Quando é que um ‘panda’ não é um panda – e há pandas que afinal são ursos?

O pequeno panda-vermelho é agora a estrela do seu próprio filme. Mas o que tem este panda em comum com o seu homónimo maior – e será que algum deles pertence à família dos ursos?

Por Simon Ingram
Publicado 17/03/2022, 12:53
Um panda-vermelho com seis meses de idade, fotografado por Joel Sartore para o Photo Ark da ...

Um panda-vermelho com seis meses de idade, fotografado por Joel Sartore para o Photo Ark da National Geographic, um projeto que visa documentar todas as espécies de animais que vivem em cativeiro pelo mundo inteiro.

Fotografia por Joël Sartore, National Geographic Photo Ark

Assim que alguém diz ‘panda’, a nossa mente vagueia imediatamente para uma coisa grande e fofa, uma coisa rara – e monocromática. Mas o famoso panda-gigante, que é muito peculiar com os seus parceiros, adora mastigar bambu e é endémico de uma região da China, não é a única criatura a responder pelo nome panda.

De facto, existem duas espécies distintas que partilham este nome icónico: o panda-gigante e o panda-vermelho. Mas se nos apresentassem um alinhamento com estes animais e nos pedissem para indicar qual era o panda, um deles destacar-se-ia como um elefante numa loja de porcelana. Contudo, não é a criatura com mais direito ao nome.

Estranhamente vermelho. Ou preto e branco?

Em primeiro lugar, devemos observar a diferença mais óbvia. Com uma altura a rondar os 1,5 e os 1,8 metros e um peso de até 113 kg, o panda-gigante – e a sua subespécie de altas altitudes, que é um pouco mais leve, o panda de Qinling – é comparável a um humano atarracado e forte.

O panda-vermelho, porém, é mais ou menos comparável a um gato doméstico pesado. O panda-gigante parece um urso-negro com um fato; o panda-vermelho parece um guaxinim ruivo. Com uma cauda resplandecente e anelada, orelhas triangulares e um focinho pontiagudo, o panda-vermelho é sinónimo de fofo – mas de uma forma que é completamente diferente da outra criatura com a qual partilha a palavra ‘p’. Mas será que se trata apenas de uma nomenclatura preguiçosa? Nem por isso.

Turning Red – Estranhamente Vermelho, o novo filme da Disney-Pixar, acompanha Mei Lee, uma adolescente cujas emoções em desenvolvimento fazem com que se transforme num panda-vermelho (bastante grande). (A The Walt Disney Company é proprietária maioritária da National Geographic.)

Fotografia por

Vermelho nos dentes e garras

A palavra ‘panda’ tem uma origem ambígua, mas há uma teoria que diz que vem do nepalês nigalya ponya (‘comedor de bambu’) ou paja (‘garra’). No entanto, uma coisa é certa – quem recebeu primeiro o nome foi o panda-vermelho.

Este animal foi descrito pelo zoólogo francês Frédéric Cuvier em 1825, que acrescentou o nome científico Ailurus fulgens, que significa literalmente “gato brilhante”.

“Os pandas-vermelhos são animais solitários e tímidos”, diz Ang Phuri Sherpa, diretor do grupo de conservação The Red Panda Network no Nepal. “Podemos encontrá-los aos pares no momento do acasalamento e quando as crias estão acompanhadas pela mãe.” Ang Phuri diz que o nome panda pode ter origem noutra palavra nepalesa, punde, que significa ‘marcas brancas no rosto’, acrescentando: “É verdade que, em termos de etimologia, o panda-vermelho é o único panda ‘verdadeiro’”.

Os pandas-gigantes e vermelhos partilham um nome em comum, mas dadas as suas diferenças físicas óbvias, seria de esperar que não partilhassem o mesmo nome científico. Curiosamente, quase que partilham. O género do panda-gigante é Ailuropoda – que neste caso significa ‘pata de gato’, em vez de simplesmente ‘gato’.

E é nas patas que estas criaturas aparentemente diferentes partilham uma de duas características fascinantes: o “polegar falso”, ou dígito sesamoide modificado. Estas patas dianteiras particularmente evoluídas, cada uma com um osso do pulso alongado, permitem a estes animais manusear o ingrediente principal da sua segunda característica comum: a dieta. Ambos os animais comem bambu e desenvolveram uma característica física para agarrar talos tubulares, um fenómeno de adaptação a um ambiente partilhado conhecido por evolução convergente.

Esta peculiaridade alimentar e o habitat partilhado nas áreas montanhosas e enevoadas da China certamente dão algo que falar sobre os dois pandas. Mas será que são relacionados?

O pelo do panda-vermelho é tipicamente avermelhado, com uma ‘máscara’ facial semelhante à do guaxinim e uma coloração facial que varia entre tons pálidos (normalmente na região oeste) e vermelhos escuros (na região leste).

Fotografia por Joël Sartore, National Geographic Photo Ark

Um jovem Naxi usa um chapéu elaborado feito de pelo de panda-vermelho, na China, em 1929. Apesar de não serem tão famosos quanto os seus homónimos maiores, os pandas-vermelhos têm enfrentado ameaças semelhantes como a perda de habitat e a caça furtiva pela sua pelagem. Esta utilização resplandecente do pelo é uma reminiscência do “chapéu de pelo de guaxinim” que ficou famoso através de pioneiros fronteiriços americanos como Daniel Boone e Davy Crockett – sublinhando a associação do panda-vermelho ao guaxinim.

Fotografia por Joseph F. Rock, National Geographic Image Collection

‘Ursificação’

O enredo fica ainda mais complexo quando consideramos a forma como o panda-gigante obteve o nome. Foi o padre Armand David, um missionário e naturalista francês que preambulava pelo condado de Baoxing, na província chinesa de Sichuan, que chamou a atenção do ocidente para este animal pela primeira vez – em 1869, quando viu a carcaça baleada de um ‘urso branco’, como Armand David lhe chamou. “Acredito que seja uma nova espécie, não apenas pela cor do pelo, mas também pela pelagem sob as patas e outras características”, escreveu o padre Armand no seu diário.

Para Armand David, parecia certamente um urso, com o seu andar trapalhão e volumoso e pelagem grossa. Os habitantes locais chamavam-lhe panda – afinal de contas, este animal comia bambu – mas Armand David discordava, e classificou-o como Ursus melanoleucus, ou “urso branco-negro”. Animado com a descoberta, Armand começou a trocar correspondência com Alphonse Milne-Edwards, um zoólogo francês, a quem enviou pelagem e um crânio para inspeção.

Um vislumbre da província chinesa de Sichuan, habitat do panda-gigante e do panda-vermelho. O habitat deste último é mais amplo, estendendo-se desde o Nepal, a oeste, até às províncias chinesas de Yunnan e Sichuan. Em 2020, foi descoberto que este fator permitiu a evolução de duas subespécies distintas de panda-vermelho, que divergiram há cerca de 250.000 anos – o panda-vermelho chinês, com cores mais vibrantes, e o panda-vermelho dos Himalaias, com tons mais pálidos.

Fotografia por Ami Vitale, National Geographic

O panda-gigante foi recentemente reclassificado pela UICN – passando de ameaçado para vulnerável – devido a tendências populacionais positivas. Estima-se que permaneçam cerca de 1.900 indivíduos na natureza e os seus números continuam a aumentar.

Fotografia por Ami Vitale, National Geographic

Fósseis peludos

Alphonse Milne-Edwards questionou a classificação da estranha criatura, alegando que o crânio, dentes e garras a tornavam fisiologicamente mais alinhada com um determinado membro ruivo e apreciador de bambu da família dos guaxinins, descrito 40 anos antes – embora tivesse claramente escalado um bom bocado ao longo do seu próprio ramo evolutivo. Quando publicou uma descrição nas suas Recherches pour servir à l'histoire naturelle des mammifères, Alphonse Milne-Edwards reclassificou o animal de acordo – Ailuropus melanoleucus – para refletir o que Alphonse considerava ser pelo menos uma ligação ao panda-vermelho.

O debate em torno desta questão permanece vivo. Recentemente, os estudos moleculares e de ADN produziram resultados contraditórios – com alguns investigadores a afirmarem que estes pandas não estão de forma alguma relacionados uns com os outros, e outros a sugerirem que os pandas-gigantes são na realidade ursos. Alguns afirmam que os pandas-vermelhos são mustelídeos extravagantes – uma família que inclui doninhas, texugos, carcajus, visons e tourões – e que ambas as variedades de panda têm algures um traço de guaxinim.

O que parece unânime é que nenhum destes animais assenta bem em qualquer grupo, com ambos a serem frequentemente descritos como “fósseis vivos” – os últimos de uma linhagem evolutiva particularmente ousada.

“Se definíssemos melhor as linhas que dividem ambas as espécies, poderíamos argumentar que o panda-gigante é um urso, mas não é um panda – e que o panda-vermelho é um panda, mas não é um urso.”

Atualmente, o panda-vermelho permanece na sua própria família, Ailuridae. Assim como o panda-gigante que – embora esteja agora firmemente na família Ursidae (ursos) – mantém o seu género único de Ailuropoda. Ambos continuam a ser debatidos, mas existe o consenso desconfortável de que estes animais e todos os seus parentes especulados provavelmente partilharam um antepassado comum insondavelmente antigo e misterioso. O lugar que ambos os pandas ocupam no reino animal tem provocado debates mais amplos sobre as características que devem ser consideradas fatores taxonómicos ao classificar um animal.

O naturalista George B. Schaller, no livro que escreveu sobre o tema em 1993, The Last Panda, valida o argumento da classificação de forma concisa: “Ao dar uma palestra, muitas vezes perguntam-me no final se o panda-gigante é um urso ou um guaxinim. Para manter a minha resposta breve, costumo responder que o panda é um panda.”

Fama de parentesco

Se definíssemos melhor as linhas que dividem ambas as espécies, poderíamos argumentar que o panda-gigante é um urso, mas não é um panda – e que o panda-vermelho é um panda, mas não é um urso.

Embora os pandas-vermelhos sejam o foco das atenções do filme mais recente da Disney-Pixar, não há dúvidas de que o panda-gigante é o mais icónico dos dois – mas o panda mais pequeno continua a enfrentar os seus próprios desafios, que são bastante reais. Classificado como ameaçado pela UICN devido à sua população em declínio, este habitante diminuto das florestas tem sofrido os mesmos problemas que o seu homónimo maior. “As suas maiores ameaças na natureza somos nós, os humanos”, diz Ang Phuri Sherpa. “A sobrevivência dos pandas-vermelhos na natureza está altamente relacionada com as causas induzidas pelo homem, como a desflorestação e degradação de habitat, caça furtiva, contrabando ilegal e comércio de peles.” Acredita-se que permaneçam cerca de 10.000 indivíduos na natureza.

Em relação ao panda-gigante, após décadas de declínio populacional devido aos mesmos motivos – perda de habitat e caça furtiva – tornou-se no símbolo duradouro da necessidade de conservação de vida selvagem. Com números populacionais a rondar os 1.900 individuos na natureza, e com programas de reprodução em todo o mundo para ajudar a mitigar um processo de reprodução que já de si é um tanto ou quanto complicado, o panda-gigante foi recentemente reclassificado como vulnerável devido ao crescimento lento da sua população. Ao longo do tempo, o panda-gigante tornou-se indiscutivelmente no animal mais reconhecível do mundo – algo que não deixa de ser irónico, dada a sua ambiguidade na ciência.

Na China, a sua presença serena e tons monocromáticos têm sido comparados ao yinyang, o símbolo espiritual chinês que representa o equilíbrio entre opostos. E embora as duas espécies de panda possam parecer opostas de forma semelhante – tal como o yin e o yang – cada uma tem claramente mais do que um pouco em comum com a outra.

Turning Red – Estranhamente Vermelho está disponível no Disney+.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.co.uk

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