Nova aplicação pode ajudar a salvar tartarugas-marinhas em perigo crítico de extinção

Os sistemas de inteligência artificial conseguem detetar carapaças falsas de tartaruga com maior facilidade – um novo paradigma na luta contra o comércio ilegal de vida selvagem.

Publicado 21/04/2022, 15:50
Tartaruga-de-pente

Uma tartaruga-de-pente, que está em perigo crítico de extinção, nada sobre um recife. Acredita-se que nos últimos dois séculos tenham sido mortas mais de nove milhões de tartarugas pelas suas carapaças. As carapaças falsas de tartaruga, feitas de resina, são praticamente idênticas.

Fotografia por GREG LECOEUR, Nat Geo Image Collection

Dada a sua durabilidade e redemoinho de camadas translúcidas em tons de âmbar e castanho, as carapaças das tartarugas são usadas há séculos para fazer um pouco de tudo, desde joias a pentes e louça.

“Já eram plástico antes de o plástico ser inventado, porque são muito maleáveis”, diz Brad Nahill, cofundador e presidente do grupo de conservação de tartarugas SEE Turtles e Explorador da National Geographic.

Mas as carapaças de tartarugas não vêm realmente das tartarugas comuns. Vêm quase exclusivamente das tartarugas-de-pente, que estão em perigo crítico de extinção. Os dados mostram que, entre 1884 e 1992, pelo menos nove milhões de tartarugas-de-pente foram mortas e vendidas pelas suas carapaças. Atualmente, restam menos de 25.000 fêmeas reprodutoras em todo o planeta, e o comércio internacional destes animais é proibido.

O grupo de conservação fundado por Brad Nahill está a liderar um esforço que visa usar tecnologia moderna para combater o comércio ilegal de animais antigos. As carapaças de tartaruga são amplamente replicadas com precisão com resina, dificultando a distinção entre o que é real e falso. Mas a SEE Turtles, em parceria com o Laboratório de Ciência de Dados OCIO do Instituto Smithsonian, criou uma aplicação para ajudar.

A joalharia feita à base de carapaça de tartaruga, aqui retratada numa loja na Nicarágua, é feita maioritariamente das carapaças de tartarugas-de-pente, que estão em perigo crítico de extinção. Porém, este tipo de joalharia continua a ser amplamente vendido em lojas turísticas em mais de 40 países.

Fotografia por Hal Brindley/TravelForWildlife.com

A aplicação, chamada SEE Shell, usa aprendizagem de máquina para identificar com 94% de precisão se uma fotografia de algo com um padrão de tartaruga é real ou falso. Esta é a primeira aplicação móvel a usar visão computacional para combater o comércio ilegal de vida selvagem, de acordo com Alexander Robillard, doutorando no Laboratório de Ciência de Dados do Instituto Smithsonian, que construiu o modelo de computador que alimenta a aplicação – um projeto que visa ajudar a informar os clientes mais preocupados com as questões de conservação e também as forças da lei. (Esta aplicação pode ser descarregada na Apple Store e em Google Play).

As vendas de carapaças de tartaruga no mercado negro persistem em pelo menos 40 países, diz Brad Nahill, e estão concentradas principalmente na América Central e no Sudeste Asiático. Mas são os viajantes de férias, que compram bugigangas de tartaruga nas lojas e bancas de souvenirs, os responsáveis pela grande maioria das vendas ilegais.

Esta aplicação também é muito valiosa devido à riqueza de informações que pode fornecer. Todas as imagens analisadas são enviadas para uma base de dados privada e centralizada, com coordenadas GPS para cada uma, permitindo à SEE Turtles identificar os pontos de foco das vendas ilícitas.

“Se algumas centenas de viajantes usarem a aplicação ativamente e recolherem dados, e sobretudo se evitarem comprar carapaças verdadeiras de tartaruga, isso é ótimo”, diz Brad Nahill. A SEE Turtles planeia comercializar a aplicação gratuitamente através de campanhas nas redes sociais e parcerias com outras organizações de conservação.

Emily Miller, ecologista marinha que não esteve envolvida no desenvolvimento da aplicação, mas que foi autora de um artigo em 2019 sobre a escala global do comércio de tartarugas-de-pente, diz que, embora existam muitas organizações diferentes pelo mundo inteiro a recolher dados sobre o comércio de tartarugas-de-pente, “um dos principais obstáculos para responder às perguntas de investigação passa pela consolidação, formatação e organização de todos os dados. Ter uma base de dados maior e centralizada vai ser incrivelmente útil para compreender os padrões de comércio globalmente”.

Treinar um computador para proteger tartarugas

Alexander Robillard trabalhou com a equipa de Brad Nahill para recolher 4000 imagens de produtos à base da carapaças de tartaruga, tanto reais como falsos. Alexander Robillard colocou estas imagens no seu modelo de computador, que analisou cada pixel para discernir as diferenças na forma e coloração entre uma carapaça real de tartaruga e uma falsa.

Existe uma diferença fundamental, diz Brad Nahill, o padrão na carapaça de uma tartaruga real é aleatório. Os produtos falsos tendem a ter manchas com extremidades uniformes ou o mesmo padrão em diferentes itens vendidos em conjunto. A tonalidade laranja nas carapaças falsas de tartaruga também tende a ter uma translucidez distribuída uniformemente.

Brad Nahill e Alexander Robillard já estão bem treinados e sabem distinguir entre o que é real e falso, mas sem a aplicação, podem ser necessários vários anos de prática até que uma pessoa consiga desenvolver essa capacidade. “Gosto de dizer às pessoas que isto coloca o Brad [Nahill] no bolso delas!” diz Alexander Robillard, referindo-se à aplicação. “A aprendizagem de máquina e a visão computacional conseguem desempenhar as mesmas tarefas visuais que um humano, mas com mais eficiência e rapidez.” (Testámos a aplicação SEE Shell em dois pares de óculos com padrões de tartaruga – e a aplicação identificou imediatamente ambos os pares de óculos como sendo falsos.)

De tudo um pouco

Através desta aplicação, os cientistas já se depararam com produtos à base de carapaças de tartaruga que nem sequer sabiam que existiam – desde itens para misturar bebidas, por exemplo, a esporas usadas em lutas de galos.

Esta aplicação também pode vir a ser muito valiosa para os grupos conservacionistas ao nível local. Antes do seu lançamento, a Fundação Tortugas del Mar, um grupo de conservação de tartarugas sediado em Cartagena, na Colômbia, já tinha conseguido envolver as autoridades locais na luta contra o tráfico ilegal, reduzindo o comércio ilícito na região em quase 80%. Porém, segundo Brad Nahill, as autoridades só faziam patrulhas se alguém do grupo de conservação as acompanhasse, para ajudar a identificar os produtos ilegais. A Fundação Tortugas del Mar planeia agora formar polícias na utilização da aplicação, para que estes possam trabalhar de forma mais rápida e independente.

David Godfrey, diretor executivo da organização Sea Turtle Conservancy, cujo trabalho inclui esforços de proteção das tartarugas-de-pente no Panamá, um ponto de foco para o comércio internacional, diz que, “se os turistas usarem a SEE Shell, é como equipar um exército de conservacionistas para dificultar a vida das pessoas que vendem [carapaças de tartaruga] às escondidas. Agora que as pessoas podem identificar as origens genuínas em menos de nada, os vendedores talvez pensem duas vezes antes de as colocarem à mostra.”

Com a ajuda da organização World Wildlife Fund for Nature, a SEE Turtles também pretende levar esta tecnologia para as plataformas online, que registaram um aumento no comércio ilegal de animais selvagens nos últimos anos. O Facebook, o eBay e outras companhias filtram os produtos ilegais detetando listagens que incluem palavras-chave proibidas, mas estes filtros são facilmente contornados. “Tanto quando sabemos, ainda ninguém fez nada ao nível visual”, diz Brad Nahill.

Esta tecnologia de aprendizagem visual pode vir a ser adaptada para outros materiais de vida selvagem, como discernir entre ossos falsos e reais. A capacidade de identificar marfim real de um elefante num instante pode vir a ser particularmente valiosa, mas estes casos são mais complicados do que as carapaças de tartaruga, sublinha Alexander Robillard, porque um indicador chave do marfim autêntico são as suas linhas internas cruzadas, que não são visíveis numa fotografia.

“Ainda assim, existe um mundo de possibilidades onde podemos aplicar a aprendizagem de máquina nas questões de conservação.”

A National Geographic Society, comprometida em iluminar e proteger as maravilhas do nosso mundo, financiou o trabalho feito pelo explorador Brad Nahill na conservação de tartarugas-marinhas.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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