Dizer Palavrões Faz Bem - e os Chimpanzés Também o Fazem

Uma investigação recente revela que a profanidade tem muitas virtudes, que vão da promoção da confiança e do trabalho de equipa no escritório ao aumento da nossa tolerância à dor.

Publicado 8/02/2018, 18:38 WET, Atualizado 5/11/2020, 06:02 WET
Chimpanzés e linguagem gestual
Chimpanzés que aprenderam língua gestual também desenvolveram uma forma de praguejar.
Fotografia de Cyril Ruoso, Minden Pictures, National Geographic Creative

Os palavrões são habitualmente considerados linguagem simples e preguiçosa ou abuso e falta de civismo. Mas, como Emma Byrne mostra no livro Swearing Is Good for You: The Amazing Science of Bad Language, investigação recente revela que a profanidade tem muitas virtudes, que vão da promoção da confiança e do trabalho de equipa no escritório ao aumento da nossa tolerância à dor.

A National Geographic contactou Byrne na sua casa em Londres e a autora explicou a razão por que os humanos não são os únicos primatas capazes de praguejar e por que dizer palavrões continua a ser visto por muitos como algo "pouco feminino", embora atualmente as mulheres o façam mais.

Fotografia de Courtesy W.W. Norton Company

No seu livro, diz: "Tenho um certo orgulho na minha capacidade de usar palavrões expressivos na altura certa." Fale-nos sobre a sua relação com a linguagem imprópria e em que sentido nos faz bem?

A minha primeira memória de ser castigada por dizer palavrões foi por ter chamado twat (forma ofensiva de dizer que alguém é detestável no Reino Unido) ao meu irmão, que eu achava que era uma forma estranha de pronunciar a palavra twit (tonto).  Devia ter cerca de oito anos na altura; o meu irmão ainda estava no jardim de infância. A minha mãe ficou petrificada e depois deu-me uma bofetada perto da orelha. Aquilo fez-me perceber que algumas palavras tinham muito mais poder do que outras, e que uma simples troca de vogal era suficiente para mudar completamente o impacto emocional de uma palavra.

Sempre tive curiosidade em relação a coisas que me diziam que não deviam ter interesse para mim, razão por que acabei por fazer carreira no mundo da inteligência artificial, uma área predominantemente masculina. Tenho uma personalidade um tanto obstinada, o que significa que quando alguém diz "Não, isso não é para ti", não descanso até saber mais sobre o assunto.

A minha relação com os palavrões é, sem dúvida, um exemplo do que acabo de dizer. Tendo a usá-los como uma forma de me distinguir e ficar mais parecida com os meus colegas do sexo masculino; é como saber como funciona a regra de fora de jogo num jogo de futebol. É uma boa forma de me assegurar de que não sou vista como uma pessoa esquisita e estranha devido ao meu género.

Há um grande corpo de investigação com origem na Austrália e na Nova Zelândia, o que talvez não seja surpreendente, que diz que as ofensas jocosas, em particular o uso de palavrões entre amigos, é um forte sinal do nível de confiança entre eles. Quando olhamos para as transcrições dos estudos de caso de equipas eficientes em setores como a indústria transformadora e as TI, verificamos que os trabalhadores que são capazes de brincar uns com os outros de formas que vão além de um discurso polido, e inclui muitos palavrões, tendem a revelar que confiam mais uns nos outros.

Uma das razões para esta correlação está, provavelmente, relacionada com o facto de os palavrões terem um forte impacto emocional. É uma forma de demonstrarmos que desenvolvemos uma teoria mental sofisticada sobre a pessoa com a qual estamos a falar e que conseguimos perceber o limiar entre sermos suficientemente chocantes para a fazer rir ou reparar na linguagem que usamos e chegarmos ao ponto de a deixar verdadeiramente ofendida. É um equilíbrio difícil de alcançar. Usar os palavrões adequadas para aquela pessoa mostra até que ponto a conhecemos; e de que forma compreendemos o seu modelo mental.

O que a levou a escrever este livro foi um estudo levado a cabo pelo Dr. Richard Stephens. Fale-nos dessa experiência e da razão por que é importante para compreendermos o uso de palavrões.

Richard Stephens trabalha na Universidade de Keele nos Reino Unido. É um psicólogo comportamental que tem interesse e conhecer as razões por que fazemos as coisas que nos dizem que nos fazem mal. Os profissionais de medicina mantiveram durante muitos anos que dizer palavrões é muito prejudicial para nós se estivermos com dores. É o que chamam uma "resposta catastrofista", que se foca na parte negativa do que aconteceu. A abordagem de Stephens foi: se é tão inadequado, porque é que continuamos a fazê-lo?

Stephens contava inicialmente com 67 voluntários, embora tenha replicado a experiência várias vezes. Punha as mãos dos voluntários em água gelada, verificou aleatoriamente se estavam a usar palavrões ou palavras neutras e comparou o tempo que conseguiam ter as mãos em água gelada. Em média, quando estavam a dizer palavrões, conseguiam manter as mãos na água gelada durante mais 50 % do tempo que conseguiam quando usavam palavras neutras.  Isto mostra que os resultados foram tudo menos inadequados. Dizer palavrões ajuda-nos mesmo a suportar a dor mais tempo.

Os homens sempre praguejaram mais do que as mulheres? Se sim, porquê?

De maneira nenhuma! Os historiadores da língua inglesa mostram que as mulheres também eram elogiadas pelo domínio que demonstravam de insultos demasiado expressivos e de palavrões até 1673, altura em que foi publicado  um livro de Richard Allestree intitulado The Ladies Calling. Allestree diz que as mulheres que dizem palavrões estão a agir de uma forma biologicamente incompatível com a condição feminina e, como resultado, começarão a adquirir características masculinas: verão o pelo facial a crescer e serão inférteis. Allestree escreveu: "Não existe som mais detestável para os ouvidos de Deus do que um impropério saída da boca de uma mulher."

Infelizmente, hoje continuamos na mesma no que se refere aos palavrões ditos homens versus mulheres. Embora se pense que as mulheres praguejam menos do que os homens, nós sabemos, pelos estudos realizados, que não é verdade. As mulheres dizem tantos palavrões como os homens. Mas os inquéritos atitudinais mostram que tanto os homens como as mulheres tendem a julgar mais severamente as mulheres que dizem palavrões. E este facto pode ter implicações graves. Por exemplo, quando as mulheres com cancro da mama ou artrite dizem palavrões devido à sua doença, a probabilidade de perderem amigos, e sobretudo amigas, é maior. Por sua vez, os homens que dizem palavrões por causa de doenças como o cancro testicular tendem a criar laços mais fortes com outros que usam o mesmo vocabulário. A ideia de que praguejar é uma forma legítima de expressar uma emoção negativa é muito mais restrita para as mulheres.

Fiquei fascinado ao descobrir que não são só os humanos que praguejam — os primatas também o fazem! Fale-nos do Projeto Washoe.

Na natureza, os chimpanzés são utilizadores inveterados dos próprios excrementos para marcar território ou mostrar irritação. Por isso, a primeira coisa a fazer, quando queremos ensinar língua gestual a um primata, é ensiná-lo a usar um bacio. Isto significa que, tal como acontece com as crianças humanas da mesma idade, os excrementos se tornam um tabu para os chimpanzés. No Projeto Washoe, o sinal para "imundo" era tocar com os nós dos dedos na parte de baixo do queixo. E o que aconteceu de forma espontânea, sem que os cientistas os ensinassem, foi que os chimpanzés começaram a usar o sinal para "imundo" exatamente da mesma forma que nós usamos os nossos palavrões de cariz excrementício.

Washoe era um chimpanzé fêmea que foi originalmente adotado por R. Allen Gardner e Beatrix T. Gardner nos anos 1960. Mais tarde, foi adotado por um investigador do estado de Washington chamado Roger Fouts. Washoe era a matriarca de três chimpanzés mais jovens: Loulis, Tatu e Dar.  Quando levaram o Loulis, que era o mais novo, os humanos já tinha deixado de lhes ensinar língua gestual, pelo que decidiram verificar se os chimpanzés iriam transmitir a língua de geração em geração, o que veio a acontecer.

E não só: assim que interiorizaram o tabu da latrina, em que o sinal de "imundo" indicava algo indecoroso, começaram a usar o sinal como uma advertência ou para expressar fúria, como se de um palavrão se tratasse. Quando Washoe e outros chimpanzés estavam muito zangados, costumavam bater com os nós dos dedos na parte de baixo do queixo, e era possível ouvir o barulho do bater de dentes dos chimpanzés.

Washoe e outros chimpanzés faziam sinais como " Roger imundo!" ou "Macaco imundo!" quando estavam irritados. E nada disto tinha sido ensinado pelos humanos! O que aconteceu foi que interiorizaram o tabu e tinham um sinal que associavam ao tabu, pelo que, de repente, aquela linguagem se tornou incrivelmente poderosa e passou a ser usada da mesma forma como os próprios dejetos são usados na selva pelos chimpanzés.

Diz que, "os palavrões são um indicador — um canário sem tento na língua numa mina de carvão — que nos diz quais são os nosso tabus sociais." Traduza-nos esta ideia e diga-nos de que forma se alterou ao longo do tempo.

O exemplo que a maioria das pessoas conhecerá nos países de língua inglesa é a blasfémia. Continua a haver locais nos EUA que são mais tementes do Cristianismo do que outros, mas, em geral, o tipo de linguagem que seria censurado noutros tempos é agora usado livremente na imprensa e na televisão. No entanto, a palavra nigger (negro), que chegou a ser usada no título de um livro de Agatha Christie e até em cantigas infantis, é uma palavra tabu atualmente, uma vez que existe uma maior consciência de que fere porque faz lembrar o que os afro-americanos sofreram com o racismo ao longo dos séculos. Em algumas comunidades, onde o uso desta palavra é reivindicado, dizem que, se a usarem, ficam imunes aos efeitos negativos que comporta.

É um exemplo de uma palavra que deixou de ser usada nas conversas do dia a dia e na literatura e que caiu no domínio do indizível. É muito diferente de palavrões de cariz sexual ou excrementício pelo facto de criar tanta discórdia. O que os palavrões de cariz sexual ou excrementício têm de bom é que são comuns a toda a raça humana.

No mundo digital, é possível dirigir impropérios a alguém que não vemos à nossa frente. Será algo que está a mudar a forma como dizemos palavrões? E como serão os palavrões do mundo no futuro?

Uma das dificuldades do uso de palavrões no discurso online reside no facto de não haver o impacto do frente a frente, o que permite que as pessoas lancem ataques sem verem a pessoa com que estão a falar como um humano de direito próprio. Mas o problema não está nos palavrões. É possível dizer que alguém vale menos como ser humano devido à sua raça, género, ou sexualidade usando a mais polida das linguagens. Por exemplo, quando Donald Trump disse que Hillary Clinton era “uma mulher perversa” sem usar um termo mais grosseiro, a maior parte das pessoas que o ouviram perceberam o que queria dizer. Sabíamos onde queria chegar, mas como não tinha usado palavrões, o discurso foi considerado aceitável.

Penso que, é inevitável que o uso de palavrões seja reinventado no futuro: temos assistido a tantas mudanças ao longo dos anos.  À medida que os nossos tabus mudam, o tipo de linguagem que tem a capacidade de surpreender, chocar ou espantar a parte emocional do cérebro também irá mudar. Mas não consigo prever a direção dos tabus.

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