Os animais desenvolveram a agricultura antes de nós, porque estes esquilos também podem ‘cultivar’

Os esquilos gopher-de-bolso fertilizam e colhem campos de raízes subterrâneas. Alguns especialistas alegam que esta é uma forma de agricultura.

Por Sofia Quaglia
Publicado 9/08/2022, 09:31
gopher-de-bolso-do-sudeste

Um gopher-de-bolso-do-sudeste encontra um lugar para despejar solo enquanto escava. As raízes que estes esquilos encontram enquanto escavam não fornecem comida suficiente. Mas ao colher raízes ao longo do tempo, estes animais obtêm energia suficiente para continuar a escavar e a sobreviver no subsolo.

Fotografia por Houston Wells

Os humanos não são os únicos animais a praticar a agricultura. As formigas-cortadeiras, por exemplo, carregam meticulosamente folhas para o ninho para cultivarem um fungo do qual se alimentam. Alguns besouros também criam fungos no interior de árvores podres. No mar, as castanhetas tendem percorrer áreas onde as suas algas favoritas crescem e eliminam os tipos indesejáveis.

Agora, investigadores encontraram evidências de que pequenos mamíferos chamados gophers-de-bolso também gerem, fertilizam e colhem raízes para se alimentarem. Isto corresponde à definição de agricultura, de acordo com o estudo publicado no dia 11 de julho na revista Current Biology.

“Os gophers estão a moldar as plantas, assim como o solo”, diz Francis (Jack) Putz, professor de biologia da Universidade da Flórida e o investigador responsável por este projeto. “Portanto, estão a gerir as colheitas. Se a agricultura for a gestão das colheitas, é isso que eles estão a fazer.”

Apesar de ser necessário mais trabalho de investigação para provar definitivamente que este comportamento equivale a um tipo de agricultura, ou “cultivo”, esta descoberta levanta questões fascinantes sobre o papel ecológico desempenhado por estas criaturas e sugere que as interações animal-planta são muitas vezes bastante mais complexas do que se imaginava. E também revela que os gophers são engenheiros ecológicos, e não simples pragas.

Especialistas subterrâneos

Os gophers-de-bolso-do-sudeste (Geomys pinetis) passam a maior parte da sua vida sozinhos a escavar no subsolo. Apesar de serem comuns nas pastagens da América do Norte e Central, é pouco provável conseguirmos ver um – a sua presença geralmente só é percetível graças aos montes de solo arenoso que deixam para trás ao cavar sistemas de túneis subterrâneos que se estendem ao longo de mais de 150 metros, geralmente a pouco mais de um metro de profundidade.

A sua anatomia está adaptada a este estilo de vida: conseguem fechar a boca atrás dos incisivos, usando os dentes para cavar sem engolir terra. Bolsas forradas de pele em ambos os lados das suas faces carregam sementes e material vegetal enquanto estão a arar. As pesquisas feitas recentemente descobriram que estes animais também brilham no escuro, outra aptidão que é útil quando se vive nas profundezas – talvez para comunicar ou fugir de predadores.

Antigamente, acreditava-se que os gophers alimentavam-se principalmente quando mastigavam as raízes que encontravam enquanto construíam novos sistemas de túneis. Porém, escavar túneis é um esforço energético muito exigente – um processo que é até 300 a 3000 vezes mais cansativo do que caminhar sobre uma superfície – e os investigadores mostram que, se os gophers comerem apenas as raízes que encontram durante as escavações, não conseguem compensar a energia gasta.

“Se escavarem um metro e encontrarem um determinado número de raízes nesse espaço, será que ganham energia suficiente dessas raízes para compensar o custo de terem escavado esse metro?” pergunta Veronica Selden, estudante investigadora da Universidade da Flórida e coautora do estudo. “Em todos os casos que analisámos, exceto num, a resposta é não.”

Pesquisa gopher

Para compreender como é que estes mamíferos têm acesso a raízes suficientes para sobreviver, Francis Putz e Veronica Selden observaram o comportamento de gophers numa savana de pinheiros no norte da Flórida. Os investigadores excluíram manualmente os animais de partes dos seus sistemas de túneis usando um barril aberto para formar uma pequena barragem, cortando o acesso a partes dos seus lares durante variados períodos de tempo. E observaram que, nos túneis subterrâneos escuros e húmidos que os gophers tinham escavado, havia raízes novas, macias e digeríveis a crescer como se fossem estalactites e estalagmites a cobrir as paredes.

Aparentemente, estes esquilos parecem estar a cuidar ativamente das raízes para garantir que crescem, segundo os cientistas. Ao manter e proteger estas longas redes de túneis, os gophers estão a criar o ambiente húmido perfeito para as raízes prosperarem e a ventilar o solo, libertando os espaços onde as plantas crescem.

É importante referir que os gophers espalham e distribuem as suas fezes e urina pelos túneis.

Estes excrementos fertilizam o solo e as raízes, diz Veronica Selden. Isto é bastante diferente do que acontece com outras espécies de gopher, que tendem a ter áreas de excrementos designadas, e diferencia-os de outros herbívoros à superfície que podem acidentalmente fertilizar trechos de relva com os seus excrementos.

“Os gophers parecem estar a usar uma espécie de sistema de produção alimentar, porque fornecem o espaço ideal para as raízes crescerem.”

Ao mordiscar as raízes, os gophers também parecem estar a encorajar um novos crescimentos.

“Estes pequenos mamíferos encontram uma raiz grande e mordem-na, mas não é muito digerível porque tem muita lenhina ou celulose, é rija e difícil de mastigar”, diz Francis Putz. “Mas em resposta aos golpes, a raiz cria muitas raízes pequenas, e estas são saborosas e mais digeríveis.”

O estudo descobriu que a colheita diária de tubérculos feita pelos gophers pode sustentar entre 21 a 62 por cento das suas necessidades calóricas – compensando as calorias que os animais precisam para continuar a escavar os sistemas de túneis.

“São animais que têm túneis muito longos que [não podem] ser explicados. É arriscado escavar túneis... energeticamente é muito dispendioso”, diz Francis Putz. “Portanto, porque é que iriam fazer algo assim? Se não for para ‘cultivar comida’, não consigo pensar em qualquer outro motivo.”

O debate em torno do ‘cultivo’

“Muitas vezes penso nestes gophers como se fossem ‘agricultores’”, diz Brittany Brito, bióloga de habitat do Departamento de Caça e Pesca do Wyoming, que não esteve envolvida no estudo. “Creio que é um argumento convincente, o de que os gophers podem ser considerados agricultores porque ventilam o terreno, aumentam a mineralização de nutrientes e fertilizam o solo. Estas atividades são, de certa forma, o cultivo das culturas [que] consomem.”

Contudo, há outros investigadores que questionam se “cultivo” será um termo adequado para as atividades dos gophers.

“Não estou certo de que estejam ativamente a ‘cuidar’ ou apenas a colher com o efeito de estimular o crescimento. É uma diferença subtil”, diz James Demastes, professor de biologia da Universidade de Iowa do Norte que estuda gophers-de-bolso, mas que não participou no estudo.

James sublinha que as observações sobre fertilização são interessantes e “definitivamente invulgares” para esta família de animais, e admite que a ideia de que os gophers-de-bolso podem estar a praticar agricultura ecoa em tudo que se sabe sobre os gophers em geral. “Acho que é muito interessante”, diz James Demastes.

Contudo, os gophers-de-bolso não estão a semear ou a mondar as suas plantações, dois elementos tradicionalmente encarados como necessários para a agricultura, e que se acredita acontecerem com outros animais “agrícolas”, como as formigas e besouros que inoculam fungos.

“Descrever a atividade dos gophers como agricultura parece um exagero”, diz Kimberly Asmus Hersey, da Divisão de Recursos de Vida Selvagem e Conservação de Mamíferos de Utah, que não esteve envolvida no estudo. “Não olho para isto como sendo uma coisa diferente do que acontece com muitas outras interações entre plantas e herbívoros.”

Há muitos casos em que o pastoreio pode estimular a produtividade das plantas, acrescenta Kimberly, ou seja, não é muito diferente do que acontece quando um veado poda um arbusto.

É controverso afirmar que os gophers estão a cultivar porque as pessoas têm conceitos diferentes sobre o termo agricultura, diz Francis Putz. “São certamente engenheiros agrícolas porque estão a fazer tudo o que podem para melhorar o crescimento das plantações.”

Os investigadores, como é óbvio, dizem que há várias outras formas pelas quais os gophers podem saciar as suas necessidades energéticas, processos que ainda não foram explorados em profundidade. Os gophers podem estar a forragear em áreas com mais raízes do que as testadas; ou podem estar a depender fortemente dos tubérculos para se nutrirem, para além das raízes; ou podem ocasionalmente ir comer à superfície, ou puxar plantas subterrâneas pelas raízes e comê-las inteiras.

Embora os gophers sejam geralmente considerados pragas, os estudos mostram que estes animais são frequentemente engenheiros de ecossistemas inestimáveis para os habitats onde vivem. Por exemplo, já ficou demonstrado que ajudam a manter as pradarias e os prados montanhosos, e que impedem a entrada de um número significativo de mudas de árvores invasoras, e sabe-se que ajudaram as plantas colonizadoras a assentar raízes em paisagens áridas após a erupção do Monte Santa Helena em maio de 1980.

“Saber que os gophers são agricultores… pode vir a mudar a narrativa e assim estes animais passam de pragas a parceiros agrícolas com os quais podemos aprender”, diz Veronica Selden.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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