Veja fotografias raras de chimpanzés a tratar das suas feridas com insetos

Um fotógrafo captou imagens de grandes símios no Gabão a aplicarem uma espécie desconhecida de inseto em si próprios e nos seus familiares.

A comunidade de Rekambo, com cerca de 40 chimpanzés, vive no Parque Nacional de Loango, no Gabão. 

Por Roland Hilgartner
Publicado 28/10/2022, 12:37

PARQUE NACIONAL DE LOANGO, GABÃO – O Parque Nacional de Loango, no Gabão, ofereceu recentemente o cenário para os investigadores registarem algo raramente observado na natureza: chimpanzés a aplicarem insetos nas suas feridas. 

Este comportamento – uma demonstração única de uma atividade cultural potencialmente avançada – sugere que esta espécie de primatas pode ter desenvolvido comportamentos de longa data relacionados com a saúde e que são partilhados entre membros dos seus grupos muito unidos. 

Loango, uma enorme área protegida na costa oeste de África Central, é um paraíso natural: uma área com mais de 1.500 quilómetros quadrados com um mosaico de diferentes habitats – incluindo florestas tropicais, lagoas, pântanos, savanas, florestas tropicais costeiras, planícies aluviais e florestas de mangais – que criaram uma explosão de biodiversidade. Esta área abriga pelo menos 80 espécies de mamíferos, incluindo 11 espécies de primatas, para além de leopardos, elefantes-da-floresta, hipopótamos, antílopes-do-pântano e o tímido pangolim-gigante. Este parque também abriga 272 espécies de aves. 

Tobias Deschner, investigador da Universidade de Osnabrück, na Alemanha, e a sua esposa, Simone Pika, diretora do grupo de pesquisa em biologia cognitiva comparativa do Instituto de Ciências Cognitivas da Universidade de Osnabrück, lideram o Projeto Ozouga Chimpanzee em parceria com a Autoridade de Parques Nacionais (ANPN) do Gabão. 

Esquerda: Superior:

Thea, um macho, imobiliza um inseto entre os lábios e esmaga-o ligeiramente.

Direita: Inferior:

Thea retira depois o inseto da boca e aplica-o suavemente numa ferida que foi aberta durante uma luta.

Fotografia por Roldan Hilgartner

Nos últimos cinco anos, esta equipa de investigação tem vindo a recolher dados comportamentais sobre a comunidade de Rekambo, que tem cerca de 40 primatas (rekambo significa “onde se fala inglês” na língua local). Os investigadores filmaram cenas incríveis, como chimpanzés a atacarem gorilas-das-planícies, e até a matarem e a comerem animais mais novos. A equipa também observou os chimpanzés a trabalharem cooperativamente, recorrendo a ramos das árvores para extrair mel em colmeias subterrâneas. 

Em fevereiro de 2022, os cientistas publicaram a sua maior descoberta até agora: os chimpanzés tratam deliberadamente das suas próprias feridas e dos ferimentos dos membros do seu grupo com uma espécie desconhecida de inseto. Esta foi a primeira vez em que este comportamento foi cientificamente observado em grandes símios. 

Automedicação entre animais 

Michael Huffman, primatólogo e docente na Universidade de Quioto, é um dos pioneiros da investigação em automedicação animal, um campo conhecido por zoofarmacognosia. Michael Huffman já tinha observado há décadas que os chimpanzés selvagens infestados com lombrigas engoliam o tecido do caule interior do arbusto africano Vernonia amygdalina. Esta planta contém agentes antiparasitários e também é usada pela população local no tratamento de dores intestinais. 

Quando estão infestados com lombrigas, os bonobos e gorilas engolem partes ásperas e pilosas de plantas que podem combater os parasitas. As pilosidades das plantas aumentam a atividade intestinal e afastam os vermes. Há vários anos, os cientistas também descobriram que os orangotangos no Bornéu estavam a tratar-se com extrato de dragoeiro. 

Entre os macacos, os cuidados são uma espécie de serviço de amizade que sinaliza afeto. O mesmo princípio também se pode aplicar ao tratamento das feridas uns dos outros. 

Fotografia por Roldan Hilgartner

Os mecanismos de automedicação são conhecidos mesmo entre os animais não primatas. Algumas espécies de aves também “se banham” em formigueiros para se livrarem de ectoparasitas, como ácaros das penas, com a ajuda do ácido fórmico. No Quénia, foi observada uma elefante grávida a comer determinadas plantas que os naturopatas locais também usam para induzir o parto nas mulheres grávidas. 

Alessandra Mascaro, bióloga evolutiva do projeto Ozouga e líder do estudo publicado em fevereiro, reparou pela primeira vez em 2019 que os chimpanzés de Rekambo pareciam tratar dos seus próprios ferimentos. Alessandra Mascaro viu um vídeo de um chimpanzé fêmea a aplicar um inseto capturado recentemente numa ferida aberta na sua cria. Pouco tempo depois, a progenitora removeu cuidadosamente os restos do inseto. Este comportamento parecia revelar o tratamento de ferimentos. 

Na Alemanha, Alessandra Mascaro mostrou as gravações a Tobias Deschner e a Simone Pika, que ficaram surpreendidos com o que viram. Os vídeos posteriores mostravam que este comportamento não era acidental ou arbitrário, já que outros membros da comunidade de Rekambo também pareciam tratar dos ferimentos da mesma forma. No seu estudo, Alessandra Mascaro registou 19 animais a automedicarem-se com insetos. 

Símios empáticos 

Nas profundezas da floresta de Loango, Tobias Deschner observou César, um chimpanzé que transportava ameixas de coco, a ser visitado por dois machos. A cerca de seis metros de distância, Tobias viu que um dos machos tinha uma laceração enorme na coxa esquerda e dois pontos abertos nas costas. O outro macho também estava ferido e tinha o pulso a sangrar. 

Os cientistas ainda não identificaram a espécie de inseto ou insetos que os chimpanzés usam para tratar ferimentos. 

Fotografia por Roldan Hilgartner

Aparentemente, na noite anterior tinha ocorrido uma luta violenta, provavelmente provocada por Pandi, o macho alfa. Após uma ausência de vários dias, Pandi regressou ao grupo, algo que pode ter aumentado a tensão entre os machos. 

 Na manhã seguinte, eu próprio observei os chimpanzés a catarem-se uns aos outros. Quando os animais se separaram, segui Thea, um dos macacos que tinha visitado César no dia anterior e ainda estava ferido. Pelas expressões faciais, parecia que a ferida na perna o incomodava — Thea inspecionou o ferimento com os dedos e os seus olhos perscrutaram a vegetação circundante, como se estivesse à procura de algo. 

Os chimpanzés (na imagem vemos um macho chamado César) comem uma enorme variedade de alimentos, incluindo frutas, nozes, sementes e insetos. O território dos chimpanzés de Rekambo tem cerca de 60 quilómetros quadrados e inclui quase todos os habitats do parque nacional, desde praia, savana e floresta tropical. 

Fotografia por Roldan Hilgartner

Com alguma premonição, tirei a minha câmara da mochila. Tobias Deschner também tinha a sua câmara de vídeo pronta. E depois aconteceu. 

Num instante, a mão direita de Thea alcançou os arbustos. Ele apanhou um inseto, talvez uma mosca, que estava na parte de baixo de uma folha. Thea colocou o animal na boca e esmagou-o ligeiramente com os lábios. E depois aplicou cuidadosamente a pasta resultante na ferida aberta, acariciando a zona para frente e para trás com as pontas dos dedos. Thea repetiu este procedimento mais algumas vezes antes de acabar por limpar a ferida com os dedos. 

Este padrão de comportamento corresponde exatamente à primeira observação feita por Alessandra Mascaro. E aconteceu tudo tão depressa que, se este comportamento não tivesse sido observado antes, seria quase impossível discernir o que estava a acontecer. 

A investigadora Alessandra Mascaro observa os chimpanzés de Rekambo na savana. 

Fotografia por Roldan Hilgartner

Três dias depois, observei outro caso de medicação com insetos. Desta vez tratou-se de outro macho que apanhou um inseto e aplicou-o numa das feridas que Thea tinha nas costas. Este comportamento revela aos cientistas que, para além de se medicarem uns aos outros, os chimpanzés também compreendem o bem-estar dos outros. Isto pode ser considerado um comportamento pró-social, que segundo os cientistas exige capacidades cognitivas mais complexas. 

Depois de os dois chimpanzés macho se afastarem, Alessandra Mascaro procurou no chão da floresta onde ambos tinham acabado de estar. Alessandra – e todos os cientistas – adorava saber que espécies de insetos os chimpanzés estavam a usar, na esperança de analisar a sua química. Mas os chimpanzés não deixaram insetos para trás. 

Um golpe de sorte 

É difícil perceber até que ponto alguns animais estão conscientes sobre as ligações entre determinados comportamentos e os efeitos farmacológicos.  

Para além disso, os cientistas dificilmente conseguirão certificar-se de que um comportamento, mesmo que intencional, produz o efeito desejado horas ou até dias depois. Muitas vezes também existem explicações alternativas, sobretudo na natureza, para o motivo que leva um animal a adoecer ou a melhorar. Determinar estes fatores com exatidão exigiria exames antes e depois, que muitas vezes são impossíveis de realizar com animais selvagens. 

Fredy (à esquerda), cuida de Thea, um dos machos que se automedica. 

Fotografia por Roldan Hilgartner

As observações feitas por Alessandra Mascaro e pelos seus colegas da equipa de investigação do projeto Ozouga são únicas porque documentam este comportamento em primeira mão, uma observação sortuda, diz Alessandra. Aparentemente, os chimpanzés de Rekambo só usam este método do inseto quando estão feridos, algo que limita as oportunidades de observar esta prática em ação. (Descubra o que os chimpanzés podem ensinar aos humanos sobre envelhecer de forma saudável.) 

Ainda não se sabe se estas descobertas têm um significado científico profundo ou se são uma mera coincidência comportamental. Os humanos, como é óbvio, também são conhecidos por fazerem coisas estranhas – algumas comprovadas, mas muitas não – na procura da saúde e do bem-estar ideais. Os chimpanzés comportarem-se da mesma forma seria mais uma coisa que temos em comum com os nossos parentes vivos mais próximos. 

 

Uma versão deste artigo foi publicada originalmente na edição de setembro de 2022 da edição alemã da revista National Geographic

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