Animais

A Páscoa é Má Para os Coelhinhos: Eis a Razão

A incompreensão generalizada relativamente aos coelhos domésticos tornou-os um dos animais de estimação mais abandonados dos Estados Unidos.

Por Natasha Daly

Estamos na loja Petland em Fairfax, na Vírginia, no sábado que antecede o fim de semana de Páscoa. Em três gaiolas abertas há 16 láparos, todos para venda. Duas adolescentes dirigem-se a uma das gaiolas, pegam num e deixam-no cair no chão, e, achando-o adorável, gritam: “Quero um!”

Os coelhos são todos muito jovens. Não há coelhos adultos à venda nesta loja.

“O que acontece aos láparos que crescem antes de serem vendidos?” pergunto ao vendedor? “O criador vem buscá-los”, responde.

“O que é que ele faz com eles?”

“Não sei.”

Os coelhos são o terceiro animal de estimação mais popular nos Estados Unidos, a seguir aos gatos e aos cães, de acordo com a Humane Society of the United States – e o terceiro mais abandonado. A maioria dos americanos tem uma noção sobre quanto tempo é que os cães e os gatos vivem, o tipo de cuidados de que precisam, os comportamentos que apresentam. Mas e sobre os coelhos? Perguntei a vários dos meus colegas quanto tempo acham que os coelhos domésticos vivem. “Um a dois anos?” “Talvez três?” Na verdade, com os cuidados adequados, os coelhos vivem 10 a 12 anos. O que as pessoas sabem sobre eles parece nada ter a ver com a sua omnipresença.

Este desfasamento parece estimular a compra por impulso de coelhos como animais de estimação, diz Anne Martin, diretora executiva da House Rabbit Society, a maior organização de resgate de coelhos dos Estados Unidos. O facto de muitas pessoas pensarem que os coelhos são animais de gaiola, que duram pouco e são fáceis de manter faz com que sejam vistos como “animais de estimação para principiantes” e perfeitos para crianças, tal como os hamsters ou os peixinhos de aquário. Este equívoco pode ajudar a fomentar a venda em excesso de láparos antes da Páscoa – e levar a um aumento subsequente dos abandonos de coelhos.

Jennifer McGee, cogerente da dependência da House Rabbit Society na Georgia, um centro de acolhimento situado na zona sudeste do estado, refere que normalmente recebem uma a duas chamadas por semana com informação sobre coelhos abandonados. Mas nas seis semanas depois da Páscoa, o centro recebe três a quatro chamadas por dia. As dependências da House Rabbit Society em Idaho e Chicago relatam um aumento mais significativo no verão, altura em que os “coelhos da Páscoa” atingem a puberdade e a realidade se revela aos donos.

E a realidade é esta: embora os coelhos possam ser uma ótima companhia, são animais de estimação que exigem muitos cuidados. Os veterinários e as companhias de seguro consideram-nos animais de estimação exóticos, pelo que o cuidado médico pode ser mais caro do que o de um cão ou de um gato. Os coelhos precisam de fazer muito exercício e não deverão ficar apenas presos numa gaiola. Isto significa que têm de aprender a usar uma caixa de areia (sim, é possível ensinar os coelhos a usá-la), o que requer paciência, tal como acontece com os gatos. Além disso são presas e nós, na verdade, somos predadores. Não gostam que os humanos peguem neles ao colo; preferem manter o controlo, com os pés assentes no chão.

“É preciso ser paciente para fazer amizade com estes animais silenciosos e subtis”, diz Margo DeMello, presidente da House Rabbit Society.

A complexidade dos coelhos faz com que muitas vezes tenham um destino cruel quando são comprados por mero capricho. Aparentemente fofos e amorosos, quando os coelhos se tornam adultos, o que acontece entre os três e os seis meses, podem tornar-se agressivos e até destrutivos. O exercício adequado, a preparação para usarem a caixa de areia e a esterilização ou castração contêm o problema para a maioria dos coelhos. Mas muitos novos donos partem do princípio de que os comportamentos indesejáveis são um sinal de que o coelho tem problemas e desfazem-se dele. Outros fazem algumas pesquisas e ficam de pé atrás devido ao tempo e ao dinheiro que é preciso gastar para mudar o comportamento do coelho. McGee diz-nos que é frequente deparar-se com a estupefação e a frustração de pais: “O quê? Tenho de gastar 200 dólares para tratar um coelho que custou 30?”

ABANDONOS: UM PROBLEMA O ANO INTEIRO

Não se sabe ao certo quantos coelhos são abandonados nos EUA — e quantos são coelhos da Páscoa. Não existe uma organização central de recolha de dados, diz DeMello. A maioria dos centros de acolhimento regista quantos cães e gatos são encontrados, adotados ou eutanasiados, mas é habitual juntarem coelhos, aves, répteis e pequenos mamíferos na categoria “outros”.

Mas todos os resgatadores de centros de acolhimento locais, desde a Baía da Califórnia até à Georgia rural passando pelo suburbano Connecticut, dizem à National Geographic que, embora subam em flecha nas semanas e meses depois da Páscoa, os abandonos são um problema todo o ano.

De acordo com Martin, cerca de dois terços dos coelhos resgatados no Norte da Califórnia foram largados e deixados à sua sorte. Em algumas cidades, como Las Vegas e Spokane, no estado de Washington, os parques públicos e os terrenos baldios tornaram-se locais de descarga inundados com centenas de coelhos não tratados e não desejados. As pessoas abandonam muitos coelhos ao ar livre, provavelmente sem saberem que lhes estão a assinar a sentença de morte. Os coelhos domésticos não têm os instintos de sobrevivência dos seus primos selvagens, diz-nos Martin, e não são capazes de combater infeções, construir refúgios seguros ou adaptar-se ao calor ou ao frio.

Os centros de acolhimento têm dificuldade em acompanhar o ritmo dos abandonos. A House Rabbit Society da Georgia recebe mais de 500 pedidos por ano de donos que pretendem desfazer-se dos seus coelhos – muito mais do que os recursos que têm lhes permitem salvar. Edie Sayeg, resgatador do grupo, acredita que milhares de coelhos são simplesmente largados ao ar livre na Georgia.

Elizabeth Kunzelman, porta-voz da Petland, uma grande cadeia de lojas de animais de estimação que vende coelhos, diz que os meses da primavera são “a altura perfeita para uma criança começar a cuidar de um novo animal de estimação e aprender a ser responsável.” Mas DeMello acredita que esta perspetiva é problemática. “Na verdade, as crianças querem algo mais dócil e que reaja de maneira mais evidente e, muitas vezes, ficam frustradas quando os coelhos não dão a resposta que esperam.” Houve outras lojas de animais de estimação, como a Petco e a Petsmart, que deixaram de vender coelhos há vários anos devido aos receios de abandono. Kunzelman afirma que a Petland tem uma política de devoluções para coelhos e outros animais.

Mas o problema não está apenas nas lojas de animais de estimação. Lojas agrícolas, Clubes 4-H, criadores amadores e utilizadores do Facebook ou da Craigslist de todo o país publicitam coelhos bebés antes da época de Páscoa. Suzanne Holtz, diretora da Bunnies United Network, instituição sediada no Illinois, afirma que estes vendedores podem ser ainda mais problemáticos do que as lojas de animais de estimação porque é frequente os coelhos virem envoltos numa “aura de salvação”. Na instituição que dirige recebe chamadas de pessoas que procuram entregar um coelho que “salvaram” na Craigslist, plataforma de venda online onde vender animais é terminantemente proibido.

É difícil dissuadir as pessoas de comprarem coelhos como prenda de Páscoa sem dissuadir putativos donos responsáveis também, diz Martin, porque para quem compreender como cuidá-los, os coelhos são ótimos animais de estimação.

Eu sei: eu própria tenho dois coelhos resgatados. O Roger, um Blanc de Hotot (uma raça francesa conhecida pelo contorno preto dos olhos, como se usasse eyeliner) que foi encontrado ao abandono numa pequena gaiola num parque. Resgatado pelo grupo Friends of Rabbits, da zona de Washington, D. C., é curioso, destemido e amoroso. A Penelope, uma angorá inglesa, foi encontrada na rua ainda bebé. Resgatada pela Washington Humane Society, estabeleceu laços com o Roger – são companheiros que cuidam um do outro e brincam em conjunto – e é teimosa e rabugenta. Foram ensinados a usar a caixa de areia, tem rédea solta no nosso apartamento e dão-nos, a mim e ao meu marido, alegrias todos os dias.

Natasha Daly é editora adjunta na National Geographic nas secções de bem-estar animal, crime contra animais selvagens e cultura.