Um museu de Chicago perturbou o habitat de ave ameaçada

A renovação do Museu de História de Chicago em 2021 afastou as garças-noturnas da sua zona de reprodução anual. As aves não regressaram, segundo os conservacionistas.

Por Richard Pallardy
Publicado 29/09/2022, 11:00
garças-noturnas

As garças-noturnas (na fotografia vemos uma ave no Santuário de Audubon Corkscrew Swamp, na Flórida) estão ameaçadas de extinção em Illinois.

Fotografia por Fritz Polking, VWPics, AP

Desde 1856 que a Sociedade Histórica de Chicago preserva cuidadosamente artefactos e documentos que catalogam a herança da chamada Cidade Ventosa. As coleções desta sociedade estão alojadas no Museu de História de Chicago, uma estrutura erguida em 1932 no bairro de Lincoln Park, a vários quarteirões do lago Michigan. Este edifício foi ampliado várias vezes e agora possui uma variedade de exposições com uma curadoria sofisticada.

Em 2021, o museu começou a modernizar os seus relvados sombreados. Este projeto incluiu a construção de um trilho para caminhadas com placas a assinalar a história de Chicago, a instalação de plantas nativas e o reforço do teto nos arquivos subterrâneos. Este trabalho foi projetado, em parte, para tornar o espaço num local mais atraente para eventos de destaque, como casamentos e angariações de fundos.

Esta área, porém, também era adjacente a um antigo local de reprodução de pelo menos 45 pares de garças-noturnas, que são consideradas ameaçadas de extinção no estado de Illinois. As autoridades do museu estavam cientes das garças, e os funcionários e visitantes gostavam de desfrutar do viveiro destas aves ameaçadas de extinção na propriedade.

O Lincoln Zoo de Chicago é o lar da única colónia reprodutora restante de garças-noturnas em Illinois.

Fotografia por Photography Richard Ellis, Alamy

“Os pássaros já estavam cá há algum tempo”, diz à National Geographic John Russick, vice-presidente do museu. “Era uma coisa boa estarem por aqui.”

Ainda assim, os funcionários do museu pareciam estar a minimizar os danos no viveiro de aves que um grande projeto de construção poderia provocar. Com base na avaliação limitada feita pelo museu sobre o impacto nas aves, o Departamento de Recursos Naturais de Illinois fez uma breve revisão ambiental e concluiu que a renovação do espaço representava poucos riscos de disrupção para as garças. As equipas de trabalhadores chegaram em março de 2021, pouco antes da época anual de nidificação das garças, que acontece na primavera. As equipas operaram equipamentos ruidosos, por vezes a poucos metros do viveiro.

Pouco tempo depois, os pássaros abandonaram os seus ninhos. Passadas algumas semanas, foram avistados corvos a rondar as crias mortas. Em 2022, meia dúzia de garças macho regressaram ao local, mas depois de não conseguirem atrair parceiras, partiram novamente.

“Tentámos mitigar ao máximo os trabalhos pesados durante esse período”, diz John Russick.

Contudo, os defensores do ambiente e vida selvagem acreditam que podia ter sido feito mais para evitar os impactos nocivos sobre as aves. Amy Lardner, conservacionista que em 2022 fundou o Chicago Black-Crowned Night Heron Project, obteve permissão do museu para monitorizar o progresso das garças. Amy visitou o local assim que as construções começaram e disse que a cena era perturbadora. Algumas árvores estavam separadas por vedações, mas o resto da propriedade era terra batida. O ruído dos trabalhos de construção continuava desde o início da manhã até ao final da tarde.

“Ao início pensei que o viveiro estava muito silencioso”, diz Amy Lardner. “Mas com o passar do tempo, comecei a ver cada vez menos aves adultas e não ouvia as crias. Em meados de maio, percebi que as coisas não estavam bem.”

Garças sob ameaça

O projeto do museu não foi a primeira vez em que garças-noturnas sofreram reduções cruciais de habitat no estado de Illinois. Embora estas aves se encontrem em todos os continentes, exceto na Austrália e na Antártida, e sejam populosas em algumas regiões dos EUA, já estão listadas como ameaçadas de extinção em Illinois desde 1977.

Os levantamentos feitos nas décadas de 1980 e 1990 registaram cerca de 70 locais de reprodução. Hoje, a única grande colónia de reprodução neste estado fica no Lincoln Park Zoo de Chicago. Há pequenas colónias que persistem ao longo do rio Fox e outra colónia maior que permanece numa zona industrial no estado vizinho de Indiana.

As garças-noturnas vivem em muitas partes do mundo, como se pode ver nestes selos postais do Vietname (à esquerda), da antiga Checoslováquia e Hungria.

Fotografia por Alamy

Nas últimas três décadas, o desenvolvimento humano de habitats de água doce, dos quais as garças dependem para sobreviver, tem sido o principal fator de destruição de habitat. Mas as garças também enfrentam ameaças de concorrentes não humanos. As colónias de garças nos subúrbios de Chicago, nos lagos Renwick e Baker, acabaram por ser invadidas pelos agressivos cormorões-de-crista-dupla.

Walter Marcisz, ex-presidente da Sociedade Ornitológica de Chicago, tem memória de ver um grande número de garças a emergir das colónias em torno do lago Calumet, na zona sul de Chicago, um dos últimos redutos desta espécie.

“O número mais elevado que registámos num único dia a sair das colónias foi de cerca de 1.500 aves”, diz Walter Marcisz.

Em 2002, Walter Marcisz começou a ajudar Jeffrey Levengood, toxicologista de vida selvagem da Universidade de Illinois, a rastrear as expedições noturnas das garças para se alimentarem de sáveis invasores – um tipo de peixe – no Lincoln Park, na zona norte de Chicago. Mais tarde, uma série de inundações e secas levou as garças permanentemente para norte, onde começaram a nidificar nas densas copas que rodeavam o bairro.

As garças-noturnas (na imagem vemos uma garça no Zoológico de Xangai, na China) são mais ativas ao final do dia, quando saem para caçar sapos, peixes e outros animais.

Fotografia por Nigel Hicks, Nat Geo Image Collection

Greg Neise, que naquela altura trabalhava como fotógrafo no Lincoln Park Zoo, reparou pela primeira vez nos ninhos vazios de garças-noturnas numa ilha coberta de vegetação localizada em South Pond, adjacente ao Lincoln Park Zoo, no inverno de 2006. No mês de julho do mesmo ano, Greg fotografou os ninhos ativos.

No entanto, no inverno de 2009, as árvores que povoavam a ilha foram derrubadas como parte de um esforço de restauração. Embora tenham sido plantadas árvores maduras como substitutas, as garças não regressaram para reproduzir na época seguinte.

As aves mudaram-se para as árvores em parques vizinhos mais a oeste – e um pequeno número começou a nidificar no Zoo Infantil do Lincoln Park Zoo. Em 2010, todas as garças já tinham desocupado a área de Calumet e estabelecido em Lincoln Park.

Depois, em 2014, as garças entraram novamente em conflito com os interesses locais. A retirada de árvores devido aos danos provocados por besouros-verdes e pelo guano das garças forçou as aves a irem para o zoológico e para outras áreas do parque. Em 2015, as garças estabeleceram-se nos terrenos do Museu de História de Chicago.

Uma revisão ambiental abreviada

Mais ou menos na mesma altura, o museu de história estava a acelerar os seus planos para renovar a propriedade, que fica num terreno que pertence ao Chicago Park District.

Em abril de 2020, através do seu empreiteiro principal, o museu solicitou uma revisão de impacto EcoCat ao Departamento de Recursos Naturais de Illinois (IDNR), conforme exigido pela lei estadual. Todos os projetos estaduais e locais estão sujeitos a esta revisão de impacto em Illinois, processo que também ocorre noutros estados e ao nível federal ao abrigo da Lei de Política Ambiental Nacional.

Este pedido de revisão mencionava as garças-noturnas e o peixe Catostomus catostomus – um peixe que habita nas proximidades do lago Michigan e está ameaçado no estado de Illinois.

Mas não mencionava explicitamente que as garças-noturnas eram conhecidas por se reproduzirem nos terrenos do museu – ou seja, dizia simplesmente que as garças estavam nas proximidades – algo que pode ter sido interpretado como uma referência à colónia estabelecida no zoológico ali perto.

Uma garça pousada num ramo nas Everglades. Estas aves vivem em habitats de zonas húmidas por toda a América do Norte, como pântanos, lagos, reservatórios e estuários.

Fotografia por Andrea Melendez, The News-Press, USA Today

“Naquele momento, não tínhamos registos de garças-noturnas no museu, e o requerente não deu qualquer indicação de que as garças eram conhecidas por nidificar nos terrenos do museu, portanto encerrámos a revisão sem recomendações”, diz Jayette Bolinski, diretora de comunicações do Departamento de Recursos Naturais de Illinois (IDNR), através de comunicado enviado por email. Desta forma, os investigadores nunca visitaram o local e a revisão foi encerrada um dia depois.

A direção de Park District, que é proprietária do terreno onde fica o museu de história, não esteve envolvida na revisão ambiental mas sugere que competia ao museu sinalizar a presença de condições sensíveis para a vida selvagem.

“Toda e qualquer construção dentro ou em torno de uma área natural de Chicago Park District ou de um habitat de aves conhecido é evitada durante a migração e a época de nidificação”, diz Irene Tostado, vice-diretora de comunicações de Park District, em comunicado por email. Irene Tostado acrescenta que “o Museu de História de Chicago foi responsável pela gestão do projeto de construção, incluindo a monitorização e documentação da presença de vida selvagem na área, bem como a aprovação do projeto por parte do IDNR”.

No rescaldo destes acontecimentos, a conservacionista Amy Lardner pediu ao IDNR para investigar o assunto. Esta agência abriu uma investigação para determinar se houve um “assalto” ilegal ao viveiro de aves nos terrenos do museu, uma ação que potencialmente violaria a lei de espécies ameaçadas do estado de Illinois. Mas as autoridades acabaram por encerrar a investigação, citando a disponibilidade limitada de informações. O IDNR concluiu que qualquer potencial ofensa não atingiu o nível criminal.

Procurar um meio-termo

Muitas vezes é difícil equilibrar as necessidades do desenvolvimento humano com as necessidades da vida selvagem, sobretudo nos ambientes urbanos. Em 2012, uma colónia de raposas-voadoras-de-cabeça-cinzenta, uma espécie de morcego considerada vulnerável pela UICN e pelas autoridades australianas, foi repelida dos Jardins Britânicos Reais em Sydney, na Austrália, porque estava a destruir árvores que eram muito estimadas. Em 2019, os campos de vólei em Chicago tiveram de ser encerrados e um concerto cancelado para acomodar um casal de batuíras-melodiosas em nidificação. Esta espécie está em perigo de extinção em Illinois e ao nível federal na região dos Grandes Lagos.

Esta tensão constante coloca muitas vezes os conservacionistas contra os especialistas em uso de terras e provoca debates sobre o que significa proteger a terra para uso e aproveitamento – e cujo uso e aproveitamento devem ser priorizados.

Em torno do Museu de História de Chicago, os efeitos que a construção teve nas garças parecem ser permanentes. As garças não regressaram para procriar e, para além dos restos de vários ninhos, há poucos sinais de que as aves estiveram sequer no local.

Acredita-se que as aves “despejadas” se tenham retirado para a colónia em Lincoln Park Zoo, onde se concentram em torno de um habitat dedicado ao lobo-vermelho, um animal ameaçado ao nível federal. O Instituto de Vida Selvagem Urbana do zoológico registou um número recorde de 750 garças adultas e 400 crias este ano.

Tirando algumas pequenas colónias isoladas, o viveiro de aves no zoológico parece ser o último local de reprodução para esta espécie no estado de Illinois.

Os defensores da natureza esperam que os esforços de restauração feitos na região de Calumet com o objetivo de criar habitats para aves dos pântanos e outros animais selvagens possam ajudar a atrair novamente parte da população de garças para sul, para os seus locais históricos de reprodução.

Entretanto, a espécie encontra-se restrita ao seu espaço no zoológico, rodeada por lobos e carros a alta velocidade, e dependem da consideração dos humanos que agora dominam o que outrora era um pantanal imaculado.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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