As borboletas-monarca são agora uma espécie ameaçada

A UICN também anunciou que o esturjão está em rápido declínio, ao passo que as populações de tigres estão a estabilizar.

Por Natasha Daly
Publicado 29/07/2022, 12:22
borboleta-monarca

Uma borboleta-monarca fotografada em janeiro num cipreste na Reserva de Acesso Costeiro de Borboletas-Monarca em Los Osos, na Califórnia. Esta reserva é um local onde milhares de monarcas passam o inverno, depois de migrarem no outono para sul vindas do norte dos EUA. A União Internacional para a Conservação da Natureza declarou agora a borboleta-monarca uma espécie ameaçada.

Fotografia por Gary Coronado, Los Angeles Times, Getty Images

Um dos visitantes mais adorados dos jardins durante verão é agora oficialmente uma espécie ameaçada.

A borboleta-monarca – uma subespécie icónica muito comum na América do Norte – foi agora declarada ameaçada pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), a autoridade global sobre o estatuto de diversidade biológica.

De acordo com a UICN, esta borboleta, famosa pela sua jornada semestral de 4.000 km pelo continente americano entre o verão e o inverno, teve um declínio a rondar os 23 e os 72 por cento nos últimos 10 anos.

Embora a monarca seja considerada ameaçada há muito tempo, a sua listagem na Lista Vermelha da UICN – o estatuto de conservação das espécies – assinala a primeira vez em que foi oficialmente declarada em perigo de extinção.

“É difícil para as pessoas conceber que algo que aparece no seu quintal está ameaçado”, diz Anna Walker, que liderou a avaliação sobre a borboleta-monarca. Anna Walker é membro do Grupo de Especialistas em Borboletas e Mariposas da Comissão de Sobrevivência de Espécies da UICN e oficial de sobrevivência de espécies na Sociedade BioParque do Novo México.

As borboletas-monarca estão ameaçadas devido a uma combinação de fatores. A destruição de habitat ao longo de décadas nas áreas de invernada destas borboletas migratórias tem tido efeitos enormes. Os impactos são sentidos tanto pela população ocidental de borboletas, que vivem a oeste das Montanhas Rochosas e passam o inverno na costa da Califórnia, como pela população oriental dos EUA e Canadá, que passam o inverno nas florestas de abetos do México. Nos habitats de verão, os pesticidas usados na agricultura não só matam as borboletas, como também matam a serralha, a planta onde as borboletas depositam as larvas. As alterações climáticas também são uma ameaça crescente – porque os eventos climáticos dramáticos, como furacões e secas, têm ficado cada vez mais comuns ao longo das rotas de migração destas borboletas.

A população ocidental de borboletas-monarca, a menos estudada e em maior perigo, teve um declínio de 99,9% nas últimas décadas, passando de uma população de cerca de 10 milhões na década de 1980 para apenas 1.914 em 2021, segundo dados da UICN. A população oriental diminuiu 84% entre 1996 e 2014.

“Até agora, só 1% das espécies de insetos foram avaliadas pela UICN – portanto, ter a borboleta-monarca nesta lista é muito significativo. Esta classificação pode ser uma ótima ferramenta para alertar o público e as autoridades globais sobre a necessidade urgente de conservação desta borboleta”, diz Anna Walker.

Más notícias para os esturjões, boas notícias para os tigres

A UICN também anunciou que todas as espécies de esturjões – 26 no total – estão agora em perigo de extinção, e 17 estão em perigo crítico. Uma destas espécies, o esturjão Yangtze, está agora extinta na natureza.

Os esturjões são considerados fósseis vivos porque são peixes que permaneceram praticamente inalterados desde que aparecem nos registos fósseis. São criaturas que datam de há 145 milhões de anos e coexistiram com os dinossauros.

Durante séculos, os esturjões foram pescados em excesso devido à sua carne e caviar. Embora todas as espécies de esturjão estejam protegidas pela lei do comércio internacional, mais de metade continua a ser pescada e vendida como iguaria. A UICN afirma que é crucial empregar uma fiscalização mais rigorosa sobre a pesca e vendas ilegais para travar este comércio.

Mas o anúncio feito pela UICN também trazia boas notícias para algumas espécies, incluindo os tigres. Os novos dados indicam que existem entre 3.726 e 5.578 tigres em estado selvagem, 40% a mais do que a população estimada em 2015. Este aumento deve-se principalmente às melhorias feitas na monitorização, e não porque começaram a nascer mais tigres natureza. Ainda assim, a UICN diz que isto é um bom sinal porque os tigres, apesar de continuarem ameaçados, estão estáveis e podem estar a aumentar em número graças aos esforços de conservação.

Esperança para as borboletas-monarca

Para fazer esta nova avaliação, Anna Walker e os seus colegas analisaram uma enorme quantidade de dados sobre o número de borboletas-monarca de várias fontes, processo que ajudou a conciliar algumas diferenças.

Um estudo controverso feito recentemente, que se baseou em dados de ciência cidadã vindos de locais de nidificação de verão, sugere que as borboletas-monarca podem estar a aumentar em alguns locais dos EUA. No entanto, os dados de inverno são os mais reveladores, diz Anna Walker. “Mesmo que as populações estejam a recuperar em alguns locais durante o verão, se as populações que hibernam continuarem a diminuir – ou mesmo que permaneçam estáveis – continuam precariamente baixas.”

O inverno passado, porém, trouxe alguma esperança. Uma contagem comunitária científica sobre borboletas em 283 locais de nidificação de inverno na Califórnia, liderada pela Sociedade Xerces para a Conservação de Invertebrados, registou uma recuperação da borboleta-monarca ocidental: foram registadas 250.000 borboletas, ao passo que em 2021 este valor estava nas 1.914 borboletas. As contagens de inverno são a forma mais confiável de monitorizar estas populações, diz Anna Walker, porque os locais de nidificação estão concentrados numa pequena área, tornando as contagens mais apuradas.

“Por outro lado, quando pensamos que no inverno na década de 1980 havia entre 3 a 10 milhões de borboletas, e agora são 250.000, a tendência geral dos dados de inverno não é promissora.”

“Pensámos que seria bom pegar em todos os dados – alguns são contraditórios – e colocá-los no contexto global. Desta forma, estamos a usar um processo padronizado que não é influenciado por fatores políticos ou sociais.”

Mas também há esperança devido à resiliência das monarcas, acrescenta Anna Walker. “Estes insetos reproduzem-se rapidamente, proporcionando uma grande oportunidade, ou seja, se reduzirmos algumas ameaças, as borboletas podem fazer o resto do trabalho.”

“Estamos num momento crítico em que as alterações climáticas vão começar a ter um impacto cada vez maior nas espécies” – portanto, aumentar os seus números populacionais agora pode ser fundamental para preparar as borboletas para o futuro.

“O facto de estas borboletas migratórias serem insetos de quintal significa que todas as pessoas podem contribuir. Na América do Norte, plantar serralha nativa (não tropical, que está sempre verde e pode induzir as borboletas a optar por não migrar no inverno) é uma ótima forma de as ajudar a prosperar.”

“Como há muitas coisas que ainda não sabemos sobre as monarcas, a participação em programas de ciência comunitária, que rastreiam e protegem as borboletas localmente, é outra forma de ajudar.”

“Infelizmente, esta não seria a primeira vez em que uma espécie comum e muito disseminada pode ter um declínio acentuado e desaparecer da face da Terra”, diz Anna Walker – referindo-se ao pombo-passageiro, uma ave outrora omnipresente e que ficou extinta na natureza em 1914.

Contudo, ao contrário do que aconteceu há um século atrás, hoje há uma sensibilização sem precedentes sobre a crise de biodiversidade. E isso pode estimular ações em nome das espécies ameaçadas, acrescenta Anna Walker. “Se as pessoas se importarem o suficiente, creio que as monarcas têm capacidade para fazer o resto.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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