Os bebés podem praticar o choro meses antes de nascer

Um novo estudo sobre macacos saguins sugere que o desenvolvimento da linguagem humana começa muito mais cedo do que se pensava anteriormente.

Por Jason Bittel
Publicado 31/08/2022, 11:04
saguins

Os saguins (na imagem vemos animais fotografados em cativeiro na Universidade de Nebraska em Omaha) são conhecidos por serem altamente vocais.

Fotografia por Joël Sartore, National Geographic Photo Ark

Quando um bebé humano nasce, o seu primeiro choro é um sinal normal de boa saúde. Sem nunca ter respirado antes, o bebé sinaliza a sua primeira inspiração e expiração – na forma de choro.

Como é que os bebés sabem criar um som que nunca fizeram antes? E será que o seu primeiro grito é realmente o início do desenvolvimento da fala?

Aparentemente, os bebés humanos podem estar a praticar o choro muito antes de fazerem qualquer som. Isto é, se forem minimamente parecidos com os saguins, que são parentes primatas dos humanos.

Num estudo publicado recentemente na revista eLife, os cientistas usaram dezenas de ultrassons sucessivos em saguins fêmeas grávidas para mostrar que os seus fetos começam a fazer expressões faciais semelhantes ao choro quase dois meses antes de nascerem.

Os investigadores também conseguiram separar estas expressões de outros movimentos bocais que os bebés fizeram no útero e combinaram-nas com as formas do rosto expressadas após o nascimento, quando os bebés começam a chamar os pais. Estas expressões surgiram em padrões e durações tão consistentes que os investigadores acreditam que estavam a praticar o choro, mesmo que os animais ainda não conseguissem emitir sons.

Os saguins estão entre as espécies mais pequenas de macacos, com os adultos a pesarem apenas entre 280 a 360 gramas, ou cerca de uma chávena de açúcar. Existem mais de 20 espécies de saguins, todas nativas da América do Sul. Apesar de serem fisicamente diferentes dos humanos, os saguins são primatas, o que significa que estão muito mais relacionados com o Homo sapiens e são mais esclarecedores na compreensão do desenvolvimento e comportamento humano do que outros sujeitos de pesquisa mais comuns, como os ratos de laboratório.

Nas décadas de 1970 e 1980, alguns estudos de ultrassons em mulheres grávidas pareciam mostrar bebés a fazer caretas consistentes com o choro enquanto ainda estavam no útero, diz Daniel Takahashi, coautor do estudo e comportamentalista animal do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, no Brasil. Contudo, estas descobertas foram difíceis de rastrear ao longo do tempo, devido à inconveniência de realizar ultrassons repetidamente em mulheres grávidas.

“Os saguins são macacos que sabemos que vocalizam muito e partilham muitas características com os humanos”, diz Daniel Takahashi, que trabalhou com o Instituto de Neurociência de Princeton durante a investigação.

Por exemplo, tanto os pais e mães saguim criam os filhos juntos e, ao contrário de outros primatas, os bebés saguim são relativamente indefesos quando nascem, como acontece com os bebés humanos.

Em relação à forma como tudo isto se traduz para os humanos, Daniel Takahashi diz que a descoberta central ajuda a esclarecer quando é que o desenvolvimento da fala começa e que estudar o pré-nascimento – em vez do momento do nascimento – pode ajudar a identificar antecipadamente problemas da fala ou de desenvolvimento motor.

“Há muitas coisas a acontecer no útero que podem ser relevantes para o que vai acontecer depois.”

Os saguins gostam de marshmallows

Antes de os investigadores conseguirem submeter os saguins aos ultrassons, primeiro tiveram de treinar os animais para ficarem parados. Embora isto possa parecer uma tarefa quase impossível para um animal que passa os dias a balançar freneticamente no dossel da floresta tropical, os cientistas tinham um truque na manga.

“Os saguins gostam de guloseimas com um alto teor energético”, diz Daniel Takahashi. “E o que eles gostam mesmo é de marshmallows.”

Com guloseimas por perto, cada uma das quatro saguins grávidas foram examinadas duas a três vezes por semana, até 45 minutos de cada vez. Os ultrassons começaram ao 95º dia de gravidez, quando os rostos dos bebés começam a ficar distinguíveis, e continuaram até ao nascimento, aos 146 dias.

Os saguins normalmente têm gémeos e também têm trigémeos e quadrigémeos, mas os cientistas não tinham foram de diferenciar os bebés enquanto estes ainda estavam no útero das mães. (Descubra mais gestações animais surpreendentes.)

Isto significa que em três de quatro gestações onde gémeos e quadrigémeos estavam envolvidos, os cientistas combinaram os resultados de quaisquer rostos que conseguiram scanear.

Blocos de construção da linguagem falada

Talvez um dos aspetos mais impressionantes deste estudo tenha sido como a forma como o número de movimentos qualificados como choro de treino aumentou ao longo do tempo, diz Daniel Takahashi.

O choro praticado também mudou.

Por exemplo, nas primeiras análises, os fetos só faziam a expressão de praticar o choro ao mesmo tempo que moviam a cabeça. No entanto, à medida que cresciam, os dois movimentos começaram lentamente a dissociar-se, diz Daniel Takahashi, chegando a um ponto em que conseguiam abrir a boca num choro simulado sem mover a cabeça.

Isto demonstra que, embora os saguins nunca evoluam para o nível de linguagem que é possível nos humanos, a sua comunicação evolui e melhora com o passar do tempo.

“É óbvio que não conseguimos estudar toda a complexidade da linguagem noutras espécies, porque cada espécie tem o seu próprio sistema de comunicação”, diz Andrea Ravignani, especialista em bioacústica comparativa e diretor do grupo de pesquisa do Instituto Max Planck de Psicolinguística. “Mas podemos procurar os blocos de construção da linguagem falada, e creio que foi isso que os autores fizeram neste estudo.”

Andrea Ravignani, que não esteve envolvido no estudo, já tinha descoberto ritmos ocultos nas vocalizações de lémures. Andrea diz que a ideia de procurar evidências de produção de sons antes de ser possível produzir sons é “extremamente convincente”.

Andrea diz que pode haver uma analogia na forma como os bebés humanos começam a gatinhar antes de fazerem a transição para andarem eretos.

“Eu estudo o desenvolvimento de sons de mamíferos noutras espécies, principalmente nas focas”, diz Andrea Ravignani. “E é isso que fazemos. Tentamos descobrir o que vem antes.”

Andrea Ravignani diz que há um debate entre a comunidade científica sobre a forma como o desenvolvimento e o comportamento dos saguins pode ou não ser elucidativo para os humanos. Porém, para os traços vocais examinados neste estudo, Andrea diz que são um modelo excelente.

“Na minha humilde opinião, os saguins podem oferecer ainda mais informações do que os chimpanzés”, diz Andrea.

Isto pode parecer um paradoxo, já que os chimpanzés são mais próximos dos humanos do que os saguins. No entanto, uma investigação feita recentemente mostra que os saguins conseguem aprender novos chamamentos e até dialetos à medida que envelhecem, sugerindo que são sujeitos mais aptos para explorar a plasticidade e o desenvolvimento vocal.

Contudo, convém ter marshmallows por perto.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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