O número de tigres quase triplicou no Nepal, mas a que custo?

Este país tem agora 355 tigres, mas os críticos dizem que o foco na conservação tem colocado a vizinhança humana em risco.

Por Dina Fine Maron
Publicado 18/08/2022, 10:37
tigre-de-bengala

Um tigre-de-bengala percorre o Parque Nacional Bardia, no Nepal, uma das áreas protegidas do país para os animais.

Fotografia por Utopia_88, Getty Images

O Nepal tornou-se o principal candidato mundial para a conservação de tigres.

Este país anunciou no final do mês passado que tem 355 felinos ameaçados de extinção dentro das suas fronteiras, quase triplicando a sua população conhecida desde a última estimativa feita em 2009, que registava 121 tigres.

Na Cimeira Global do Tigre em São Petersburgo, na Rússia, em 2010, as 13 nações participantes que têm tigres na natureza comprometeram-se a duplicar o número de tigres. Só o Nepal é que conseguiu atingir esse objetivo.

O sucesso do Nepal é em grande parte o resultado da “forte adesão do governo” à conservação de tigres e a aplicação de políticas rígidas no combate à caça furtiva, diz Abishek Harihar, vice-diretor do programa de tigres do grupo de conservação de felinos selvagens Panthera, que apoiou a iniciativa recente do Nepal no levantamento da sua população de tigres-de-bengala.

No início do século XX, mais de 100.000 tigres percorriam o planeta, mas a perda de habitat eliminou mais de 90% da sua faixa de alcance, de acordo com a organização Panthera. A caça de troféus e o comércio ilegal devido ao valor das suas peles e ossos – usados na China e noutros lugares da Ásia para fazer produtos como “vinho” de osso de tigre, uma bebida tradicional que alguns acreditam conceder a força do animal a quem a beber – também reduziu substancialmente as populações de tigres. Atualmente, no Camboja, Laos, Vietname e sul da China não há tigres na natureza.

Factos sobre Tigres
Os tigres são caracterizados pela sua beleza, poder e importância de conservação. Aprenda cinco factos surpreendentes sobre estes felinos, incluindo o seu tamanho, a adaptação que alguns desenvolvem para nadarem e o quanto as populações diminuíram.

No Nepal, a punição por caçar um tigre resulta numa pena de 15 anos de prisão e uma multa de 10.000 dólares, diz Abishek Harihar.

Desde a década de 1970, o Nepal já estabeleceu cinco parques nacionais onde vive a maioria dos seus tigres. Estes parques são fortemente patrulhados por funcionários do parque e por militares. A proteção dada aos tigres também tem ajudado outros animais ameaçados – rinocerontes, elefantes e pangolins, etc.

Os avanços feitos nas técnicas de amostragem – como por exemplo as armadilhas fotográficas – são responsáveis por algumas das melhorias no número de tigres registados no Nepal. Mas também tem existido um aumento real da população, com mais tigres a nascer, diz Abishek Harihar. “É certo que o Nepal chegou muito mais perto [das suas metas de conservação de tigres] do que outros países, embora a Índia, o Butão e a Tailândia também tenham feito avanços nos últimos anos.”

O comunicado do Nepal sobre a sua população de tigres surgiu depois de a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), a autoridade global sobre o estatuto dos animais ameaçados de extinção, ter anunciado no início do mês de julho que o número de tigres em todo o mundo está “estável ou a aumentar”. A contagem mais recente da UICN indica que existem entre 3726 e 5578 tigres selvagens – um aumento de 40% em relação à estimativa feita em 2015. A UICN refere que grande parte desta melhoria deve-se a uma monitorização mais apertada, não ao número crescente de animais.

Porém, os avanços feitos no Nepal têm um custo: alguns críticos dizem que o foco no aumento do número de tigres contradiz a segurança da comunidade. Nos últimos anos, os ataques de tigres contra as populações locais que vivem perto do habitat dos animais têm aumentado, assim como a predação feita ao gado, ameaçando os meios de subsistência. As agências governamentais e os grupos conservacionistas “não pensaram o suficiente sobre como manter as pessoas seguras nestas comunidades”, diz Kumar Paudel, diretor da Greenhood Nepal, uma organização de conservação sem fins lucrativos sediada em Katmandu.

“Estou animado por ver este número de tigres”, diz Kumar Paudel, “mas o custo desta conservação aparenta muito triste”.

Aumento nos ataques de tigres

Entre julho de 2021 e julho de 2022, os tigres mataram 16 pessoas no Parque Nacional de Chitwan, o habitat principal destes grandes felinos, de acordo com Babu Ram Lamichhane, biólogo do Fundo Nacional de Conservação da Natureza, no Nepal. Por outro lado, acrescenta Babu Lamichhane, nos cinco anos anteriores todos juntos, houve apenas 10 ataques (e mortes resultantes) no parque.

Em junho, um tigre atacou e feriu uma mulher de 41 anos no distrito de Bardiya, perto de uma das maiores áreas de habitat de tigres, enquanto a mulher apanhava lenha. Este incidente, de acordo com o The Kathmandu Post, indignou a comunidade e levou os habitantes a bloquear a estrada principal, exigindo melhor proteção dos animais. Para dispersar os manifestantes, as forças de segurança usaram bombas de gás lacrimogéneo e abriram fogo, provocando vários feridos e um morto.

A organização de Babu Lamichhane descobriu que os tigres que ferem ou matam pessoas normalmente têm deficiências físicas ou procuram território – são animais stressados à procura de presas fáceis. O aumento da densidade de tigres, de acordo com Babu, força alguns felinos a procurar território nas áreas periféricas, onde é mais provável que encontrem humanos.

Uma monitorização mais aprimorada sobre estes animais e um controlo pontual, como a eutanásia de um tigre, podem ajudar a reduzir os ataques, continua Babu, acrescentando que realocar os felinos que já atacaram pessoas não é uma boa solução porque estes podem ferir pessoas noutros lugares.

A maioria das pessoas que vive em torno dos parques continua a depender da floresta para as suas necessidades diárias, por exemplo, madeira para combustível, diz Kanchan Thapa, chefe dos programas de vida selvagem do World Wildlife Fund-Nepal. “Portanto, o governo e outros parceiros de conservação devem concentrar-se em fornecer opções alternativas de subsistência para estas pessoas”, diz Kanchan Thapa.

Com a divulgação recente dos novos números da população global de tigres, a UICN pediu aos países para continuarem a expandir e a unir as áreas protegidas, e pediu mais colaboração com as comunidades que vivem perto ou nos habitats dos tigres.

“O maior problema é a interação humano-tigre”, diz Kumar Paudel, acrescentando que “os governos precisam de pensar sobre o custo social da conservação e numa forma de partilharmos isto verdadeiramente”.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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