Animais

Biologia e Conservação de Tubarões III – Ciclo de Vida

Por João Correia
Fotografias Por Nuno Queiroz, A.P.E.C.E.
Tintureira, Prionace glauca, desembarcada na lota da Nazaré, no dia 27-06-2003.

Os tubarões e raias exercem um fascínio especial junto do público de todas as idades, ocasionalmente pelas razões erradas, mas focar-nos-emos nas certas. Este é o terceiro artigo de uma série que tem como objectivo dar a conhecer alguns dos aspectos mais relevantes da biologia destes extraordinários animais, bem como alguns dos desafios que enfrentam actualmente. As referências bibliográficas citadas em todos os artigos desta colectânea podem ser consultadas na tese (do mesmo autor) intitulada “Pesca Comercial de Tubarões e Raias em Portugal”, disponível na área Literature do website www.flyingsharks.eu.

 

Características do Ciclo de Vida

O conjunto de características biológicas descritas para este grupo de animais resulta num potencial para crescimento e reprodução de uma população bastante baixos (Pratt e Casey 1990). Estas características estão associadas, como foi referido anteriormente, a uma estratégia de reprodução genericamente designada como ‘selecção k’ e tem implicações na capacidade destas populações para recuperarem dos efeitos da sobrepesca ou outros impactos negativos (Holden 1974).

O crescimento é um dos aspectos preponderantes no ciclo de vida de uma espécie e com maiores implicações na gestão do seu stock. Algumas das (muitas) espécies em que o crescimento já foi estudado são:

•  Mustelus canis (Moss 1972);

•  Mustelus manazo (Tanaka e Mizue 1979);

•  Prionace glauca, Alopias vulpinus e Isurus oxyrinchus (Cailliet et al. 1983);

•  Isurus oxyrinchus (Pratt e Casey 1983), entre muitas outras.

Das espécies de Chondrichthyes cujo crescimento foi estudado, várias têm ciclos de vida longos, atingindo, por exemplo, 70 anos no caso Squalus acanthias (Ketchen 1975, Nammack et al. 1985, Beamish e McFarlane 1987). São, igualmente, bastante lentos a atingirem a maturidade, embora esta possa ocorrer em intervalos tão curtos como um a três anos (Rhizoprionodon taylori e R. terraenovae, Simpfendorfer 1993 e Branstetter 1987a, respectivamente) a 20-25 anos em Carcharhinus obscurus (Natanson et al. 1995). A determinação da idade da maioria das espécies, contudo, ainda não foi claramente quantificada. Existem, ainda, diversas espécies nas quais foram observados anéis de crescimento, mas que não foram devidamente validados através de estudos de marcação e recaptura, frequências de comprimento, incrementos marginais ou outros métodos (Cailliet et al. 1986).

Anequim, Isurus oxyrinchus, desembarcado na lota da Nazaré, no dia 27-06-2003.

Aliada ao crescimento, a reprodução também se reflecte da maior importância para a gestão deste recurso marinho. Os Chondrichthyes contam com três tipos de reprodução, todas envolvendo um investimento materno considerável na produção de um número reduzido de ovos ou crias bem desenvolvidas à nascença e com taxas de sobrevivência elevadas (Hamlett 1997). Os três métodos possuem, em comum, fertilização interna de um número reduzido de óvulos, à qual se segue:

•  Implantação e desenvolvimento do embrião no útero através de uma placenta – viviparidade placentária;

•  Desenvolvimento dos embriões dentro do útero, não implantados e sem placenta, com reservas energéticas asseguradas por sacos de vitelo – viviparidade aplacentária ou ovoviviparidade. Este método pode incluir os fenómenos de ingestão de óvulos não fertilizados por parte dos irmãos (ovofagia) e, ocasionalmente, ingestão de outros embriões por parte dos irmãos (embriofagia, fenómeno também conhecido como canibalismo intra-uterino);

•  Desenvolvimento dos embriões dentro de cápsulas (i.e. ovos) que são lançadas no meio marinho e dentro das quais o desenvolvimento continua até à nascença - oviparidade.

Em nenhum dos casos há qualquer tipo de cuidado materno pós-nascimento. Dependendo da espécie, as fêmeas podem dar à luz desde um até, excepcionalmente, 300 juvenis como, por exemplo, o tubarão-baleia, Rhincodon typus (Joung et al. 1996 e Chang et al. 1997). O número de crias oscila, na maioria dos casos, entre dois e 20. Os períodos de gestação são desconhecidos para a maioria das espécies mas oscilam de menos de três até 24 meses. Este é o caso do ovovivíparo Squalus acanthias, que tem o período de gestação mais longo (i.e. 24 meses) conhecido dentro dos vertebrados (Compagno 1984b e Nammack et al. 1985). A reprodução nem sempre ocorre anualmente nas fêmeas, já que não só algumas gestações excedem o período de um ano como, também, algumas espécies exibem períodos de descanso entre gravidezes (Branstetter 1990, 1997 e Pratt e Casey 1990).

Depois do elevado investimento inicial na produção de ovos ou crias de grandes dimensões, muitos Chondrichthyes dão à luz em locais costeiros abrigados ou zonas de nursery estuarinas (Musick e Colvocoresses 1988, Castro 1993), onde os riscos de predação são mais reduzidos (Branstetter 1990).

 

João Correia é Professor Adjunto no Instituto Politécnico de Leiria, General Manager na Flying Sharks e Co-fundador da A.P.E.C.E. (Associação Portuguesa para o Estudo e Conservação de Elasmobrânquios).

 

Continuar a Ler