Primeiras imagens de lince-pardo a comer ovos de pitão invasora

Foi observado um lince a invadir o ninho de uma pitão birmanesa no sul da Flórida. Ver esta atitude por parte de um animal nativo são boas notícias, segundo os cientistas.

Publicado 14/03/2022, 11:40
pitão birmanesa

Uma pitão birmanesa fotografada na vegetação do Parque Holiday Everglades, em Fort Lauderdale, na Flórida. As novas evidências mostram que os linces-pardos podem invadir os seus ninhos, um sinal positivo.

Fotografia por Rhona Wise, AFP, Getty Images

Nas últimas décadas, o número de cobras pitão birmanesas invasoras aumentou exponencialmente no sul da Flórida, sobretudo na zona de Everglades. No entanto, como as cobras pitão são muito difíceis de encontrar e rastrear, muitos dos detalhes sobre o seu comportamento e impacto ecológico permanecem por preencher, tal como a forma como as espécies nativas respondem à sua presença.

Uma nova fotomontagem com imagens captadas por uma câmara de vida selvagem na Reserva Nacional de Big Cypress, na Flórida, fornece evidências visuais de que a região de Everglades “está a ripostar”. As imagens, captadas em junho de 2021, mostram um lince-pardo a invadir o ninho de uma pitão – a primeira observação de qualquer animal nativo da Flórida a atacar os ovos desta cobra invasora.

Esquerda: Superior:

Fotografias captadas pelas armadilhas fotográficas mostram um lince-pardo a encontrar um ninho de pitão birmanesa na Reserva Nacional de Big Cypress, na Flórida, em junho de 2021, enquanto a pitão estava ausente.

Direita: Fundo:

O lince-pardo alimenta-se dos ovos da pitão, a primeira vez que qualquer espécie nativa dos EUA é observada a exibir este tipo de comportamento.

fotografias de SERVIÇO GEOLÓGICO DOS EUA

As imagens mostram que, depois de encontrar um ninho desprotegido, o lince curioso começa a farejar, abocanhando alguns ovos e pisando dezenas de outros. Depois, cobre o ninho, guardando os ovos para outro dia. Após sair do local e regressar pouco tempo depois, o lince encontra uma surpresa indesejada: a pitão está de regresso e está a guardar os ovos. Uma imagem capta a pitão fêmea, com cerca de 4,2 metros e 55 quilos, esticada em posição de ataque, provavelmente depois de ter saltado e possivelmente mordido o lince de 9 quilos; na imagem seguinte, o lince está a desferir um golpe na pitão.

Sabe-se que os linces comem ovos de répteis, mas não se sabia que comiam ovos de  cobras pitão birmanesas; as duas espécies também nunca tinham sido documentadas em confronto ativo. Para os biólogos da Flórida, esta interação agressiva é um sinal moralizador de que a região de Everglades está a aprender a ripostar contra um predador invasor que, até agora, raramente foi desafiado pelas espécies nativas.

Esquerda: Superior:

Fotografias captadas pelas armadilhas fotográficas mostram um lince-pardo a encontrar um ninho de pitão birmanesa na Reserva Nacional de Big Cypress, na Flórida, em junho de 2021, enquanto a pitão estava ausente.

Direita: Fundo:

Quando o lince regressa ao ninho, encontra a pitão birmanesa a guardar os ovos.

fotografias de SERVIÇO GEOLÓGICO DOS EUA

“Quando vemos algo assim, é muito emocionante”, diz Andrea Currylow, ecologista do Serviço Geológico dos EUA, que trabalha no Parque Nacional de Everglades e liderou o relatório Ecology & Evolution que detalha esta observação. “As espécies nativas estão a aprender, estão a adaptar-se e conseguem ser mais resilientes a uma espécie invasora.”

As imagens mostram que o lince aparentemente não estava ferido e regressou repetidamente ao ninho nas semanas seguintes, depois de a cobra ter sido removida pelos investigadores.

“Felizmente, [a cobra pitão] não estava interessada em comer aquele salteador de ninhos”, diz Andrea Currylow. “Mas é inegável que era um lince corajoso.”

Resistir aos invasores

Os ecologistas anseiam por sinais de resiliência porque as pitão birmanesas têm impactos devastadores nos ecossistemas que invadem. Estas cobras chegaram pela primeira vez à região de Everglades depois de terem sido libertadas – ou de terem escapado – pelos seus donos ou instalações de reprodução nas décadas de 1980 e 1990. Desde então, cerca de 90% de todas as espécies de mamíferos na região tiveram um declínio populacional, diz Andrea Currylow. Esta perda de presas, variando desde roedores a veados, também pode afetar outros predadores, como as panteras nativas da Flórida.

“Quando observamos interações como esta e vemos a vida selvagem nativa em confronto, é como se fosse um raio de sol para nós”, diz Ian Bartoszek, ecologista da Conservancy of Southwest na Flórida. “Em 10 anos de rastreio de cobras, posso contar pelos dedos de uma mão o número de observações de animais nativos a enfrentar cobras”, diz Ian Bartoszek. Noutro exemplo de resiliência, a equipa encontrou recentemente evidências de que as cobras nativas comem cobras pitão recém-nascidas.

Os jacarés, os ursos-negros e as panteras da Flórida também são conhecidos por conseguirem comer cobras pitão adultas. E os linces-pardos eram conhecidos por atacar cobras pitão adultas, embora isso nunca tivesse sido documentado fotograficamente até agora. Em 2019, os investigadores encontraram uma carcaça de pitão com marcas de garras ao longo do corpo, escondida no meio de ciprestes em Everglades. As lesões combinavam com o tamanho e a forma das garras de um lince. A mesma equipa documentou um corpo de pitão fêmea com arranhões e uma ferida mais profunda – marcas de uma dentada de lince.

Acreditava-se que as espécies de aves que comem cobras, como os papagaios, falcões, águias-pescadoras e algumas aves aquáticas – garças, íbis e cegonhas – fossem potenciais predadores das cobras pitão mais jovens, mas isso não foi observado, acrescenta Andrea Currylow.

Os linces-pardos são encontrados em grande parte da América do Norte, incluindo na maior parte da Flórida, e acredita-se que estão a recuperar após anos de declínio. Na Flórida, porém, o seu destino é mais incerto. Um estudo feito em 2010 descobriu que a Flórida era o único estado norte-americano onde as populações de linces estavam em declínio, talvez devido à competição com as pitão birmanesas, que provocam quedas populacionais nos pequenos mamíferos. Mas esta nova interação sugere que os linces não estão indefesos na luta contra as serpentes exóticas.

Para além de procurarem sinais de que as espécies nativas estão a “ripostar”, os ecologistas estão a desenvolver conhecimentos básicos sobre a forma como as pitão vivem, as suas histórias de vida e sinais vitais. Estas informações irão possibilitar modelos populacionais mais apurados sobre as cobras pitão, bem como estratégias de gestão, explica Andrea Currylow.

“Isto leva-me a pensar sobre a quantidade de ovos que não eclodem”, diz Kristen Hart, ecologista do Serviço Geológico dos EUA, que trabalha no Centro de Investigação Aquática, na Flórida. “Neste momento, acreditamos que, de todos os ovos que são postos, algum vai acabar por eclodir.” Mas as fotografias sugerem que isso nem sempre é verdade.

“Creio que os próximos dois anos vão ser muito interessantes, muito reveladores. Com muitas pessoas no terreno a observar cobras pitão diariamente, acredito que vamos encontrar informações ainda mais interessantes, como esta interação com o lince”, diz Kristen Hart. “E espero que consigamos perceber o que se passa com estes animais.”

Difíceis de encontrar

Mesmo com equipas dedicadas de ecologistas e biólogos a rastrear cobras e linces na reserva, as probabilidades estavam contra Andrea Currylow e os seus colegas em relação a conseguirem captar momentos de interação entre estes animais.

As pitão birmanesas são incrivelmente difíceis de encontrar nas terras selvagens da Flórida, mesmo quando estão a ser rastreadas através de radiotelemetria. O rastreio de cobras pitão é um trabalho exigente, por vezes frustrante, que atrai apenas um número reduzido, embora dedicado, de pessoas.

“Temos de caminhar quilómetros e quilómetros com água pela cintura para chegarmos a estas áreas. E quando rastreamos as cobras, demoramos algum tempo até as encontrarmos, mesmo sabendo que elas estão mesmo à nossa frente”, diz Andrea Currylow. “Podemos estar no [sítio] onde recebemos o sinal e temos de tentar descobrir onde é que está a cobra.”

“Isto acontece porque estamos perante uma espécie extremamente enigmática”, diz Ian Bartoszek. As cobras conseguem camuflar-se muito bem e passam grande parte do tempo debaixo de água, ou escondidas debaixo das árvores nas margens dos pântanos.

Para encontrar cobras pitão a nidificar, os ecologistas usam vários métodos, incluindo a utilização de “cobras batedoras” (embora não tenham sido usadas neste caso). Esta técnica envolve a marcação de cobras pitão, sobretudo machos, e o rastreio dos seus movimentos, procurando identificar padrões. Muitas vezes, os machos levam os investigadores diretamente aos ninhos das fêmeas.

A maioria das cobras pitão em nidificação é removida imediatamente após a sua descoberta, mas as equipas do departamento de ecologia de Big Cypress têm defendido com sucesso o adiamento da remoção de algumas cobras pitão, para poderem ser observadas.

“É uma vitória para a ciência quando conseguimos obter observações porque fizemos as coisas de uma maneira um pouco diferente”, diz Kristen Hart.

Quando a equipa de Andrea Currylow regressou ao ninho e encontrou vários ovos partidos, os investigadores pensaram que podia ter sido obra da cobra pitão, esmagando-os acidentalmente ao movimentar-se. Mas quando Andrea e a sua equipa observaram as fotografias e viram o lince – “ficámos chocados”.

Com todas as dificuldades e coincidências envolvidas na captura destas imagens, as probabilidades de encontrar momentos como este na natureza podem ser reduzidas, mas ecologistas como Andrea Currylow vão continuar à procura.

“Não sabemos qual é a prevalência deste tipo [de comportamento]”, diz Andrea. “Esperamos fazer mais observações deste género.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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