado cedo para se dizer realmente o quão significativa é [a partenogénese] para a evolução da espécie ou respetiva conservação”, acrescenta Jacqueline Robinson, geneticista da Universidade da Califórnia, em São Francisco. “Os exemplos deste fenómeno são muito escassos.”

No início deste ano, Jacqueline Robinson, Oliver Ryder e os seus colegas publicaram um estudo que detalha o genoma completo do condor-da-califórnia, dados genéticos valiosos que, no futuro, podem ajudar-nos a compreender melhor o funcionamento da partenogénese nestes animais.

Mais comum do que pensamos?

O que intriga os cientistas é a possibilidade de a partenogénese ser mais difundida do que se pensava.

Reshma Ramachandran, que publicou uma revisão de uma investigação sobre partenogénese em aves em 2018, diz que apesar de o “nascimento virgem” ser maioritariamente documentado nos animais em cativeiro, não existem razões para pensar que não acontece na natureza.

“Na realidade, agora espero ver mais observações na natureza”, diz Reshma Ramachandran.

Oliver Ryder concorda. “Só conseguimos identificar que isto tinha acontecido [nos condores] devido a esses estudos genéticos detalhados. Portanto, será que os pássaros no nosso quintal conseguem ocasionalmente reproduzir-se através de partenogénese? Não há ninguém a observar os detalhes com atenção suficiente para responder a esta pergunta.”

Oliver Ryder acrescenta que, independentemente da resposta, isto é um lembrete para não pensarmos que compreendemos a natureza, porque a natureza reserva sempre algumas surpresas.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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