Ciência

Não, a Gripe Canina Não Será a Próxima Pandemia Humana!

Um estudo sobre uma nova estirpe de gripe canina gerou alarme no início deste mês. Saiba por que algumas afirmações sobre uma possível pandemia humana devem fazê-lo parar para refletir.segunda-feira, 25 de junho de 2018

Por Theresa Machemer
O técnico veterinário Justin Jones tenta distrair um cão, enquanto se prepara para lhe injetar a vacina contra a gripe canina, no Hospital Veterinário de Los Gatos, no dia 25 de janeiro de 2018, na Califórnia.

Algumas pessoas dizem que a próxima pandemia gripal terá origem no melhor amigo do homem: os cães.

No dia 5 de junho, os investigadores revelaram que foi identificada uma nova estirpe de vírus de gripe canina, o H1N1, em cães do sul da China. Se o H1N1 lhe traz más memórias, talvez seja pela pandemia de gripe suína que teve a mesma designação em 2009. O Centro para o Controlo e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos estima que a gripe suína tenha afetado mais de 60 milhões de pessoas nos Estados Unidos e matado mais de 12 000.

Por isso se o Snoopy anda fungão, é preciso pô-lo de quarentena? Saiba mais sobre a gripe canina.

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O QUE É A GRIPE CANINA?

O vírus influenza canino é uma estirpe viral de gripe que infeta os cães e é um fenómeno relativamente recente. Ao contrário dos casos de gripe nos humanos, que têm sido descritos ao longo de milhares de anos, a gripe canina apareceu há menos de 20 anos.

Em 2004, um galgo, que integrou uma competição canina no Texas, acusou positivo para o H3N8, uma estirpe de influenza que apenas tinha sido identificada em cavalos. A pista também tinha sido usada para corridas de cães, e acredita-se que o vírus tenha infetado um cavalo, sofrido uma mutação e tenha sido transmitido entre espécies. Outro surto de gripe canina, o H3N2, apareceu em Chicago em 2015, após o vírus ter sido transmitido de aves para cães. Atualmente, esta estirpe está a propagar-se entre as populações caninas em Nova Iorque.

Um cão infetado pode ter corrimento nasal, perder o apetite, revelar letargia e ter febre. Basicamente, os mesmos sintomas que uma pessoa com gripe.

EXISTE RISCO DE CONTÁGIO ENTRE PESSOAS E CÃES?

Seria um caso inédito, e apesar dos resultados do novo estudo, é pouco provável que tal ocorra num futuro imediato. As partículas à superfície do vírus são como chaves que combinam com fechaduras distintas nas células dos animais. O vírus influenza canino tem a chave para infetar cães e, tendo em conta que o vírus apenas causa uma infeção quando acede ao interior de uma célula, seria necessário que a chave sofresse uma mutação significativa para infetar um humano.

Basta perguntar ao Centro para o Controlo e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos. Em 2016, esta entidade usou uma ferramenta de avaliação de risco do vírus influenza para avaliar a gripe canina, em função de características como o anfitrião preferido, a suscetibilidade a drogas antivirais, a gravidade da doença e a probabilidade de transmissão entre humanos, e concluiu que o risco de uma eventual pandemia é baixo.

MAS E O NOVO ESTUDO? NÃO FALA EM PANDEMIA?

O estudo publicado no início de junho identificou uma nova estirpe de gripe canina, que está relacionada com a gripe suína de 2009, a qual evoluiu para uma pandemia do vírus H1N1.

Tal como um ser humano tem 23 pares de cromossomas, um vírus da gripe tem oito fragmentos genéticos. Os vírus podem misturar-se e combinar os respetivos genes com outras estirpes, criando novas variedades que podem transmitir-se de suínos para pessoas, como aconteceu em 2009. Este cruzamento acontece frequentemente, porque as fechaduras das células humanas são idênticas às fechaduras das células suínas. A transmissão de suínos para caninos foi, contudo, inesperada, porque as fechaduras de ambos são muito diferentes.

Mas apenas três dos fragmentos genéticos da nova gripe canina procedem da estirpe do H1N1 de 2009, e os autores do estudo realçam que certos fatores próprios daquela região da China, incluindo a presença generalizada de cães selvagens e os mercados de carne de cão, aumentam os riscos de transmissão da gripe de cães para humanos.

O estudo não é um apelo urgente à ação. Os veterinários recolheram amostras que continham o vírus H1N1 entre 2013 e 2015, e, até ao momento, a gripe canina transmitiu-se de cães para gatos. Ainda assim, os autores recomendam maior vigilância sobre a doença.

Segundo o seu website, o Centro para o Controlo e Prevenção de Doenças norte-americano mantém durante o ano uma vigilância sobre o vírus influenza nos animais, e a agência para a saúde do Departamento de Agricultura do Estados Unidos mantém ativos os respetivos protocolos para responder em tempo útil, “caso o vírus influenza canino se torne numa ameaça ao ser humano.”

O QUE FAZER SE O SEU CÃO ESTIVER INFETADO COM O VÍRUS INFLUENZA?

Estão disponíveis no mercado vacinas contra a gripe canina, e, se o seu Faísca tem tosse, deve telefonar ao veterinário e marcar uma consulta. No entretanto, mantenha o seu cão afastado de outros animais, que podem apanhar o que quer que o seu cão tenha. No consultório do veterinário, há testes que permitem diagnosticar a gripe canina.

Uma vez confirmado o diagnóstico de gripe, o tratamento é simples e indolor. O animal deve manter-se em repouso e muito hidratado durante o período de duração de doença, que pode ir até um mês. E, como não o vai contagiar, pode dar-lhe muito colo!

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