A Primeira Prova De Que Os Mosquitos Podem Ser Treinados

Os mosquitos transportadores de doenças podem aprender a associar experiências de proximidade da morte com determinados cheiros e aprendem a manter-se afastados depois de uma investida.

Wednesday, March 28, 2018,
Por Michelle Z. Donahue
Um mosquito degusta uma refeição de sangue.
Um mosquito degusta uma refeição de sangue.
Fotografia de Joel Sartore, National Geographic

A próxima vez que vir um mosquito no seu braço a preparar-se para dar beber um trago, tente atingi-lo. Mesmo que falhe, existe uma boa hipótese de que a peste não volte a tentar morder-lhe.

Parece que, ao tentarmos atingir um mosquito que se prepara para morder, o inseto aprende a associar a experiência quase mortal com o seu cheiro pessoal e a evitá-lo no futuro. O estudo, lançado esta semana na Current Biology, marca a primeira vez que alguém mostrou que os mosquitos são capazes de aprender e de se lembrar.

“São essencialmente mosquitos Pavlovianos”, afirma o neuroecologista da Universidade de Washington Jeff Riffell, referenciando a afamada experiência que condicionou o comportamento dos cães que salivavam a pedido. Um pouco como a tradição canina científica, Riffell utilizou o condicionamento clássico para testar se os seus sujeitos insetos conseguiam aprender a associar estímulos negativos a um cheiro.

Os mosquitos são atraídos por certos odores exalados por alvos apetitosos, incluindo os humanos. Envolvidos por um cheiro humano altamente atrativo, os mosquitos Aedes aegypti foram expostos a uma sessão de 20 minutos de vibrações, que perturbariam as picadelas, com uma intensidade semelhante às reverberações que percorrem o braço depois de um estalo.

A equipa de Riffell concluiu que estes mosquitos continuavam a evitar aquele odor durante mais de 24 horas — um efeito tão poderoso como uma aplicação de spray repelente comum, feito com DEET (dietiltoluamida).

Riffel e a sua equipa testaram o efeito novamente, mas desta vez em mosquitos cujas vias dopaminérgicas tenham sido desativadas porque as associações aprendidas estão ligadas a essa substância química. Esse grupo de insetos não foi capaz de aprender que determinado cheiro significava perigo, e voltaram a investir.

“Essa capacidade de aprendizagem torna-os incrivelmente flexíveis”, afirma Riffell. “Significa que podem aprender associações acerca de quem é mais defensivo e quem não é, e se conseguirmos evitar isso, os mosquitos nunca aprenderão e podemos enxotá-los de forma mais eficaz.”

Combater as Picadas

Aedes aegypti é a espécie de mosquito conhecida por transportar a febre amarela e é um vector para várias outras doenças humanas sérias, incluindo a dengue, a febre chicungunha e o vírus Zika. A descoberta com base na dopamina abre novas avenidas para a pesquisa sobre o desenvolvimento de inseticidas ou repelentes.

Os cientistas testaram mosquitos no laboratório para ver como reagiam a odores depois de terem sido expostos a vibrações semelhantes a golpes.
Fotografia de Kiley Riffell

“As memórias são algo importante, e estava completamente fora da equação na investigação com os mosquitos”, explica Walter Leal, um ecologista químico da Universidade de Califórnia Davis, que também estuda interações entre mosquitos e humanos.

“Agora que sabemos que determinados compostos espoletam esta recordação de evasão, poderíamos utilizar uma fórmula que inclua não só um repelente ativo, como o DEET, como também algum composto que acione essa memória de evasão”, diz Leal.

“Temos utilizado todos estes repelentes com apenas um composto, como o DEET, durante os últimos 60 anos, e agora precisamos de avançar.”

Mas a espécie de mosquito em questão pode apenas ser capaz de aprender associações com substâncias químicas que estejam ligadas à espécie do seu hospedeiro. Os mosquitos que transmitem a febre do Nilo Ocidental, por exemplo, alimentam-se principalmente de aves mas irão trocá-los pelos humanos quando a sua refeição preferencial estiver indisponível. Até agora, afirma Riffell, não demonstraram nenhuma propensão para aprender a evitar humanos da mesma forma que os A. Aegypti evitam.

“Não conseguimos fazer com que aprendam, o que quer dizer que se passa alguma coisa com eles”, nota Riffell.

Não é assim muito surpreendente, afirma Leal: “ Tal como acontece com as pessoas, existem muitas coisas que não conseguimos cheirar, e imensas que ignoramos. Os mosquitos também não têm recetores para tudo.”

Os cientistas precisarão de continuar a investigar o papel da aprendizagem e do cheiro no comportamento dos mosquitos antes de desenvolverem novos repelentes. Entretanto, Riffell aconselha toda a gente a manter-se em movimento: “ Se estiverem num churrasco no exterior a enxotar mosquitos, eles aprenderão que consigo não. Dance, seja ativo! E os mosquitos irão picar outra pessoa.”

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