Eis o que Aconteceu no Dia em que os Dinossauros Morreram

Graças a uma ferramenta capaz de calcular impactos, os cientistas podem agora pintar um cenário realista do momento em que o asteroide que provocou a extinção dos dinossauros colidiu com a Terra. terça-feira, 26 de junho de 2018

Há 66 milhões de anos, um asteroide colidiu com a região que corresponde atualmente ao leste do México e provocou a extinção dos dinossauros.
Há 66 milhões de anos, um asteroide colidiu com a região que corresponde atualmente ao leste do México e provocou a extinção dos dinossauros.
fotografia de TIm Peake, ESA, NASA

Imagine aurora do último dia do Mesozoico, há 66 milhões de anos. Os raios de sol perfuram os pântanos e as floresta coníferas ao longo da linha costeira onde se situa atualmente a península mexicana do Iucatão. Nos mares quentes como sangue do Golfo do México a vida selvagem prospera.

À medida que este mundo perdido de dinossauros, insetos enormes, guinchos e zumbidos acorda para mais um dia, um asteroide do tamanho de uma montanha está em rota de colisão com a Terra a uma velocidade de cerca de 64 000 quilómetros por hora.

Por breves instantes, uma bola de fogo surge nos céus, aparentemente maior e mais brilhante que o próprio Sol. Logo de seguida, o colossal asteroide despenha-se no nosso planeta, provocando uma explosão, calcula-se, maior que a de 100 milhões de biliões de toneladas de TNT.

O impacto do asteroide penetra a crosta terrestre até vários quilómetros de profundidade, abrindo uma cratera com mais 185 quilómetros de diâmetro e reduzindo a poeira e gases milhares de quilómetros cúbicos de rochas. Assim, o evento desencadeia uma série de catástrofes por todo o globo, responsáveis pela extinção de 80% da vida na Terra — incluindo a da maioria dos dinossauros

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Depois ser apresentada e de se ter difundido, em 1980, a teoria que responsabiliza o impacto deste gigantesco asteroide por ter despoletado a apocalítica sucessão de eventos que conduziu à extinção dos dinossauros foi revisitada inúmeras vezes em livros e revistas. A identificação da cratera de Chicxulub, no Golfo do México, nos anos 90, deu aos cientistas uma ideia clara do “quando” e do “como” as coisas sucederam.

Como é que a sucessão de eventos que se seguiu, nomeadamente a chuva altamente tóxica, matou uma percentagem tão elevada da vida Terrestre permanece um mistério.

Um fragmento do asteroide cuja queda originou a cratera de Chicxulub.
Um fragmento do asteroide cuja queda originou a cratera de Chicxulub.
fotografia de Faith Tucker, NASA

No mês passado, uma equipa de cientistas britânicos que trabalhava numa plataforma de perfuração no Golfo do México recolheu as primeiras amostras do peak ring da cratera de Chicxulub, o ponto onde a terra reagiu ao impacto nos segundos que se lhe seguiram, tendo-se desenhado uma formação anelar dentro das paredes da própria cratera. Estudando as amostras, e estranha morfologia do local, os investigadores esperam compreender melhor os fenómenos titânicos que ocorreram naquele dia.

REVIVER A CATÁSTROFE

Até agora, tudo o que os cientistas já foram capazes de apurar desafiaria a imaginação até dos argumentistas de Hollywood. Utilizando um “calculador de impactos” desenvolvido por uma equipa de geofísicos das Purdue University e Imperial College London, o utilizador pode inserir alguns dados, como o tamanho e a velocidade a que se desloca um asteroide, e obter uma imagem vívida dos eventos que este poderia desencadear ao colidir com a Terra.

“Podemos programar diferentes distâncias do ponto de impacto para ver como estas influenciam os efeitos causados”, explica-nos Joanna Morgan, uma das principais cientistas afetas a este projeto de estudo da cratera de Chicxulub. “Se estivéssemos por perto, isto é, num raio de 1000 quilómetros, teríamos sido mortos instantaneamente ou numa questão de segundos por uma bola de fogo.”

Cientistas usam uma broca para estudar a cratera de Chicxulub.
Cientistas usam uma broca para estudar a cratera de Chicxulub.
fotografia de Dave Smith, International Ocean Discovery Program

Não há dúvida que se alguém estivesse suficientemente perto para ter visto o impacto, esse alguém teria morrido, afirma Gareth Collins, um docente da Imperial College que ajudou a desenvolver o programa que permite calcular o impacto de asteroides.

Nove segundos após o impacto, quem observasse o fenómeno a uma distância aparentemente segura seria rapidamente assado por uma onda de radiação térmica. Árvores, erva, e arbustos ter-se-ão incendiado espontaneamente, e quem quer que estivesse por perto teria sofrido instantaneamente queimaduras de terceiro grau em todo o corpo.

Depois do fogo, veio uma desmesurada inundação. Dependendo da topografia local, o impacto pode ter causado um tsunami com cerca de 305 metros de altura. E se as estimativas mais modestas apontam para 10.1 na escala de Richter, o tremor de terra que se seguiu foi certamente mais poderoso do que qualquer coisa alguma vez medida ou experienciada por humanos.

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“Um evento sísmico desta natureza seria semelhante a algo como todos os tremores de terra dos últimos 160 anos a acontecerem em simultâneo”, afirma Rick Aster, professor de sismologia na Colorado State University e ex-presidente da Seismological Society of America.

Aos oito minutos, as partículas de ejecta começaram a assentar e a atenuar as chamas que haviam tomado conta da paisagem debaixo de um manto de cinza e detritos incandescentes. Junto à zona de impacto, o chão estava coberto por centenas, talvez milhares, de metros de destroços.

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Cerca de 45 minutos depois do impacto, uma fortíssima rajada de vento terá varrido a região a 965 quilómetros por hora, espalhando os detritos e tudo o que ainda pudesse permanecer de pé. Por esta altura chegaria também o som da explosão com uma intensidade de 105 decibéis, tão ensurdecedor como um avião a jato a fazer uma aproximação ao solo.

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Rochas trazidas por cientistas da cratera de Chicxulub.
Rochas trazidas por cientistas da cratera de Chicxulub.
fotografia de Dave Smith, International Ocean Discovery Program

Mais longe, fora do alcance dos efeitos diretos da explosão, um espetador estaria perante uma paisagem composta pelo céu negro e um espetáculo de estrelas cadentes proporcionado pelos detritos incandescentes que, tendo sido projetados pelos céus, regressavam agora à Terra.

“Não deverá ter sido exatamente como uma típica chuva de estrelas ou meteoros”, explica-nos Collins. “Os meteoros ardem a velocidades mais elevadas, atingindo também temperaturas mais altas. Estes detritos terão entrado novamente na atmosfera terrestre a altitudes mais baixas, viajando a velocidades inferiores e emitindo radiação infravermelha. Não sei ao certo ao que se possa ter assemelhado, mas a minha consistiria numa incandescência em tons de vermelho.”

Depois do brilho vermelho, o céu terá escurecido enquanto as cinzas e os detritos esvoaçavam pelo globo, pintando o fim do dia em tons funestos.

“Ao longo das primeiras horas, o ambiente esteve perto da escuridão total”, afirma Collins. “Mas pouco depois, o céu começaria a ficar descoberto. Nas semanas seguintes, quiçá meses, ou talvez até anos, a terra esteve mergulhada num crepúsculo perpétuo, como num dia extremamente nebulado.”

Pessoas observam Tristan, o Tyrannosaurus rex, em Berlim. Tristan foi encontrado no estado do Montana e é um dos esqueletos de dinossauros mais bem preservados alguma vez encontrados.
Pessoas observam Tristan, o Tyrannosaurus rex, em Berlim. Tristan foi encontrado no estado do Montana e é um dos esqueletos de dinossauros mais bem preservados alguma vez encontrados.
fotografia de Axel Schmidt, Getty Images

O FIM DE UMA ERA

Enquanto que a maioria dos relatos se concentram no período compreendido entre os primeiros minutos após o impacto e apenas alguns dias mais tarde, este episódio teve efeitos a longo prazo no ambiente do planeta que acabariam por levar à extinção da maioria dos dinossauros bem como da maioria das formas de vida na Terra.

A escassez de luz provocada pelas nuvens de poeira sugere que a capacidade de fotossíntese por parte das planta tenha ficado extremamente limitada. Crê-se que foram necessários vários meses até que a fuligem e as cinzas tenham desaparecido da atmosfera, e quando isso aconteceu as chuvas deverão ter sido extremamente ácidas. Incêndios de proporções inimagináveis libertaram toxinas que terão danificado temporariamente a camada do ozono.

Depois, há que considerar a pegada de carbono deixada pelo impacto do asteroide, que terá libertado subitamente cerca de 10 000 mil milhões de toneladas de dióxido de carbono, 100 mil milhões de toneladas de monóxido de carbono, e 100 mil milhões de metano, de acordo com o geólogo David Kring do Lunar and Planetary Institute.

Com efeito, as consequências da colisão constituíram uma espécie de inverno nuclear seguido de um dramático aumento da temperatura de todo o globo. É aqui que as amostras recolhidas recentemente na cratera de Chicxulub podem ajudar a preencher as lacunas na compreensão deste mítico fenómeno.

“O projeto de perfuração vai ajudar-nos a perceber como tudo o que sucedeu afetou o clima após o impacto — as quantidades de matéria que foram expelidas para a estratosfera e de que tipo de substâncias é que se tratam”, afirma Morgan.

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