O esforço heroico para resgatar o urso Masha da Ucrânia

À medida que a invasão russa passa a marca de um mês, os cuidadores também reúnem esforços para salvar animais.

O urso Masha chega ao Santuário de Ursos Libearty em Zarnesti, na Roménia, após uma viagem de 30 horas de carro desde a região oeste da Ucrânia. Masha é um dos milhares de animais que também foram deslocados pela invasão russa.

Fotografia por Jasper Doest
Por Natasha Daly
fotografias de Jasper Doest
Publicado 5/04/2022, 14:35

Quando Masha, um urso-pardo fêmea da Eurásia, chegou em finais de março a Halmeu, no lado romeno da fronteira com a Ucrânia, a travessia estava cheia de refugiados – mães e filhos, avôs e avós, mulheres jovens a viajar sozinhas.

Masha estava a descansar na parte de trás da carrinha que o seu cuidador, Lionel de Lange, alugou para a resgatar do país. Enquanto esperava para atravessar a fronteira, Lionel abriu a porta de trás para deixar Masha apanhar um pouco de ar fresco. Já tinham passado mais de vinte horas de viagem.

Em pouco tempo, as pessoas começaram a aproximar-se, curiosas sobre o animal selvagem. Lionel de Lange estava nervoso sobre a forma como as pessoas poderiam reagir. “Sempre que fizemos resgates de animais no passado, as pessoas perguntavam porque é que estávamos a ajudar animais e não pessoas”, diz Lionel. Quando Lionel viu as pessoas a rondar a carrinha, “pensei realmente que nos iam fazer passar um mau bocado”.

Masha espreita através da porta do seu recinto temporário, no santuário, pouco depois de ter chegado. Ao princípio, Masha recusava-se a comer e andava aos círculos, um sinal comum de angústia nos animais em cativeiro.

Fotografia por Jasper Doest

No primeiro dia que passou no santuário, Masha esperou no cimento antes de entrar na zona de floresta do seu novo habitat. Os 117 ursos aqui presentes passaram a maior parte das suas vidas em cativeiro e não estavam familiarizados com a sensação do solo debaixo das patas. Quando os animais chegam ao santuário, alguns ficam com medo de sair do cimento durante meses, diz Cristina Lapis, fundadora e diretora do santuário.

Fotografia por Jasper Doest

Mas isso não aconteceu. “Masha colocou um sorriso em alguns rostos que estavam muito, muito tristes”, diz Lionel. “Creio que as pessoas perceberam que Masha estava a passar pela mesma coisa – não tinha para onde ir e ninguém para cuidar dela.”

A história de Masha e Lionel de Lange revela não só as vidas dos animais que são vítimas da guerra brutal levada a cabo pela Rússia, como os esforços dos cuidadores na Ucrânia que estão a arriscar as suas próprias vidas para salvar animais. Alguns, como Lionel de Lange, fundador e diretor da Warriors of Wildlife, uma organização de resgate de animais sediada na Ucrânia, fazem viagens perigosas para escoltar animais. Outros permanecem na Ucrânia a cuidar de animais de estimação ou animais selvagens em cativeiro em zoológicos e santuários – lidando com a escassez de alimentos e a tensão constante dos bombardeamentos.

Estamos todos com medo, diz Lionel de Lange, “porque não sabemos o que vai acontecer”.

No dia 21 de março, Masha chegou finalmente ao Santuário de Ursos Libearty em Zarnesti, na Roménia, lar de 117 ursos-pardos resgatados de circos, mosteiros, hotéis e atrações turísticas, quase todos na Europa. Masha foi um dos primeiros ursos evacuados da Ucrânia após a invasão russa, e junta-se a leões, tigres e outros animais em cativeiro que estão a encontrar refúgio na Roménia, Polónia, Alemanha e outros países europeus.

Uma longa jornada do circo ao santuário

Lionel de Lange salvou Masha de um circo ambulante em 2018. Agora com 22 anos, Masha passou 18 anos a fazer truques em espetáculos depois de ter sido separada da mãe ainda em bebé. “Como Masha não nasceu para andar na corda bamba, andar de bicicleta ou para se equilibrar em cima de bolas, vivia numa pequena jaula nas traseiras de um camião.” A equipa de Lionel estabeleceu um recinto enorme para Masha em terras agrícolas em Sambir, perto de Lviv. Contudo, no ano passado, o proprietário do terreno quis terminar o contrato. Lionel de Lange precisava de encontrar um novo lar para Masha.

Masha aguarda no interior de um recinto temporário no seu habitat de 370 metros quadrados em Sambir, na Ucrânia, enquanto os cuidadores se preparam para a sedar e transportar para a Roménia. Masha foi resgatada de um circo ambulante há quatro anos, pela organização Warriors of Wildlife, onde passou os primeiros 18 anos de vida a fazer truques e a viver numa jaula minúscula nas traseiras de um camião.

Fotografia por Richard Ashmore / Magnus News Agency / Warriors Of Wildlife

O Santuário de Ursos Libearty, o maior santuário de ursos-pardos do mundo, tinha lugar para Masha. “Concordámos em transferi-la no dia 28 de fevereiro”, diz Lionel de Lange. “Na manhã de quinta-feira, no dia 24, acordámos ao som de bombardeamentos e estávamos debaixo de fogo.”

Dois dias depois, Lionel de Lange teve de fugir de casa em Kherson, agora sob ocupação russa e em crise humanitária devido à falta de alimentos e medicamentos. Lionel caminhou e apanhou boleia para a Roménia, onde começou a procurar um veículo que conseguisse levar para a Ucrânia para ir buscar Masha. Depois de seis agências de aluguer automóvel terem recusado o seu pedido, Lionel conseguiu alugar uma carrinha e encheu-a com mais de 700 quilos de alimentos, medicamentos e objetos de higiene pessoal para levar para as pessoas na Ucrânia. Lionel de Lange disse à agência que ia à Ucrânia levar ajuda – “mas não disse que ia trazer um urso de volta!”

Através da vedação, no santuário de Libearty, Masha vê – pela primeira vez na sua vida – outros ursos-pardos. Separada da progenitora ainda em bebé, Masha passou a vida inteira isolada de outros ursos. “Quando ela viu os outros ursos e começou a cheirá-los, ficámos todos de lágrimas nos olhos”, diz Cristina Lapis.

Fotografia por Jasper Doest

Em Sambir, no dia 20 de março, onde Masha estava a ser cuidada por um funcionário da Warriors of Wildlife, Lionel de Lange sedou-a para a colocar na sua jaula de transporte e começar uma viagem de 20 horas de regresso à Roménia. Quando chegaram ao santuário de Libearty, a mais de 10 horas da fronteira com a Ucrânia, Masha andava freneticamente aos círculos, recusando-se a comer ou a sair da jaula. “Isto reavivou algumas memórias, creio eu, de estar novamente no circo ambulante”, diz Lionel.

“À noite, quando Masha chegou, foi terrível para todos nós”, diz Cristina Lapis, fundadora e diretora do Santuário de Ursos Libearty. “Ela não queria beber, comer ou o que quer que fosse. Até recusou mel. Ela só tremia.”

Na manhã seguinte, Masha já estava um pouco melhor. Muito timidamente, pisou a relva e descobriu um novo lago, observando o seu reflexo na água. E através da vedação do seu recinto viu outros ursos. “Imagine passar 22 anos sem ver outro urso”, diz Cristina Lapis. Quando ela viu os outros ursos e começou a cheirá-los, ficámos todos de lágrimas nos olhos.”

Masha desfruta de um momento de tranquilidade no seu recinto temporário no santuário. Masha vai ficar aqui enquanto é monitorizada por um veterinário, mas eventualmente irá mudar-se para um habitat florestal de 11 hectares onde vivem outros 40 ursos-pardos.

Fotografia por Jasper Doest

À medida que a guerra se arrasta, Cristina Lapis continua a receber chamadas sobre ursos na Ucrânia. O santuário acolheu recentemente um urso-pardo abandonado, com 15 anos de idade, que foi encontrado numa jaula do lado de fora de um restaurante bombardeado. “Os animais que ficam lá, não os podemos deixar para trás”, diz Cristina.

Ajudar os animais na Ucrânia

De acordo com as Nações Unidas, mais de 4.2 milhões de ucranianos já fugiram do país. E Masha é apenas um dos vários animais que foram resgatados. No dia 6 de março, sete ursos do Abrigo de Ursos de White Rock, em Kiev, foram levados para um santuário no oeste da Ucrânia. Vários leões e tigres da organização Wild Animal Rescue, também em Kiev, foram transportados para um zoológico na Polónia. Muitos refugiados ucranianos levaram os seus cães, gatos, coelhos, hamsters e outros animais de estimação para países como a Roménia, a Polónia e a Hungria. Estes países dispensaram os requisitos padrão de vacinação ou exames de saúde para muitos animais de estimação.

Porém, há dezenas de milhares de animais que permanecem em zoológicos, quintas, santuários, abrigos e nas ruas por toda a Ucrânia. A comida, particularmente em locais sob fogo de artilharia pesada, é escassa e muitas áreas estão inacessíveis à ajuda externa. Os zoológicos e santuários informam que os seus animais estão traumatizados devido aos bombardeamentos – os animais têm medo das sirenes e das explosões dos ataques aéreos, e colidem com as vedações e chegam até a abandonar as suas crias. Há relatos de animais em santuários que morreram de choque. No Zoo de Kiev, um cuidador dorme todas as noites com um elefante aterrorizado para o acalmar. No Zoo Nikolaev, no porto de Mykolaiv, no Mar Negro, três funcionários foram mortos num ataque.

Cristina Lapis bate na janela de uma caverna subterrânea onde pode observar os ursos-pardos do santuário. Em 1998, Cristina viu o seu primeiro urso-pardo fêmea em cativeiro, chamado Maya, que era mantida numa pequena jaula no exterior do Castelo de Bran, mais conhecido por Castelo de Drácula, na Transilvânia. Maya tinha mastigado ambas as patas devido à angústia extrema. Cristina Lapis visitou-a e alimentou-a durante anos. “No momento em que Maya morreu, prometi-lhe que mais nenhum urso iria morrer assim”, diz Cristina. Em homenagem a Maya, Cristina Lapis fundou o Santuário de Ursos Libearty.

Fotografia por Jasper Doest

Desde o início da guerra, Valentina e Leonid Stoyanov, veterinários em Odessa, já resgataram dezenas de animais, tanto selvagens como domésticos. Com o apoio dos seus seguidores no Instagram e TikTok, estes veterinários conseguiram comprar comida para os seus animais e para os animais de vários abrigos nas proximidades.

“As nossas vidas foram completamente destruídas. Já não temos futuro”, diz Valentina. “Apesar disso, levantamo-nos todos os dias e não desistimos. Há milhares de animais abandonados que precisam de nós. Eles estão com fome, com medo e não têm culpa de a guerra ter rebentado no nosso país.” (Veja mais trabalhos de Valentina e Leonid Stoyanov neste TikTok da National Geographic).

Lionel de Lange planeia regressar à Ucrânia para resgatar um leão, que agora é mantido como animal de estimação em Sambir. E planeia, eventualmente, levar o leão para o santuário da Warriors of Wildlife no Cabo Oriental da África do Sul.

Sobre a viagem que fez desde a Roménia até à Ucrânia para resgatar Masha, Lionel diz: “Enquanto conduzia em direção à Ucrânia, eu ia feliz. Eu tinha medo, mas estava feliz. Isto tem de ser feito. É algo que precisa simplesmente de ser feito.”

Os ursos no santuário de Libearty vivem em grupos de cerca de 40 indivíduos, numa propriedade de quase 70 hectares. Os ursos alimentam-se na floresta e aprendem até a hibernar durante o inverno. “Ao início, os ursos nem sabem o que fazer com a liberdade”, diz Cristina Lapis. “Com o passar tempo, começam a viver exatamente como os ursos selvagens.”

Fotografia por Jasper Doest

Como pode ajudar
A lista que se segue inclui apenas alguns dos grupos que trabalham para ajudar os animais na Ucrânia. Visite os seus sites para descobrir como pode colaborar.
-
Warriors of Wildlife, o grupo sediado na Ucrânia que resgatou Masha
-
Santuário de Ursos Libearty, na Roménia, onde Masha vive atualmente
-
Leonid e Valentina Stoyanov, veterinários em Odessa, na Ucrânia, que ajudam animais abandonados.

Natasha Daly é redatora da National Geographic e cobre a forma como os animais e a cultura se cruzam. Pode encontrá-la no Twitter e Instagram.
Jasper Doest é um fotojornalista neerlandês que explora a relação homem-vida selvagem. O artigo de Jasper Doest sobre entretenimento com macacos no Japão apareceu na edição de março de 2020 da National Geographic. Pode encontrá-lo no Instagram.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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