Este peixe feroz tem 20 dentes novos todos os dias

O chamado bacalhau de Ling do Pacífico, que se alimenta de uma enorme variedade de presas, substitui os seus dentes muito mais depressa do que o esperado – e pode não ser o único.

Publicado 4/11/2021, 14:17
Bacalhau de Ling

Um bacalhau de Ling do Pacífico fotografado no East Bay Regional Park em Alameda, na Califórnia. Estes peixes conseguem desenvolver, em média, 20 dentes novos por dia.

Fotografia de Joel Sartore, National Geographic Photo Ark

O bacalhau de Ling do Pacífico é um peixe omnívoro mal-humorado que tem uma boca que parece uma gaveta de talheres desarrumada, com os seus mais de 500 dentes dispostos aleatoriamente em dois conjuntos de mandíbulas altamente móveis. Uma nova investigação, publicada na revista científica Proceedings of the Royal Society B, revela que este peixe ganha e perde uma média de 20 dentes por dia.

Se os humanos tivessem o mesmo esquema dentário, substituiríamos um dente por dia. “Quase que invalida os aparelhos dentários”, diz Adam Summers, professor de biologia da Universidade de Washington e coautor do estudo. “E era escusado lavar os dentes.”

A taxa de substituição de dentes deste peixe surpreendeu os investigadores, diz Karly Cohen, coautora do estudo e doutoranda da Universidade de Washington que estuda a biomecânica da alimentação.

“As investigações disponíveis sobre substituição de dentes vêm de casos peculiares”, diz Karly Cohen, como é o caso dos peixes Lophiiformes, que têm dentes na testa, ou das piranhas, que podem perder um quarto dos seus dentes de cada vez. “Mas a maioria dos peixes tem dentes como o bacalhau de Ling do Pacífico. Portanto, muito provavelmente a maioria dos peixes pode estar a perder vários dentes todos os dias, e a substituí-los rapidamente, como acontece com esta espécie.”

Predador de emboscada com dentes de sobra

O bacalhau de Ling do Pacífico é pescado desportivamente e pode atingir mais de um metro de comprimento na idade adulta, e também é um predador de emboscada que se envolve frequentemente em atos de canibalismo. Este peixe pode ser encontrado na costa oeste da América do Norte, desde o Alasca até à Baja da Califórnia, no México, e é economicamente importante para os pescadores porque fica “ótimo num taco”, diz Karly Cohen.

Não são peixes muito encantadores. “Eu estou sempre a dizer na brincadeira que nunca me dei bem com este peixe”, diz Emily Carr, estudante na Universidade do Sul da Flórida e autora principal do estudo. “Tivemos de colocar fita adesiva nos cantos dos tanques porque quando os peixes viam alguém a passar, tentavam saltar... Eu nunca fui mordida, mas se eles tivessem a oportunidade, tenho a certeza de que iam tentar.”

O bacalhau de Ling é um predador voraz e “come tudo o que lhe couber na boca”, diz Karly Cohen – e há muita coisa a acontecer ao mesmo tempo na sua boca.

Um bacalhau de Ling do Pacífico sob luz fluorescente em laboratório, proporcionando um vislumbre dos seus dentes.

Fotografia de Kimberly Schoenberger

“Este peixe tem um conjunto de mandíbulas superior e inferior, assim como os nossos maxilares, mas são mais móveis – podem movimentar-se para a frente e espalhar-se. Se observarmos o interior da boca, na zona do palato, também está coberta de dentes.” E no fundo da garganta, pouco antes do esôfago, estão as mandíbulas faríngeas, plataformas ósseas cravejadas de dentes que são compostas por arcos branquiais modificados.

Quando o bacalhau de Ling ataca, o seu primeiro conjunto de mandíbulas projeta-se para a frente e arrasta a presa para a boca, onde a mandíbula interna da faringe começa a trabalhar, esmagando e triturando. Para esta estratégia ser bem-sucedida, o peixe depende de dentes afiados como agulhas, que têm propensão para quebrar. Portanto, como é que o bacalhau de Ling evita a perda da sua dentada afiada? Aparentemente, a sua estratégia passa pelo crescimento de dentes novos constantemente. Muitos dentes.

Um destino dentário

No estudo, os investigadores usaram uma sequência de corantes para criar uma linha temporal, permitindo visualizar o crescimento dos dentes.

Primeiro, 20 bacalhaus juvenis de Ling do Pacífico foram imersos em tanques enriquecidos com um corante fluorescente vermelho de alizarina durante 12 horas. Como o vermelho da alizarina é atraído para o cálcio nos dentes, o resultado foram centenas de dentes vermelhos e brilhantes. Ao longo dos 10 dias seguintes, o mesmo lote de bacalhau de Ling foi exposto a um segundo corante verde, ou fluoresceína. Os dentes nascidos no primeiro dia do estudo estavam manchados de vermelho, ao passo que os dentes que irromperam depois estavam verdes.

Emily Carr contou e classificou minuciosamente cada dente – obtendo um total de 10.580 dentes entre os 20 peixes examinados.

Depois de analisar os belos sorrisos de todos os peixes, Emily Carr e a sua equipa descobriram que os dentes deste peixe estão fadados, o que significa que cada dente irrompe exatamente onde está destinado a passar o resto da sua vida. Isto é o oposto do que acontece com outros peixes famosos com dentes grandes, como o grande tubarão branco, cujos dentes começam minúsculos na parte de trás da mandíbula e avançam à medida que crescem.

Os investigadores também identificaram pontos críticos de substituição de dentes. “Os dentes realmente grandes não ficam lá mais tempo, e os dentes realmente pequenos também não são constantemente substituídos”, explica Karly Cohen. “Descobrimos que, quando o peixe mastiga, há uma substituição mais rápida nas áreas onde esperamos que exista maior pressão e desgaste.”

Qual é o mecanismo responsável pela substituição de dentes no bacalhau de Ling? Uma segunda condição experimental no estudo comparou peixes que foram alimentados regularmente com outro grupo de peixes que não foram alimentados. Os investigadores não encontraram quaisquer diferenças significativas na taxa de substituição dentária entre estes peixes. Isto sugere que o bacalhau de Ling não substitui os seus dentes em resposta ao desgaste – pode ser algo mais parecido com os nossos próprios dentes de bebé e de adulto, que caem e crescem com base num cronómetro genético.

Segundo Emily Carr, a taxa de substituição dentária deste peixe é surpreendente. “Existe a ideia de que os dentes são muito difíceis de criar e substituir, mas o nosso estudo desafia esse conceito.” Nas águas ricas em cálcio do oceano, é claramente vantajoso para o bacalhau de Ling poder substituir os seus dentes para os manter afiados.

Casos peculiares

Este padrão de crescimento dentário é invulgar no mundo de investigação de peixes – mas provavelmente não é na natureza. A bateria de dentes do bacalhau de Ling é muito semelhante à de outros peixes ósseos – em número, diversidade e forma cónica. Isto faz deste peixe um ótimo modelo para muitas espécies diferentes de uma variedade de linhagens, e a coloração sequencial dos dentes “quantifica isso de uma forma bonita”, diz Marc André Meyers, professor de ciência de materiais e engenharia da Universidade da Califórnia, em San Diego, que estuda biomateriais, incluindo dentes de peixes.

Willy Bemis é professor de ecologia e biologia evolutiva na Universidade Cornell que pesquisa a anatomia dos peixes, incluindo o desenvolvimento dos dentes. Willy Bemis, que não participou no estudo, diz que o projeto foi inovador e ajuda a responder a questões de longa data sobre a substituição de dentes em peixes relativamente normais como o bacalhau de Ling.

Historicamente, a taxa de crescimento e perda de dentes em peixes tem sido difícil de estimar – “por exemplo, no caso dos tubarões, os melhores dados vêm de estudos que recolheram e contaram dentes perdidos, dentes que foram encontrados no fundo de tanques”, diz Willy Bemis. Porém, como já foram observados tubarões a comer os seus próprios dentes caídos (talvez para recuperar o seu investimento em cálcio), os dados foram sempre um pouco suspeitos.

Isto torna o estudo do bacalhau de Ling num “trabalho importante”, pois demonstra uma técnica que pode ser replicada noutras espécies, explica Willy Bemis. Marc André Meyers acrescenta que estaria interessado em conduzir um estudo semelhante com piranhas.

Os resultados do estudo sugerem que os dentes podem não ser tão insubstituíveis ou preciosos quanto pensávamos. Mas não digam nada à fada dos dentes.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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