Na Vida Real, a Mãe de Simba Seria a Líder do Grupo

Um especialista em leões explica as dinâmicas familiares destes animais.terça-feira, 16 de julho de 2019

Os grupos de leões são quase sempre constituídos na sua totalidade por fêmeas. São as leoas que capturam a maior parte da comida e protegem o território de intrusos – que geralmente são outras leoas que vivem nas proximidades e querem expandir os seus próprios territórios.

“As fêmeas são o núcleo. São a alma e o coração do grupo. Os machos vêm e vão”, diz Craig Packer, um dos principais investigadores de leões no mundo e diretor do Centro de Investigação de Leões na Universidade do Minnesota.

E a não ser que alguém seja um fã acérrimo do filme O Rei Leão, o mais provável é ninguém se lembrar do nome da mãe de Simba. Todos os leões machos têm papéis centrais e memoráveis no filme: Simba é a personagem principal e tem como destino tornar-se rei. Mufasa, seu pai, morre quando Scar, o tio de Simba, tenta tomar o trono. Mas e a mãe de Simba? Como é que se chamava mesmo?

O seu papel no filme é tão inconsequente que é fácil esquecermo-nos. O seu nome é Sarabi. Se na vida real Sarabi fosse a rainha de um grupo de leões, assumiria muito mais do que um papel secundário. Na verdade, os grupos de leões são sociedades matrilineares onde os machos não permanecem tempo suficiente para formar os tipos de relações familiares apresentados no filme da Disney – com uma versão completamente nova agora nos cinemas. (A Walt Disney Company é proprietária maioritária da National Geographic Partners.)

“São as fêmeas que definem o território. Cresceram lá e passaram a vida toda a ouvir os rugidos de outros animais”, diz Packer, bolseiro da National Geographic Society. E se o seu grupo ficar demasiado grande, as leoas conseguem conquistar novos territórios nas redondezas para as suas filhas começarem o seu próprio grupo. Nos grupos de leões, 99% dos membros são leoas com parentesco, diz Packer.

Os machos vêm e vão
Os machos, por outro lado, são transitórios. Eles vêm e vão, e perdem sobretudo o seu tempo a lutar entre si e a ensinar os filhotes machos a sobreviver, para o dia em que abandonarem o grupo. Os machos não podem ficar no grupo onde nasceram porque têm parentesco com todos os leões desse grupo.

“Vamos supor que Simba regressa a casa e o seu grande prémio por ser o herói do grupo é casar com Nala. Mas há um problema, Nala é sua irmã...”, diz Packer. “Se Simba regressasse a casa e se tornasse num macho residente, não só se envolveria com a sua irmã, como também teria relações com as tias, a mãe, a avó e primas. Ou seja, todas as fêmeas do grupo.”

Os leões abandonam sempre o seu grupo em busca de outro por uma questão de diversidade genética. "Simba teria partido para nunca mais regressar", diz.

Os leões raramente viajam sozinhos. Como a competição pelos grupos é muito feroz, todos os leões viajam com um ou mais machos para se protegerem mutuamente. Packer diz que os leões "precisam de um companheiro de armas para suportar os desafios de todos os outros machos que querem dominar a sua família e matar as suas crias". Packer também realça que a competição entre Mufasa e Scar não faria sentido no mundo real porque, sem a dependência mútua, o seu grupo seria tomado por outra coligação de leões.

Na realidade, a competição por um grupo é tão feroz que um conjunto de leões raramente consegue permanecer nesse núcleo mais de dois ou três anos (talvez um pouco mais, se forem quatro ou cinco leões). "A vida dos machos é rápida e furiosa. É uma existência circular onde se reproduzem e, ocasionalmente, acordam e capturam presas extremamente grandes, como búfalos ou girafas, embora isso não exija algum tipo de estratégia – simplesmente derrubam os animais. E também lutam contra outros machos até perderem a batalha e seguirem para outro grupo.”

Jubas de qualidade
Por outro lado, às fêmeas do grupo não faz muita diferença quais são os leões que têm por perto. Mas independentemente disso, as leoas têm formas de decidir os que lhes interessam mais. “Se não fosse pelas fêmeas, não existiam razões para os machos terem jubas. As fêmeas preferem os machos mais vistosos e com características claras de que as suas crias vão ser saudáveis e que sobrevivem.”

Packer também refere que, embora Scar, o vilão sem filhos do filme, tivesse uma juba negra, no mundo real seria Mufasa a ter uma juba negra – é o que as leoas preferem.

"Uma juba negra é um sinal de que somos geneticamente superiores", diz. As jubas negras são mais quentes e mais pesadas do que uma juba tradicional e, como os leões são muito musculados, são extremamente propensos ao sobreaquecimento. Uma juba negra indica uma "boa condição física, níveis mais altos de testosterona e probabilidades maiores de resistência a ferimentos", diz Packer. E também significa que esses leões têm capacidades genéticas para combater parasitas.

“Não existe um gene específico para as jubas negras. A cor da juba pode variar ao longo do tempo, e pode até cair por completo, consoante a saúde dos leões. A juba é um sinal de qualidade”, diz Packer.

Resumindo, praticamente tudo na existência de um grupo, incluindo a aparência dos machos, existe para servir as rainhas dos leões.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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