Encontrada em Âmbar a Primeira Cria de Serpente da Era dos Dinossauros

O delicado fóssil é também a serpente mais antiga conhecida à data, que viveu num ecossistema florestal.

Publicado 14/08/2018, 14:20

Uma delicada cria de serpente, com uma estrutura esquelética incrivelmente bem preservada, é a primeira do género descoberta fossilizada em âmbar. Com 99 milhões de anos, o fóssil é também a serpente mais antiga conhecida à data que habitou um ecossistema florestal, revelaram os paleontólogos na revista Science Advances, no dia 18 de julho.

Os autores atribuíram à nova espécie de serpente o nome científico de Xiaophis myanmarensis. É provável que seja aparentada de alguns grupos modernos de serpentes encontradas no sudeste asiático, entre as quais as serpentes não venenosas Cylindrophis e a Xenopeltis unicolor, afirma o coordenador do estudo e explorador da National Geographic Lida Xing da Universidade de Geociências da China.

“Nunca tinha sido descoberta uma cria de serpente fossilizada de nenhum género. E é verdadeiramente impressionante que esta tenha quase cem milhões de anos”, afirma o coautor Michael Caldwell, um especialista em fósseis de répteis da Universidade de Alberta em Edmonton, no Canadá.

“Permanece ainda pouco claro se estas serpentes eram vivíparas, uma forma de reprodução comum nas serpentes da era moderna, ou ovíparas, mas, com base no comprimento e no estádio de desenvolvimento, este espécime era um recém-nascido”, refere Caldwell.

“Não posso afirmar se a cria ainda estava no ovo e este se partiu e a pequenota ficou presa numa gota de âmbar, ou se tinha acabado de eclodir.”

Outro fragmento de âmbar, também ele recuperado das minas da Birmânia, encerra um provável pedaço de pele de serpente, com escamas dispostas em riscas claras e escuras, que poderia ter pertencido a uma serpente Xiaophis adulta ou outra espécie de serpente contemporânea.

Os investigadores não podem afirmar, com total certeza, de que se trata de pele de cobra, mas a dimensão, a forma e a disposição das escamas assim sugere. Caso se confirme, este será também o primeiro pedaço de pele de cobra descoberto preservado em âmbar.

“As escamas apresentam-se dispostas como seria expectável observar numa serpente ou num lagarto, em linhas diagonais. Nesta espécie em particular, aquilo que faz com que as escamas se assemelhem às de uma serpente é a sua forma de diamante”, afirma Caldwell. “As escamas da maioria dos lagartos não apresentam esta forma de diamante, nem um padrão de sobreposição.”

EXPLORAÇÃO SERPENTINA

Os fartos depósitos de âmbar da província do norte de Kachin, na Birmânia, já revelaram fósseis bem preservados de aves, rãs das florestas tropicais mais antigas conhecidas, carraças e até a cauda penácea de um dinossauro.

Xing afirma ter adquirido o novo espécime de pele no início de 2016 para o Instituto de Paleontologia de Dexu em Chaozhou, na China, a um fornecedor de fósseis birmanês, que acreditava tratar-se de pele de crocodilo.

O segundo espécime despertou a atenção de Xing no verão desse mesmo ano, que, inicialmente, pensava tratar-se de uma centopeia ou um milípede. A verdadeira identidade do espécime foi confirmada com recurso a uma tecnologia avançada de raio-x no Laboratório de Radiação Sincrotónica de Xangai, que colaborou com a equipa no desenvolvimento de modelos 3D, com notável detalhe, da anatomia interna do fóssil.

Com menos de cinco centímetros de comprimento, a serpente é extremamente pequena e difícil de observar a olho nu, mas as imagens de raio-x permitiram à equipa estudar ao detalhe a forma e a posição dos seus ossos, incluindo um conjunto notável de 97 vértebras.

A análise dos dados permite inferir que a serpente primitiva se assemelhava a outras serpentes conhecidas do supercontinente meridional de Gondwana, que existiu no último período do Mesozoico. Segundo Caldwell, tal pode indicar que a extensão de terra que é hoje a Birmânia se teria separado dos outros continentes do sul, tais como a Austrália, a África e a Índia, antes de colidir com a atual Ásia.

Caldwell refere ainda que o minúsculo fóssil apresenta algumas características que já não são possíveis encontrar nas espécies vivas, tais como esporões ósseos em forma de v no extremo das vértebras da cauda. É provável que estes esporões protegessem a artéria ao longo da extensão da cauda e possam também ter sido úteis inicialmente para assegurar a estabilidade das serpentes, quando estas perderam os respetivos membros.

“Não existem fósseis de serpentes preservados de forma satisfatória com mais antiguidade, em qualquer parte do mundo”, refere o paleontólogo John Scanlon da Universidade de Nova Gales do Sul, em Sidney, na Austrália. Além disso, enquanto os fósseis de lagartos são profusos nos continentes setentrionais, que formaram em tempos o supercontinente da Laurásia, os fósseis de serpentes são muito raros.

“Existe um conjunto de fósseis de serpentes bem preservados que datam do mesmo período, mas procedem de depósitos marinhos em torno do Mediterrâneo, e acredita-se que sejam representativos de espécies aquáticas. A Xiaophis myanmarensis habitava claramente um ambiente terrestre e partilha semelhanças com as serpentes terrestres, sobretudo escavadoras”, afirma Scanlon.

O paleontólogo refere que o fóssil da cria de serpente não integra o crânio, o que teria permitido recolher muitas outras informações sobre a ecologia do animal, os habitats onde se alimentava e as interações com outras serpentes. No entanto, Scanlon acrescenta que a descoberta de uma serpente em âmbar birmanês sugere que existem provavelmente outros fósseis à espera de serem descobertos.

“Sem dúvida que temos de continuar a procurar, não apenas em âmbar, mas também na Mongólia e noutros lugares que possam ter sido alcançados por terra por parentes da Xiaophis myanmarensis.”

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeograhic.com

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