Levantamento da Capacidade Cinotécnica nas Tropas Paraquedistas

Parte do treino e atividade operacional dos Cães de Guerra, passa pela capacidade de infiltração aérea. Desta forma, Beni executa o primeiro salto em paraquedas com
o seu operador, depois de uma grande preparação física e técnica.

Fotografia por Vasco Coelho
Por Samuel Damas Batista
Publicado 7/07/2022, 13:46

O intitulado “Cão de Guerra”, foi introduzido nas tropas paraquedistas nos finais dos anos 50, mais precisamente a 4 julho de 1957 no Batalhão de Caçadores Pára-quedistas (BCP), onde nesse mesmo dia é assinado o despacho, pelo Sub-Secretário de estado da aeronáutica na altura, Tenente Coronel Kaúlza de Arriaga, que determina a criação de um canil, no então Batalhão de Caçadores Pára-quedistas, visando a criação e treino de cães militares, para garantir a segurança das unidades paraquedistas e de todas as da Força Aérea Portuguesa.

Passados os anos iniciais da criação da Cinotecnia Paraquedista, a história dos cães militares ao serviço das Forças Armadas Portuguesas nas tropas paraquedistas teve o primeiro impacto de relevo em 1961 onde os binómios cinotécnicos cumpriram uma das suas primeiras missões no âmbito do patrulhamento nas zonas mais perigosas da capital de Angola, por ocasião dos incidentes iniciados com o ataque a guardas de polícia no bairro de São Paulo.

O treino de obediência é fundamental para uma boa preparação de treinos mais avançados, mas para além disso fortalece a relação entre o cão e o militar e vice-versa. Quando o exercício é bem executado o cão recebe sempre uma recompensa por parte do seu operador.

Fotografia por Vasco Coelho

O sucesso desta missão foi determinante na tomada de decisão estratégica de incrementar binómios cinotécnicos nas patrulhas de combate, com a missão de efetuar a segurança das equipas paraquedistas no decorrer da guerra colonial. Os cães de guerra não só davam o alerta, como também executavam a deteção de minas, armadilhas e emboscadas, contribuindo para que as nossas tropas se antecipassem às ações de ataque por parte do inimigo. Este emprego do cão de guerra evitou que ainda mais combatentes “tombassem” em terras do ultramar, retornando às suas famílias, sãos e salvos.

Em março de 1967 as tropas paraquedistas dispunham de um efetivo canino de 67 cães de guerra.

Desde a sua criação já integraram as fileiras do Pelotão Cinotécnico 722 cães militares e em média os cães militares permanecem oito anos de vida nas fileiras, ao final dos quais são doados aos seus Operadores.

Esquerda: Superior:

Nyke faz uma deteção de um explosivo escondido dentro destes objetos metálicos, após a aquisição do odor específico memorizado, a Nyke fica estática indicando a presença de um produto explosivo.

Direita: Inferior:

Para uma boa preparação, os Cães de Guerra devem passar por vários tipos estágios de aprendizagem onde se efetuam treinos e provas de capacidades cinotécnicas. Neste caso, Frika testa a sua capacidade de coordenação motora na travessia destas vigas de cimento.

fotografias de Vasco Coelho

A raça canina com melhor aptidão para desempenhar missões militares era o “pastor alemão”, não só pela história que o precedia desde a sua utilização por outras forças na II Grande Guerra Mundial, mas também pela sua capacidade de se adaptar facilmente a todo o tipo de ambiente.

As décadas seguintes ao fim da guerra colonial, sucederam-se anos de manutenção da atividade e em janeiro de 1994 dá a integração das tropas Paraquedistas na Brigada Aerotransportada Independente (BAI) no Exército Português.

Em meados do ano 2000 houve condições para colocar esta especialização novamente no “ativo” e a integração do Pelotão Cinotécnico para o Batalhão Operacional Aeroterrestre catapultou novamente esta capacidade dando o aproveitamento necessário em tarefas de carácter marcadamente operacional em apoio aos Batalhões de Infantaria Paraquedista (BIPARA), que têm executado missões de apoio e imposição de paz, nomeadamente na República Centro Africana, Afeganistão e Kosovo. O Pelotão Cinotécnico não se esgota neste apoio aos BIPARA e para além disso tem apoiado Equipas de Operações Especiais em exercícios e formação, e no âmbito do Plano de Apoio Militar de Emergência do Exército.

No ano de 2014 realizou-se o 1º salto teste com recurso a paraquedas tático de asa automática com cão a cerca de 8000 ft, sensivelmente a 2400 metros de altura.

Durante a noite, Nyke treina a saída de um edifício iluminada apenas pelas luzes de uma viatura. Os treinos diurnos e noturnos são fundamentais para a melhor preparação do Cão de Guerra, sendo que na sua grande maioria as missões ocorrem em condições de visibilidade reduzida.

Fotografia por Vasco Coelho

No ano de 2014/2015, quatro elementos do Pelotão Cinotécnico frequentaram o curso de Saltador Operacional com Asa Automática com aproveitamento, com a finalidade de garantir maior poder de infiltração por parte dos binómios cinotécnicos e conferir aos mesmos a capacidade para integração em Equipas de Ações Especiais.

Desde então a Cinotecnia tem vindo a afirmar-se gradualmente como uma mais-valia, quer no âmbito da segurança a instalações e pontos sensíveis, quer no âmbito da segurança de patrulhas de reconhecimento e/ou de combate.

Estrutura organizacional atual do Pelotão Cinotécnico

No presente o Pelotão Cinotécnico está integrado na Companhia de Comando e Apoio (CCA), do Batalhão Operacional Aeroterrestre (BOAT), do Regimento de Paraquedistas (RPARA). O Pelotão Cinotécnico é comandado por um Oficial Subalterno do quadro permanente (QP) e na sua composição contempla duas equipas cinotécnicas a sete binómios cinotécnicos, sendo as equipas comandadas por Sargentos igualmente do QP, importa referir que a cada militar corresponde um cão militar, assim formando um binómio cinotécnico.

Capacidades/valências disponíveis do Pelotão Cinotécnico

O cão contribui significativamente para as operações militares, providenciando uma maior capacidade sensorial, olfativa, auditiva e visual. Por seu lado, estas são ainda mais reforçadas pelas capacidades de agilidade, velocidade, resistência e resiliência perante as adversidades que caracterizam o cão militar. Os cães militares funcionam como meio privilegiado de deteção e dissuasão, detendo alguns exemplares a capacidade de ser empregues como força não letal. O cão militar representa uma ferramenta versátil e adaptável para combater ameaças assimétricas num ambiente de forças operacionais. Perante um vasto leque de especialidades inerentes aos cães militares, é com naturalidade aceitável que nem todos os tipos de cães militares tenham utilidade em todas as situações. Definem-se assim dois tipos de cães militares, para permitir que as forças apoiadas implementem, em concordância com o espectro do conflito, o cão militar mais apropriado à missão, ameaça e ambiente: O cão de guerra e o cão de polícia militar.

Associado às tropas paraquedistas e assumindo o legado dos nossos antecessores, o Cão de Guerra é um cão possuidor de certos sentidos apurados que fazem dele um instrumento de valor incalculável em operações, de acordo com o nível de violência, guerra subversiva e de guerra total. O produto operacional específico deste tipo de valência traduz-se num fator multiplicador do potencial de combate de uma unidade de combate, com as capacidades de interditar, conquistar, capturar, destruir, recuperar ou neutralizar um objetivo específico de elevado valor. Tal como qualquer outro ativo especializado, é necessário estar-se familiarizado com a sua forma de atuar para que se possa tirar o máximo rendimento possível do mesmo, sendo que a função primária do cão de guerra é executar ações de combate, em apoio a equipas de ações especiais e, concomitantemente, em caso de necessidade, em operações de apoio/manutenção/imposição da paz.

Fidel prepara-se para iniciar a imobilização de um “inimigo”, seguido de uma equipa de Paraquedistas armados e preparados para finalizar a sua detenção.

Fotografia por Vasco Coelho

A especialização deste Cão de Guerra tem a denominação de Cão Explorador, sendo um tipo de cão especialmente selecionado e treinado para o efeito, devendo estar preparado para progredir em silêncio e atuando por imitação do seu Operador. Em apoio, acompanha uma unidade de combate em qualquer ambiente, com ou sem contacto visual ou eletrónico. Tem a capacidade de ser empregue na deteção antecipada de possíveis ameaças como forças hostis, explosivos, minas e armadilhas. É ainda capaz de distinguir forças hostis de forças amigas. Assim sendo, pode ser utilizado para a localização de forças amigas e/ou detetar e perseguir elementos hostis ou prisioneiros em fuga. Poderá ser portador de equipamentos de visão noturna e/ou radares para melhor cumprir a sua tarefa. Para se atingir este nível, é necessário um treino longo e rigoroso, sendo poucos os cães que reúnem as aptidões naturais para desempenhar estas tarefas.

Este artigo pretende abordar a história dos cães militares Paraquedistas nas Forças Armadas e assinalar alguns dos aspetos mais marcantes desse interessante e rico percurso dos cães militares nas tropas portuguesas paraquedistas.
Tal como no passado, aos dias de hoje o cão militar revela capacidades singulares e impares que o militar ou qualquer outro equipamento militar não consegue igualar. Por tal, o cão militar em conjugação com o seu Operador, continuam a cumprir uma diversidade de missões, sendo que na sua grande maioria começam com um salto em paraquedas e por inerência o binómio cinotécnico executa o salto da aeronave para o cumprimento da missão.

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