É Possível Cheirar a Fraqueza? Os Lémures Dizem Que Sim.

O odor de um lémure-de-cauda-anelada tende a perder intensidade quando o animal está ferido, uma circunstância que os seus pares podem interpretar como um sinal de fraqueza, que os leva a apoderarem-se das fêmeas ou a usurparem o território.

Não há forma de enganar um lémure.

Os humanos podem fazer cara séria para passar a imagem de durões, mas os lémures-de-cauda-anelada usam o odor para avaliar os seus rivais. Tal significa que estes primatas de Madagáscar, do tamanho de um gato pequeno, dificilmente conseguem iludir os seus pares, fazendo-se passar por durões, mas o seu odor, esse, tem de ser intenso.

Como é que os lémures cheiram literalmente a fraqueza dos seus potenciais rivais?

O CHEIRO DA FRAQUEZA

Os machos e as fêmeas de lémure-de-cauda-anelada possuem glândulas de cheiro na zona dos genitais, sendo que nos machos essas glândulas estão também presentes nos pulsos e nos ombros, e todas elas produzem odores distintos. Esta eau de toilette personalizada, com aroma de cauda anelada, diz muito sobre a saúde de um lémure.

O estudo de uma década do Centro de Lémures da Universidade de Duke descobriu que a intensidade do odor corporal dos lémures-de-cauda-anelada diminui significativamente, quando os animais apresentam ferimentos, afetando a sua produção. Conforme divulgado pelos investigadores em junho, na revista Scientific Reports, a diminuição do odor ou a perda dele gera um défice que outros lémures podem cheirar e explorar.

Os lémures vivem em grupos sociais, denominados bandos, que são liderados por uma fêmea dominante, mas “tanto os machos, como as fêmeas usam a agressão e o odor como instrumentos para manter o seu estatuto social”, afirma a principal autora do estudo Rachel Harris, uma bióloga na área do comportamento animal e ecologista química, que conduzia uma investigação pós-doutoramento no Centro de Lémures da Universidade Duke, na altura do estudo.

E os lémures são um osso duro de roer.

“As fêmeas são dominantes e agressivas”, afirma Christine Drea, uma antropóloga evolucionista da Universidade de Duke. Os machos lutam uns contra os outros para disputar o controlo, e as fêmeas lutam contra os machos “porque podem. Elas são miúdas com pelo na venta.”, diz Drea.

Estes primatas pugilistas sofrem muitas vezes ferimentos na sequência de lutas e acidentes tanto em cativeiro, como na natureza.

O estudo recente analisou as secreções genitais de 23 lémures, que habitavam o centro e onde sofreram vários ferimentos, decorrentes sobretudo de lutas, e comparou os seus odores em três momentos distintos: antes, durante e depois dos ferimentos.

Drea observou que, quando feridos, “os odores dos lémures, que são a sua imagem de marca, ou diminuíam de intensidade ou desapareciam por inteiro”.

Os lémures feridos perderam até quase 10 por cento do seu odor, revelando uma diminuição generalizada de intensidade, bem como a perda total de compostos químicos das centenas que integram esses odores.

E em terra de lémures, o odor corporal, ou melhor a falta dele, interfere realmente com a vida social de um indíviduo.

O PREÇO DO PERFUME

Segundo Drea, o estatuto social do lémure reflete-se tanto na qualidade, com na quantidade do seu odor. Por isso, para se manter à frente da concorrência, um lémure marca as árvores e os ramos com o seu próprio odor e, se possível, sobrepondo o seu odor ao do seus pares.

Os machos que detetaram um odor pouco intenso revelaram maior predisposição para deixar o seu odor num lugar marcado anteriormente por um lémure ferido, do que num lugar marcado por um lémure saudável. Este comportamento sugere que o macho que sobrepôs o seu odor vê no outro macho, com um odor pouco intenso, um fraco concorrente. O macho ferido poderia também sentir diminuída a sua capacidade para se deslocar e fazer nova marcação do lugar.

A diminuição da intensidade do odor corporal de um lémure macho, seja em cativeiro ou na natureza, “pode ter sérias repercussões na posição social que o animal ocupa no seio do bando”, diz Harris. “Os animais feridos podem perder o seu elevado estatuto social no interior do grupo ou perder o acesso a potenciais parceiras para procriar.”

Os resultados sugerem que este comportamento é também extensível às fêmeas, embora não existam dados suficientes que o comprovem. As fêmeas têm, porêm, um odor tão intenso quanto os machos.

“Podem existir cerca de 300 componentes diferentes na marca de odor de uma fêmea, se comparada com os cerca de 200 componentes do odor de um macho”, diz Harris. As fêmeas investigam de perto as marcas de odor, provavelmente para avaliar potenciais rivais, “sobretudo outras fêmeas.”

O estudo também confirma que estes odores únicos envolvem muita energia na sua produção, tal como manifestado pelos animais feridos, cujos corpos ajustaram a intensidade dos odores durante o período de recuperação.

“Apenas um animal forte e robusto pode pagar esse preço”, diz Drea.

 

Esta história foi originalmente publicada em NationalGeographic.com em Inglês.

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