Ciência

Estes “Nómadas dos Mares” São os Primeiros Humanos Geneticamente Adaptados ao Mergulho

Ao longo de várias centenas de anos, os Bajau têm vivido no mar, e a seleção natural pode explicar o porquê de serem tão bons mergulhadores. terça-feira, 26 de junho de 2018

Por Sarah Gibbens
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Se sustermos a respiração e mergulharmos a cabeça debaixo de água, o nosso corpo responde automaticamente com aquilo que se chama um reflexo de imersão. O nosso batimento cardíaco abranda, os vasos sanguíneos e o baço contraem-se, reações que nos ajudam a poupar energia quando somos privados de oxigénio.

A maioria das pessoas consegue aguentar alguns segundos debaixo de água sem respirar, chegando algumas a aguentar uns poucos minutos. Contudo, existe um povo, os Bajau, que leva o mergulho em apneia ao extremo, com alguns dos seus elementos a aguentarem cerca 13 minutos sem respirar a profundidades que chegam aos 60 metros. Este povo nómada vive nas águas das Filipinas, da Malásia e da Indonésia, onde vivem da caça submarina e da recolha de elementos naturais que usam mais tarde para criar objetos artesanais.

Agora, um estudo publicado na revista Cell desvenda as primeiras pistas no que se prende com uma mutação no ADN que leva a que os Bajau tenham baços maiores, o que lhes dá uma grande vantagem ao nadarem pelas profundezas.

O SEGREDO ESTÁ NO BAÇO

De todos os órgãos presentes no corpo humano, o baço está longe de ser um dos mais populares. Tecnicamente, até conseguimos viver sem este órgão que dá apoio ao sistema imunitário e recicla glóbulos vermelhos.

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Em estudos anteriores, verificou-se que as focas, bem como outros mamíferos marinhos, apresentam baços desproporcionalmente grandes. A autora deste estudo, Melissa Llardo, do Center for Geogenetics da Universidade de Copenhaga, quis verificar se se passava o mesmo com os humanos. Durante uma viagem à Tailândia, ouviu falar deste povo nómada que vive nos mares e ficou impressionada com as suas capacidades quase míticas.

“Antes de mais, quis conhecer a comunidade. Não queria simplesmente aparecer lá com todo o equipamento científico e depois vir-me embora”, explica-nos a respeito das suas primeiras deslocações à Indonésia. “Aquando da minha segunda visita, levei comigo equipamento portátil para fazer ecografias e um kit de colheitas de cuspo. Andámos de casa em casa a recolher amostras de cuspo e imagens de baços.

“Era comum eu ter uma audiência,” acrescenta Melissa Llardo. “Eles estavam muito surpreendidos por eu ter ouvido falar deles e os querer conhecer.”

Llardo também recolheu dados de um povo próximo, os Saluan, que vivem na região continental da Indonésia. De volta a Copenhaga, comparando as amostras que recolheu Llardo recolheu, a sua equipa concluiu que, em média, o baço dos Bajau é 50% maior que o dos Saluan.

“Sabíamos que se tivesse ocorrido algo a nível genético, deveríamos conseguir observar baços com determinadas dimensões. Foi então que identificámos diferenças muito significativas”, afirma Melissa Llardo.

Além disto, os investigadores encontraram um gene chamado PDE10A, — que se acredita que seja responsável por controlar uma hormona relacionada com a tiroide —, nos Bajau e não nos Saluan. Nos ratos, esta hormona foi relacionada com baço, e os indivíduos que foram manipulados para terem esta hormonas em quantidades mais reduzidas apresentam baços de dimensões inferiores.

Llardo coloca a hipótese de que, com a passagem do tempo, a seleção natural ajudou os Bajau, que vivem nesta região há milhares de anos, a desenvolverem-se geneticamente de acordo com as necessidades do seu estilo de vida.

SOB PRESSÃO 

Apesar do desenvolvimento do baço explicar, em parte, o porquê dos Bajau serem tão bons mergulhadores, identificaram-se outras mutações que os ajudam, afirma Richard Moon, da Duke University School of Medicine. Moon estuda a forma como o corpo humano responde a cenários de elevada altitude ou a profundidades extremas.

À medida que os humanos mergulham a profundidades cada vez maiores, aumenta a pressão nos vasos sanguíneos dos pulmões para que estes possam receber mais sangue. Em casos extremos, estes vasos podem mesmo romper-se e provocar a morte. Para além das adaptações genéticas, o treino físico regular pode ajudar a prevenir situações dessas.

“As paredes dos pulmões podem tornar-se mais complacentes, sendo possível que desenvolvam uma certa elasticidade à medida que a pessoa vai treinando. Esta hipótese inclui o desenvolvimento do diafragma e uns abdominais mais flexíveis. Não sabemos ao certo se estas coisas ocorrem. O baço consegue contrair-se (até certo ponto), mas não podemos afirmar, com toda a certeza, que existe uma ligação direta entre a tiroide e o baço. Pode haver, contudo.”

Cynthia Beall é uma antropóloga da Case Western Reserve University que estuda comunidades que vivem em zonas de elevada altitude, incluindo os tibetanos, conhecidos por viverem “nos telhados do mundo.” Beall crê que o estudo conduzido por Llardo e a sua equipa é um ponto de partida para excelentes oportunidades de se fazer investigação, mas, todavia, é necessário encontrar mais evidências do ponto de vista biológico antes de se poder considerar convencida de que há, efetivamente, traços genéticos a contribuírem para que os Bajau sejam mergulhadores exímios.

“Pode-se fazer outro tipo de medições no baço. Por exemplo, medir a força das suas contrações”, afirma Beall.

O QUE PODEMOS APRENDER COM O MAR?

Além de nos dar algumas pistas a respeito do porquê dos Bajau serem tão bons mergulhadores, estas descoberta tem implicações médicas.

O reflexos de imersão assemelham-se a uma patologia conhecia como hipóxia, na qual os humanos passam por uma repentina redução dos níveis de oxigénio. É uma causa de morte comum nos hospitais. O estudo dos Bajau assume assim uma grande importância e um papel fundamental para uma melhor compreensão da hipóxia.

Contudo, esta comunidade nómada que vive do mar encontra-se cada vez mais ameaçada. Os Bajau são marginalizados e não usufruem dos mesmo direitos de cidadania dos seus vizinhos continentais. Outro fator que tem dificultado a subsistência desta comunidade, contribuindo para a escassez de alimento, é a pesca industrializada. Por este motivo, muitos optam por virar as costas ao mar.

Se não forem desenvolvidos esforços no sentido de preservar o estilo de vida dos Bajau, Llardo teme que tudo o que podemos aprender sobre o corpo humano com estes nómadas não continuará a estar disponível durante muito mais tempo.

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