Descoberto o primeiro milípede verdadeiro – nova espécie tem 1.306 pernas

Descoberto a quase 60 metros de profundidade na Austrália, este invertebrado tem mais pernas do que qualquer animal na Terra, vivo ou morto.

Por Jason Bittel
Publicado 20/12/2021, 12:22
milípede

Este minúsculo milípede filiforme, com cerca de dez centímetros de comprimento, usa as suas inúmeras pernas para se movimentar no subsolo.

Fotografia por Paul Marek Et Al., 2021

Na Austrália, os cientistas descobriram uma nova espécie de milípede que vive a 60 metros de profundidade, não tem olhos e move-se recorrendo a 1.306 pernas.

Esta espécie foi denominada Eumillipes persephone em homenagem a Perséfone, a deusa grega e rainha do submundo. Mas este novo invertebrado merece destaque por outro motivo: tem mais pernas do que qualquer outra criatura na Terra, viva ou morta.

De facto, não há outra criatura que lhe chegue sequer perto. O maior espécime desta nova espécie, uma fêmea, tinha menos de dez centímetros de comprimento, mas superou facilmente o anterior detentor do recorde mundial, o Illacme plenipes, um milípede que vive perto de Silicon Valley, na Califórnia, e tem 750 pernas.

Isto significa que o Eumillipes persephone é o primeiro milípede verdadeiro de que há conhecimento no mundo, já que a palavra milípede significa “mil pés” em latim, de acordo com um novo estudo publicado no dia 16 de dezembro na revista Scientific Reports.

Apesar de a contagem de pernas deste novo animal não ter precedentes, este pode nem sequer ser o limite para o que é possível.

Muitas espécies de milípedes começam a vida apenas com oito pernas, contudo, à medida que mudam de pele e adicionam novos segmentos corporais, ou anéis, podem continuar a desenvolver mais pernas, diz Paul Marek, líder do estudo e especialista em milípedes do Instituto Politécnico da Universidade da Virgínia.

“Portanto, provavelmente há outro indivíduo por aí com mais anéis e mais pernas, e isso para mim é um conceito difícil de assimilar”, diz Paul Marek, que é também explorador da National Geographic.

Nas profundezas

Em 2020, os colegas de Paul Marek liderados por Bruno Buzatto, da Universidade Macquarie da Austrália, viajaram até à região de Goldfields no oeste da Austrália à procura de milípedes e outras criaturas subterrâneas.

Esta região é conhecida pelos seus depósitos ricos em ouro e níquel, que as empresas de mineração identificam através de buracos de prospeção na terra. Cada buraco tem menos de quinze centímetros de largura: grandes o suficiente para baixar uma armadilha que capta as criaturas minúsculas que conseguem sobreviver nestes locais.

Estas armadilhas – um pedaço de tubo de PVC recheado com vegetação húmida preso a um cordão de nylon – podem ficar no subsolo ao longo de meses. Durante este período, os habitantes do subsolo, como os milípedes, são atraídos pelas saborosas plantas em putrefação e ficam retidos no interior do tubo.

Foi desta forma que a equipa encontrou o Eumillipes persephone. De regresso ao seu laboratório na Virgínia, Paul Marek analisou o espécime através de imagens microscópicas de alta resolução. Nestas imagens, Paul Marek marcou digitalmente as secções corporais do animal em incrementos de 10, uma estratégia que visa assegurar que as pernas não são contadas duas vezes. A contagem final revelou 1.306 membros individuais.

Porquê tantas pernas? A equipa suspeita que estes membros permitem ao Eumillipes persephone andar em oito planos diferentes simultaneamente.

“Como se trata de um micro-habitat subterrâneo com rochas, seixos e solo, os milípedes basicamente contornam estes obstáculos”, diz Paul Marek, que recebeu financiamento da Fundação Nacional de Ciência dos EUA.

“Parte do corpo pode estar invertida e outra parte pode estar virada para cima. Tudo isto tem por base o movimento em torno de uma espécie de matriz tridimensional.”

“É provável que os antepassados deste milípede já tenham vivido à superfície ou perto da mesma, mas o clima cada vez mais seco empurrou-os cada vez mais para as profundezas”, acrescenta Paul Marek.

Longe da luz solar, estas criaturas evoluíram para perder a cor – uma característica partilhada por muitas espécies adaptadas à vida nas cavernas. Os milípedes parecem ter desenvolvido cabeças em forma de cone, antenas maciças e uma locomoção poderosa semelhante à de uma lagarta que lhes permite mover através de sedimentos e outros espaços muito apertados.

Um mundo desconhecido debaixo dos nossos pés

“Descobrir uma nova espécie é sempre empolgante, independentemente de sermos nós ou não a descobrir”, diz Bruce Snyder, ecologista de solos da Universidade da Geórgia. “Porém, no que diz respeito à comunidade milípede, estamos constantemente a encontrar novas espécies.”

Ainda assim, o facto de o Eumillipes persephone ter quase duas vezes mais pernas do que o antigo detentor do recorde é “espantoso”, diz Bruce Snyder, que não participou na investigação.

Bruce Snyder diz que, cientificamente, pode ser ainda mais interessante que esta nova espécie venha de um grupo taxinómico completamente diferente do antigo detentor do recorde, o Illacme plenipes. Isto sugere que o desenvolvimento extremo de pernas está a evoluir independentemente como uma adaptação à vida subterrânea.

A profundidade do reino do Eumillipes persephone também é surpreendente.

“As pessoas perguntam-me frequentemente qual é a profundidade atingida por estas criaturas”,  diz Bruce Snyder. “Mas isto é mais profundo do que eu poderia imaginar.”

Em geral, o mundo subterrâneo é muito pouco estudado, não se sabendo exatamente o quão distribuída é esta espécie ou os seus parentes.

“Isto só demonstra que, apesar de mais de 200 anos de exploração, ainda existem ecossistemas inexplorados”, acrescenta Paul Marek,

A National Geographic Society, comprometida em iluminar e proteger as maravilhas do nosso mundo, financiou o trabalho do explorador Paul Marek.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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