Guerra na Ucrânia: o que acontece aos animais abandonados?

Cheios de medo, sedentos e famintos, os animais também são vítimas dos conflitos armados. Mas os ativistas estão unidos para os ajudar o melhor possível e para tentar acompanhar os seus donos perturbados.

Publicado 29/04/2022, 11:32
Este pequeno gato abandonado vai em breve receber abrigo fora da Ucrânia.

Este pequeno gato abandonado vai em breve receber abrigo fora da Ucrânia.

Fotografia por MOLLY CONDIT

Fugir de casa, do bairro, da cidade ou de um país em guerra também significa ter de tomar decisões difíceis sobre quem irá fazer parte da jornada. Para muitas pessoas que desejam embarcar nos comboios sobrelotados e altamente seletivos que partem das estações na Ucrânia, foi necessário tomar decisões muito complicadas.

Na União Europeia, existem regras partilhadas para permitir que os animais atravessem  fronteiras: devemos preencher a identificação do animal, comprovar a validade da vacina contra a raiva e ter um passaporte europeu. Isto diz respeito principalmente a gatos, cães e furões. Os animais vindos de fora da Europa estão sujeitos a regras mais rígidas, dependendo do país para onde os seus donos os desejam trazer.

Por estes motivos, quando a guerra eclodiu na Ucrânia, muitos animais tiveram de ser abandonados pelos seus donos. “Há muitos abrigos na Ucrânia que recolhem animais. As pessoas nestes abrigos falam sobre inúmeros cães e gatos abandonados nas estações de comboio. Ter de escolher entre salvar as suas próprias vidas ou ficar na Ucrânia para morrer com os seus animais de estimação... deve ter sido uma decisão incrivelmente difícil de tomar”, lamenta Daniel Cox, ativista alemão e diretor da organização PETA na Alemanha.

“Conseguimos afrouxar algumas das condições de entrada no território da UE”, explica Marie-Morgane Jeanneau, diretora da PETA França. Tendo em conta as exigências das inúmeras associações e fundações de proteção animal, a Europa adaptou-se bem às condições extremas da guerra, oferecendo condições muito mais simples para todos estes animais.

“Os animais também são vítimas deste conflito, mas nem sempre pensamos neles. A nossa missão na PETA é ajudar os animais onde quer que eles precisem de nós”, diz Marie-Morgane Jeanneau.

Tal como foi avançado pela National Geographic no artigo sobre o resgate do urso Masha na Ucrânia, “dezenas de milhares de animais ficaram abandonados em zoológicos, quintas, santuários e abrigos de animais, e até nas ruas de toda a Ucrânia. A comida escasseia, sobretudo em alguns dos lugares que estão sob fogo inimigo, e muitas áreas estão inacessíveis e não conseguem receber ajuda externa. Os zoológicos e santuários afirmam que os seus animais estão traumatizados pelos bombardeamentos, encolhendo-se quando ouvem as sirenes e as explosões dos ataques aéreos, colidindo com as vedações e chegando até a abandonar as suas crias”.

Marie-Morgane Jeanneau explica que, ao início, as equipas da PETA estavam posicionadas na fronteira da Polónia e da Roménia. A ideia era acolher as pessoas e os seus animais, e oferecer identificação ou vacinação para os animais que necessitassem. “Foi montada uma clínica para ajudar a cuidar dos animais, e os veterinários oferecem ajuda, alimentos e equipamentos.”

“Muitas pessoas chegam com os animais ao colo, em gaiolas improvisadas ou sem jaulas para os transportar”, diz Carmen Arsene, presidente da associação Eduxanima da Federação Nacional de Proteção Animal (FNPA). Localizada na Roménia, a 500 quilómetros da fronteira com a Ucrânia, a associação Eduxanima desloca-se regularmente à Ucrânia e coloca a sua clínica móvel à disposição de quem precisa. Nesta clínica, os ativistas oferecem comida, água, coleiras, arreios, trelas e outros itens.

“Os gatos têm um grande problema, porque muitos não têm acesso a uma caixa de areia durante um, dois ou até três dias durante a viagem, e por isso sofrem de problemas urinários”, diz Carmen Arsene. Os ativistas disponibilizaram uma carrinha que fornece um lugar para os animais descansarem enquanto aguardam para seguir com os donos para as fronteiras nas proximidades. “As pessoas estão basicamente em trânsito, algumas ficam no acampamento e vão-se embora no dia seguinte.”

Há outros defensores de animais que têm entrado em território ucraniano para resgatar animais ou para lhes levar comida. Quando são contactadas pelos abrigos locais, as várias organizações de defesa dos animais trabalham em conjunto para evacuar os animais para abrigos na Alemanha, Polónia e Roménia.

As equipas da PETA estão atualmente na Polónia e na Hungria a tentar estabelecer uma solução a longo prazo para apoiar os abrigos nas proximidades. “E também havia outro objetivo complexo que era entregar toneladas de alimentos em quase todos os cantos do país. Todo este trabalho tem sido feito por vários grupos de ativistas locais. Estas pessoas conhecem bem o país, têm a sua rede de contactos e conseguem direcionar a ajuda porque conhecem a realidade no terreno. Os membros da PETA têm trabalhado com uma rede de voluntários ucranianos incríveis que têm feito milagres para proteger os animais. É graças à coragem destas pessoas que cães e gatos por toda a Ucrânia têm sido salvos”, diz Marie-Morgane Jeanneau.

Milhares de animais salvos

A PETA já entregou mais de 200 toneladas de mantimentos à Ucrânia, que em teoria podem alimentar “mais de 80.000 animais” em todo o país, segundo os dados fornecidos pela PETA França. Carmen Arsene estima que cerca de 5.000 animais já cruzaram a fronteira para a Roménia.

Entre os vários animais de estimação enviados para os abrigos nas fronteiras vizinhas, a maioria encontrou famílias adotivas. Alguns reencontraram os seus donos e outros continuam a ser cuidados por voluntários, segundo os porta-vozes de várias associações.

Daniel Cox diz que uma equipa tem estado constantemente no local desde o primeiro dia de guerra. “Como estamos sediados na Polónia e conseguimos viajar pela Ucrânia todos os dias, já conseguimos salvar mais de mil animais. Estes animais vêm de toda a Ucrânia para Lviv, que atua como uma espécie de centro de acolhimento para humanos e animais em fuga. A partir daqui, basta levar os animais e conduzir duas horas e meia até à fronteira, para depois atravessar para a Polónia, levando os animais para abrigos ou clínicas caso estes precisem de cuidados veterinários urgentes.”

Há muitos testemunhos nos blogs e sites das organizações de defesa dos animais. “Encontramos animais vadios por toda parte nas ruas, os animais morrem regularmente envenenados. As tentativas de projetos de esterilização por parte de organizações estrangeiras têm sido travadas. Os abrigos para animais são poucos. Nos abrigos públicos, os animais são negligenciados e vivem assustados, e continuam a ser abatidos. Não há atendimento médico, os cães capturados passam muitas vezes fome”, é apenas um dos muitos testemunhos disponíveis no site da White Paw, uma organização alemã de direitos dos animais.

Ajudar os animais presos na guerra também significa arriscar a própria vida. “Entre as pessoas com quem a PETA Reino Unido teve contacto, dois ativistas morreram – estavam a transportar animais e provavelmente foram apanhados no fogo cruzado”, diz a porta-voz da PETA França.

Alguns ucranianos ficaram em casa para cuidar dos seus animais de estimação e ajudar as organizações locais a resgatar o maior número possível de cães e gatos. Os voluntários viajam o mínimo possível e trabalham com empresas de camiões locais “para transportar a carga necessária para os centros de distribuição, onde as organizações locais a distribuem por todo o país. “A rede de organizações e pessoas que ajudam animais na Ucrânia é incrível”, diz Daniel Cox, que esteve no local até março de 2022.

O problema dos animais selvagens que continuam mantidos em jardins zoológicos, abrigos ou reservas, é acompanhado por outras associações especializadas e que por vezes estão melhor equipadas. O governo ucraniano ainda não conseguiu tomar uma iniciativa para ajudar os animais selvagens. “O país está no meio de uma guerra que continua a intensificar, devemos estar atentos a isto”, conclui o ativista alemão.
 

Este artigo foi publicado originalmente em francês no site nationalgeographic.fr

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