Há 5300 Anos, Ötzi, o Homem do Gelo, Morreu, e Sabe-se Hoje Qual Foi a Sua Última Refeição

Foram precisos 20 anos para encontrar o estômago de Ötzi. Hoje, os investigadores sabem, ao detalhe, o que estava no seu interior.segunda-feira, 23 de julho de 2018

Por Maya Wei-Haas
Investigadores recolhem amostras do conteúdo estomacal de Ötzi, o homem do gelo, para identificar, com rigor, as espécies de plantas e animais que constituíram a sua última refeição.

O estômago de Ötzi, o homem do gelo, não estava onde era suposto estar. O órgão deslocado fintou os investigadores durante aproximadamente 20 anos. Mas, em 2009, ao examinar novas radiografias, os investigadores encontraram-no por fim, inexplicavelmente alojado por baixo das costelas, onde se situa habitualmente a parte inferior dos pulmões. E mais, o saco estomacal estava completamente cheio.

Desde 1991, quando um grupo de caminhantes tropeçou no corpo de um caçador, com 5300 anos, na região alpina italiana de Venoste, em alemão Ötztal, que os investigadores analisam minuciosamente o corpo congelado e encarquilhado de Ötzi, à procura de indícios sobre a vida no passado e a sua morte violenta. Estudaram a capa de pele de ovelha e as calças de pele de cabra que tinha vestidas, examinaram as cáries dos dentes, fixaram-se na protuberância num dedo do pé, provavelmente uma queimadura provocada pelo frio, debruçaram-se sobre a presença de ovos de parasitas nos intestinos e catalogaram todas as tatuagens na pele.

E agora, depois de uma bateria de testes ao conteúdo do estômago, os investigadores determinaram a última refeição da múmia do gelo: carne seca e gordura de cabra-montês, veado vermelho, trigo espelta e vestígios de um feto tóxico. Os resultados, publicados esta semana na revista Current Biology, oferecem uma visão detalhada da dieta alimentar do período do neolítico e algumas pistas sobre as formas de preparação dos alimentos.

O ESTÔMAGO PERDIDO

No final dos anos 90, sem vestígio do estômago de Ötzi, os investigadores analisaram os isótopos de nitrogénio do cabelo da múmia à procura de indícios da dieta alimentar, que sugeriram que o homem do gelo seria vegetariano. Mais tarde, análises ao conteúdo do cólon denunciaram os hábitos carnívoros de Ötzi, revelando que ele tinha comido não só cereais, mas também carne de veado e cabra no dia anterior à morte.

Mas, neste último estudo, os cientistas tencionam identificar, com rigor, as espécies que constituíram a última refeição do homem do gelo. E para tal, foi preciso recolher amostras do seu estômago.

Os investigadores localizaram o órgão através da análise das pedras na vesícula de Ötzi, que se formam na vesícula biliar, um pequeno saco que se situa abaixo do fígado, perto do estômago. Ao alinhar a posição dos órgãos circunjacentes nas radiografias, a equipa conseguiu encontrar finalmente o estômago.

No entanto, para recolher amostras, os cientistas tiveram, primeiro, que descongelar a múmia, que é mantida a uns arrepiantes - 6o Celsius para impedir a invasão microbiana. Depois, usaram um instrumento endoscópico para retirar 11 gotas de uma substância amarela acastanhada do estômago e intestinos.

Segundo o autor do estudo Frank Maixner, ao contrário da matéria pastosa do intestino, o conteúdo friável do estômago estava basicamente desidratado. “O aspeto é, de facto, interessante”, diz.

A equipa de investigação analisou a amostra ao microscópio. “A observação ao microscópio tinha tornado claro que estávamos perante uma dieta omnívora”, afirma Maixner, um microbiólogo do Instituto de Múmias e Homem do Gelo em Bolzano, Itália. Na amostra, eram visíveis vestígios minúsculos de fibras de plantas e carne não digeridas, rodeados por uma nuvem de gordura.  A equipa iniciou um conjunto de testes, que incluíam análises de ADN, proteínas, lípidos, metabolitos, entre outros.

Uma pequena amostra de tecido de uma planta não digerida identificada no conteúdo estomacal do homem do gelo.

A ÚLTIMA REFEIÇÃO DE ÖTZI

As análises de lípidos e proteínas indicam que Ötzi comia o músculo e a gordura da cabra-montês, uma espécie de cabra comum na região alpina de Venoste. O conteúdo estomacal rico em gordura teria assegurado o aporte energético necessário para longas caminhadas. “Muito embora a gordura da carne da cabra-montês tivesse, supostamente, um sabor horrível”, diz Maixner, em tom de brincadeira.

Mas, curiosamente, embora a análise de ADN sugira que a carne de veado também fazia parte da refeição, os investigadores não conseguiram identificar a parte do animal que Ötzi terá ingerido. Considera-se a possibilidade de que Ötzi tenha consumido os órgãos do animal, como o baço, o fígado ou o cérebro. A deterioração também pode ser um problema. “É realmente difícil de dizer”, diz Maixner.

Os investigadores podem, no entanto, estudar a forma como a carne foi preparada. Ao analisar as microestruturas e química da carne, e por comparação com as carnes cozinhadas e cruas, os investigadores presumem que a carne de Ötzi não terá sido aquecida a uma temperatura superior a 60o Celsius. Provavelmente a carne foi seca para garantir a sua conservação, diz Maixner, uma vez que a carne fresca se estraga rapidamente. A presença de manchas de carbono sugere que a carne pode ter sido defumada.

Ötzi ingeriu também trigo espelta e samambaia, um feto tóxico. Quando ingerida em quantidades suficientes, a samambaia foi associada à anemia no gado e à cegueira nas ovelhas. Pode também induzir efeitos carcinogénicos. Contudo, algumas pessoas ainda ingerem pequenas quantidades desta planta.

É possível que Ötzi também tenha comido este tipo de plantas.  “Podemos até inferir que ele possa ter ingerido o feto para tratar a dor de estômago, uma vez que foi identificada a presença de micróbios patogénicos no órgão”, diz Maixner, acrescentando, no entanto, que “para ele, pelo menos, esta é uma ilação um tanto rebuscada”. Considera-se também a possibilidade de Ötzi ter envolvido os alimentos no feto, ingerindo inadvertidamente algumas folhas, a par com a comida, uma ideia avançada anteriormente para explicar a presença de musgo no estômago de Ötzi.

OLHAR O PASSADO PELO ESTÔMAGO DE ÖTZI

No seu conjunto, a dieta revela uma refeição bem preparada, com algumas fibras, proteínas e uma grande quantidade de gordura, rica em energia. “O homem do neolítico possuía o conhecimento para fazer roupas adequadas, instrumentos de caça e isto também se aplica à dieta alimentar”, afirma Maixner. “O homem do gelo estava claramente bem preparado.”

Embora se trate de uma amostra isolada, os resultados permitem ter uma visão surpreendentemente detalhada sobre as últimas horas de Ötzi. “Eu não sei se vamos conseguir muito melhor do que isto”, diz Katherine Ryan Amato, uma antropóloga biológica da Universidade de Northwestern, que não participou no estudo.

Os investigadores usaram durante muito tempo métodos indiretos para estudar a dieta alimentar, analisando em geral as transições ao longo do tempo, explica Amato. “Isto permite-nos efetivamente alcançar maior especificidade e falar do tema com maior riqueza de detalhe”, diz, “o que é realmente fantástico”.

Os acontecimentos em torno da morte de Ötzi ainda estão sob debate. Os vários ferimentos identificados recentemente apontam para um confronto violento, e alguns investigadores afirmam que Ötzi terá fugido para as montanhas durante uma perseguição. Mas, segundo Maixner, a última refeição de Ötzi aponta num sentido ligeiramente diferente. “Pessoalmente, acredito que ele estava preparado para esta caminhada.”

A mistura de cereais e carnes, e as duas setas completas no interior da aljava sugerem que ele não tinha acabado de comer carne fresca. Pelo contrário, nas horas anteriores à morte, Ötzi terá comido provavelmente aquilo que Maixner define como “as sobras de uma refeição anterior muito bem preparada, que levou consigo.”

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