Subpopulação de ursos-polares recém-identificada é muito especial. Descubra porquê.

Estes ursos estão geneticamente e geograficamente isolados, mas sobrevivem mais tempo sem gelo marinho do que os cientistas julgavam possível.

Por Elizabeth Anne Brown
Publicado 11/07/2022, 10:58
urso-polar

Um urso-polar e as suas crias atravessam um glaciar de água doce coberto de neve no sudeste da Gronelândia. Os ursos-polares usam o gelo marinho para caçar focas, mas à medida que o Ártico aquece, estas plataformas de gelo estão a derreter mais cedo na época. Assim, os glaciares costeiros podem ser o local onde os ursos-polares irão lutar pela sua sobrevivência.

Fotografia por Kristin Laidre, University of Washington

Segundo todas as informações, não devia haver ursos-polares no sudeste da Gronelândia – mas aparentemente ninguém avisou os ursos.

Apesar de serem excelentes nadadores, os ursos-polares são fundamentalmente animais terrestres que subsistem quase inteiramente de vida marinha. Para o conseguir, estas criaturas enormes usam um comportamento predatório de emboscada, aguardando perto das fendas e buracos no gelo marinho que as focas usam para respirar.

Contudo, no sudeste da Gronelândia, a época de gelo marinho não chega aos quatro meses – “muito curta para os ursos-polares sobreviverem”, diz Kristin Laidre, cientista da Universidade de Washington, que investiga a ecologia animal do Ártico em colaboração com o Instituto de Recursos Naturais da Gronelândia. Portanto, como é que se explica a presença de ursos-polares nesta região?

Um glaciar de água doce encontra o mar num fiorde no sudeste da Gronelândia, proporcionando um habitat importante para os ursos-polares numa área que na maior parte do ano não tem gelo marinho.

Fotografia por Kristin Laidre, University of Washington

Na Gronelândia, os caçadores indígenas de subsistência dizem há muito tempo que os ursos-polares podem ser encontrados durante o ano inteiro nos fiordes até ao extremo sul do país. Quando o governo da Gronelândia encomendou um estudo sobre a distribuição de ursos-polares, Kristin Laidre e a sua equipa seguiram os mapas de valor “inestimável” desenhados à mão pelos seus colaboradores inuítes e identificaram ursos que ainda não tinham sido estudados no sopé dos glaciares, perto do assentamento abandonado de Skjoldungen-Timmiarmiit, na região sudeste.

A investigação de Kristin Laidre, publicada na revista Science, apresenta evidências de que o ADN de algumas centenas de ursos nesta parte da Gronelândia é diferente o suficiente do dos seus vizinhos para serem considerados a 20ª subpopulação – um grupo de animais da mesma espécie que estão geneticamente e geograficamente separados – entre os 26.000 ursos-polares que existem no mundo. Os dados fornecidos pelas coleiras de rastreio via satélite colocadas em 27 ursos também confirmam que esta população sobrevive sem gelo marinho durante mais três meses do que os cientistas julgavam possível.

À luz destas informações, é tentador interpretar o estudo como uma nova esperança e acreditar que os ursos-polares podem sobreviver com menos gelo marinho, porém, os autores do estudo enfatizam que a conclusão não é a de que os ursos-polares são mais resistentes às alterações climáticas do que se pensava. Trata-se mais de perceber que lugares como o sudeste da Gronelândia – onde o gelo dos glaciares de água doce pode compensar o degelo marinho – podem ser onde os ursos-polares irão fazer a sua última luta pela sobrevivência.

Tarefa digna de urso

Kristin Laidre, juntamente com Fernando Ugarte, do Instituto de Recursos Naturais da Gronelândia, e uma série de colaboradores internacionais perscrutaram 36 anos de dados sobre o movimento dos ursos e amostras de ADN para descobrir o que torna estes ursos diferentes. Os investigadores ficaram surpreendidos quando descobriram que os dados de localização GPS revelaram um limite latitudinal a cerca de 64 graus a norte. Os ursos que viviam a norte desta linha permaneceram no mesmo local enquanto as informações foram recolhidas, ao passo que os ursos na região sudeste ficaram a sul da linha, com pouca ou nenhuma mistura entre as populações.

Enquanto que os seus parentes no nordeste da Gronelândia percorrem uma média de dez quilómetros por dia nas camadas de gelo marinho, os ursos no sudeste ficam junto à costa numa série de fiordes – enseadas longas e estreitas esculpidas pelos glaciares que são alimentados pela calota de gelo da Gronelândia. Nos meses de verão, há pedaços de gelo que caem no oceano, criando os chamados glaciares de água doce, camadas espessas que podem ficar compactas o suficiente para os ursos-polares poderem andar – e caçar.

Kristin Laidre descobriu que alguns ursos ficavam num só fiorde ou em alguns fiordes adjacentes durante anos a fio, ocupando uma área de alcance de apenas três ou quatro quilómetros quadrados. É uma área muito reduzida em comparação com as áreas de alcance da população do norte, onde um urso típico percorre mais de 1450 km por ano através do gelo marinho.

Ursos-polares ilhados e uma correia transportadora de gelo

As análises de ADN obtidas pela equipa de Kristin Laidre, bem como as de estudos anteriores e amostras fornecidas pelos caçadores de subsistência, indicam que os animais no sudeste são os “ursos-polares geneticamente mais isolados do planeta”, diz Kristin. Por outras palavras, estão menos relacionados com as suas subpopulações vizinhas do que qualquer uma das 19 subpopulações reconhecidas.

Mas como é que estes dois grupos de ursos-polares divergiram? Os investigadores alegam ter visto evidências de um “efeito fundador”, o que significa que a população do sudeste foi estabelecida por um pequeno número de indivíduos separados do grupo maior, e os seus descendentes cruzaram-se ao longo de gerações. A análise genética sugere que todos os ursos amostrados no sudeste partilham um antepassado comum recente, há cerca de duzentos anos.

O culpado mais provável por este isolamento dos ursos fundadores nos fiordes é a Corrente Oriental da Gronelândia, um enorme fluxo de alta velocidade com direção a sul ao longo das costas leste da Gronelândia. Basicamente, esta corrente água cria uma correia transportadora de gelo marinho vinda da costa nordeste que se desfaz em blocos mais pequenos à medida que se dirige para sul.

Todos os anos, diz Fernando Ugarte, há pelo menos meia dúzia de ursos do nordeste que são levados pela corrente para sul, em torno do Cabo Farewell, o ponto mais a sul da Gronelândia. Os mais afortunados acabam na região sudoeste, onde podem seguir para norte e oeste, em direção ao Canadá. Os outros acabam afogados no mar.

“O que há de interessante ou de especial sobre esta nova população de ursos reside no facto de estes animais parecerem saber lidar com a situação”, diz Fernando Ugarte. Entre os ursos rastreados, onze foram apanhados pelas correntes e viajaram em média cerca de 190 km no gelo em menos de duas semanas – contudo, no espaço de um mês ou dois, conseguiram regressar todos para os seus fiordes a nado através das águas geladas e a deambular por terra.

Um refúgio, nem que seja por um momento

Andrew Derocher, professor de biologia na Universidade de Alberta, que estuda os ursos-polares e o Ártico há mais de 40 anos – e não esteve envolvido no estudo – diz que esta investigação é “elegante” e “reúne alguns resultados interessantes”.

Andrew acrescenta que não é uma revelação ver gelo glaciar a sustentar uma população de ursos-polares na ausência de gelo marinho. Há o exemplo bem documentado de Svalbard, o arquipélago norueguês onde se descobriu que os ursos-polares também ficam em pequenas áreas de alcance suplementadas por gelo glaciar.

Os cientistas preveem que, à medida que as alterações climáticas remodelam o Ártico, os glaciares nos fiordes irão permanecer intactos durante mais tempo do que o gelo no mar, criando potenciais locais de refúgio – redutos temporários perante condições de vida desfavoráveis – para espécies como os ursos-polares que dependem do gelo para caçar.

Mas isto não significa a “salvação dos ursos-polares”, explica Steven Amstrup, cientista-chefe da organização de conservação Polar Bears International e ex-diretor do departamento de pesquisa de ursos-polares do Serviço Geológico dos Estados Unidos no Alasca, função que desempenhou durante 30 anos.

Na imaginação do público, o Ártico parece estar repleto de glaciares, mas grande parte do norte polar é tundra, planícies sem árvores que cobrem o solo congelado chamado pergelissolo. “Os reservatórios de gelo glaciar de água doce do Ártico ficam principalmente na Gronelândia e em Svalbard, com um pouco no extremo norte do Canadá”, diz Kristin Laidre. Estas misturas glaciares são invulgares no Ártico e não são suficientes para suportar um grande número de ursos.

Steven Amstrup espera que esta investigação encoraje cientistas e decisores a fazer um levantamento sobre a existência de outros glaciares no Ártico que possam ajudar os ursos-polares a sobreviver mais tempo.

“Este estudo é de facto outra evidência sobre a relação fundamental entre os ursos-polares e a água coberta de gelo”, diz Steven. “Será que faz alguma diferença aos ursos o gelo ser de água doce ou salgada? Provavelmente não, desde que haja focas por baixo.”

Um subgrupo com outro nome diferente

Os autores do estudo argumentam que os ursos do sudeste da Gronelândia, em virtude das suas diferenças genéticas e separação geográfica dos do nordeste, devem ser reconhecidos como a 20ª subpopulação de ursos-polares do Ártico.

Em última análise, esta é uma questão para os especialistas em ursos-polares, incluindo Kristin Lairdre e Andrew Derocher, da União Internacional para a Conservação da Natureza. Os peritos vão considerar fatores como o número de ursos na população – algo que os cientistas ainda precisam de definir – e saber se é benéfico tratar esta população de forma separada.

Os autores do estudo dizem que a distinção genética dos ursos do sudeste é algo que deve ser conservado e protegido. Andrew Derocher e Steven Amstrup concordam, mas deixam um alerta.

“O meu palpite é o de que temos uma população pequena, endogâmica e isolada”, diz Andrew Derocher, “e estes tipos de populações, segundo o que conhecemos de outros estudos sobre grandes carnívoros, são vulneráveis à depressão endogâmica, isto inclui episódios de doenças e alguns eventos demográficos aleatórios”.

“As populações isoladas, num contexto evolutivo, são tipicamente mais vulneráveis”, acrescenta Steven Amstrup.

“Este tipo de isolamento e fragmentação genéticos é o tipo de coisa que provavelmente iremos ver muito mais no futuro, à medida que grupos cada vez mais pequenos de ursos persistem em áreas [cada vez mais distantes]”, diz Andrew Derocher.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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