Ciência

Conheça a Mulher Que Procura o Planeta Gémeo da Terra

Munazza Alam não cresceu a olhar para as estrelas. Mas uma professora inspiradora e a sua paixão pela matemática levaram-na a mergulhar na caça de planetas habitáveis.Tuesday, March 19

Por Catherine Zuckerman
Munazza Alam, astrónoma e bolseira da National Geographic, está à procura de planetas para além do nosso sistema solar, que tenham um clima como o nosso, e potencial para suster vida.

Estamos sozinhos no universo? É uma questão capaz de suscitar debates. Para uma jovem mulher chamada Munazza Alam suscitou todo um percurso de carreira.

Alam nem sempre esteve interessada no cosmos. "Quando eu estava a crescer não era uma totó do espaço", diz. Não havia um telescópio no seu quintal e as viagens ao museu centravam-se em exibições de dinossauros. Quando era criança, preferia brincar na rua e andar de bicicleta do que contemplar as estrelas.

Mas no seu ano de caloira na universidade, já estava completamente sob o feitiço da astronomia.

CAMPO DE VISÃO

Alam, de 24 anos, é brilhante em todos os sentidos da palavra. É inteligente e animada, e a sua voz irradia calor. Ela consegue debater os méritos da teoria de matéria condensada com a mesma facilidade e clareza com que fala dos seus sentimentos em relação às suas raízes familiares.

Alam, muçulmana americana de primeira geração, cresceu em Staten Island, um bairro de Nova Iorque que é predominantemente branco. A sua mãe nasceu em Hyderabad, na Índia, e o seu pai é de Lahore, no Paquistão. “Eu tive sempre uma sensação de desfasamento, questionava a noção de pertencer”, diz. Por um lado, os seus familiares no subcontinente indiano olhavam para ela e para as suas duas irmãs mais velhas como americanas, mas "aqui nós éramos vistas como não americanos, porque os nossos pais são imigrantes", diz.

“Tanto eu como as minhas irmãs trabalhamos na ciência”, diz Alam. Nesta fotografia, tirada no Museu Nacional do Ar e do Espaço do Smithsonian, em 1995, Munazza, com um ano de idade, está num carrinho enquanto o seu pai, Mubasher Alam, está de pé com as suas irmãs Bareah (à esquerda) e Abeeha.

Adicionando outra dimensão à sua experiência, Alam e as suas irmãs frequentaram uma escola católica, desde o jardim de infância até ao 12º ano. Uma prima sua obtivera bons resultados na escola e os seus pais queriam que as filhas tivessem a melhor educação possível, então matricularam as três. “Foi uma ótima maneira de aprender a promover essa noção de aceitação, estar entre grupos diferentes e aprender simplesmente a compreender as crenças das pessoas e a ética pela qual se regem”, diz Alam.

DESPERTAR A PAIXÃO

A sua atração pela física começou no ensino secundário, graças a uma professora inspiradora que tinha um entusiasmo contagiante. Alam gostou sempre de matemática, ciência, pensamento crítico e resolução de problemas, mas a paixão da sua professora pela física e a sua capacidade em quebrar conceitos complicados ficaram com Alam.

A sua professora também a inspirou a outro nível. "Quando ela era criança, mudou-se de Israel para Nova Iorque", diz Alam, acrescentando que sentia que ambas partilhavam uma "espécie de identidade sobreposta: ela era a primeira geração, amava física e era uma estudante de uma minoria que fez o seu percurso enquanto mulher”.

Quando Alam entrou para o primeiro ano no CUNY Hunter College, em Manhattan, já tinha escolhido formar-se em física. Começou o seu projeto de investigação sobre objetos de massa reduzida, conhecidos como anãs castanhas, e no final do ano teve a oportunidade de visitar o Observatório Nacional de Kitt Peak, perto de Tucson, no Arizona.

“Eu tinha 19 anos”, diz, “e foi a primeira vez que vi a Via Láctea”. Essa visão solidificou a sua decisão em estudar astronomia a longo prazo. E também lhe recordou do quão longe tinha chegado: “Quero dizer, eu cresci a ver algumas estrelas de cada vez”, diz a rir.

ESTRELA EM ASCENSÃO

Alam, que é bolseira da National Geographic, está agora a obter a sua formação no Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian, em Cambridge, Massachusetts. A sua investigação atual concentra-se numa categoria de exoplanetas grandes e brilhantes, chamados de Júpiter quente.

FACTOS SOBRE EXOPLANETAS

Recorrendo aos dados do Telescópio Espacial Hubble, Alam "constrói espectros de atmosferas do planeta para descobrir a sua composição, e descobrir se esses planetas têm nuvens e neblinas", diz. Alam segue essas análises usando telescópios terrestres, no Chile, para descobrir como estes corpos celestes se formaram e evoluíram ao longo do tempo.

Um dos sonhos de Alam é descobrir um gémeo da Terra, um planeta para além do nosso sistema solar que tenha um clima como o nosso, com o potencial de suster vida. Este tipo de investigação é como um puzzle que não tem uma imagem de referência, diz. Requer colaboração para descobrir como é que as peças se encaixam.

MULHERES PRECISAM-SE

Alam também espera inspirar outras mulheres como ela a entrar na área. "Não tenho modelos que se pareçam comigo, ou que tenham identidades sobrepostas à minha", diz. “Eu quero ser isso para outras raparigas que têm um passado cultural semelhante”.

Estatisticamente falando, a igualdade de género é melhor na astronomia do que em outras ciências físicas, "mas ainda não é grande", diz Alam. O seu curso em Harvard tem 52 alunos e menos de metade são mulheres. Apesar desta disparidade, Alam conta com várias influências femininas fortes na sua vida, desde a sua mãe até à sua orientadora de tese.

E mesmo que os seus projetos particulares possam parecer esotéricos, ela insiste que a astronomia é para todos. “Existe algo muito humano e muito natural na observação estelar e na contemplação do cosmos.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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