Ciência

Uma Mudança na Nossa Dieta Pode Ter Alterado a Forma Como Falamos

De acordo com um novo estudo controverso, talvez possamos agradecer à agricultura pelo aumento da utilização dos sons ‘f’ e ‘v’.Thursday, March 28

Por Michael Greshko
Durante grande parte da história de várias espécies humanas, o desgaste provocado pelo ato de mastigar fez com que os dentes e os maxilares se alinhassem, como se pode observar neste crânio de um Neandertal masculino.

Como diz o ditado, somos o que comemos – mas será que esse aspeto da nossa identidade se manifesta nas línguas que falamos?

A revista Science publicou um novo estudo onde uma equipa de linguistas, da Universidade de Zurique, usa evidências biomecânicas e linguísticas para argumentar que a ascensão da agricultura, há milhares de anos, aumentou as probabilidades das populações passarem a usar sons como f e v. A ideia é que a agricultura introduziu uma variedade de alimentos mais tenros nas dietas humanas, alterando a maneira como os dentes e os maxilares dos humanos se desgastam com a idade, de formas que tornaram esses sons um pouco mais fáceis de reproduzir.

"Tenho esperança que o nosso estudo desencadeie uma discussão mais ampla sobre o facto de alguns aspectos da linguagem e do discurso – e eu insisto, alguns – precisam de ser tratados da mesma forma que tratamos outros comportamentos humanos complexos: algures entre a biologia e a cultura", diz o autor do estudo Damián Blasi.

A ser confirmado, o estudo será um dos primeiros a mostrar que uma mudança, induzida culturalmente na biologia humana, alterou o rumo das línguas globais. Blasi e os seus colegas enfatizam que as alterações no desgaste dos dentes não garantem transformações na linguagem, nem substituem quaisquer outras forças. Em vez disso, argumentam que a alteração no desgaste dentário melhorou as probabilidades de sons como f e v emergirem. Alguns cientistas de outros campos, como especialistas em desgaste dentário, estão abertos a esta teoria.

“[O desgaste dentário] é um padrão comum com raízes evolutivas profundas; não é exclusivo dos humanos [e] hominídeos, também se verifica nos grandes primatas”, disseram por email os paleoantropólogos da Universidade de Zurique, Marcia Ponce de León e Christoph Zollikofer, que não participaram no estudo. "Quem poderia imaginar que, depois de milhões de anos de evolução, isso teria implicações na diversidade da linguagem humana?"

Apesar do estudo se basear em várias suposições, “creio que os autores construíram um caso muito plausível”, acrescenta Tecumseh Fitch, um especialista em bioacústica, da Universidade de Viena, que não esteve envolvido neste trabalho. "Até agora, este é provavelmente o estudo mais convincente a mostrar como as restrições biológicas, nas alterações da linguagem, podem mudar ao longo do tempo com as mudanças culturais."

Mas muitos linguistas continuam céticos, com uma preocupação mais vasta sobre o rastreio de diferenças nas linguagens com base na biologia – uma linha de pensamento dentro desta área que levou ao etnocentrismo ou pior. Com base na enorme variedade de línguas e dialetos do mundo, a maioria dos linguistas acredita agora que todos nós partilhamos, de forma ampla, as mesmas ferramentas biológicas e habilidades de reprodução sonora para as línguas faladas.

“Precisamos de interiorizar que as pequenas diferenças, observadas em estudos como este, não podem ser ofuscadas pela diversidade dentro de uma comunidade”, diz por email Adam Albright, linguista no MIT que não esteve envolvido no estudo.

EFICIÊNCIA ENERGÉTICA

Os dentes podem dar a sensação de estar solidamente embebidos no crânio e no maxilar, mas qualquer pessoa que tenha usado um aparelho dentário pode confirmar que os dentes, à medida que envelhecemos, se alteram ou deslocam no maxilar. Os humanos nascem geralmente com o que se chama de overbite (os incisivos no maxilar superior são mais saídos que os incisivos no maxilar inferior), mas como os dentes se desgastam naturalmente, têm tendência para se inclinar numa orientação mais vertical. Para compensar, o maxilar inferior desloca-se para a frente, de maneira a que as linhas superior e inferior dos dentes estejam alinhadas.

Durante grande parte da história da nossa espécie, essa configuração de alinhamento era a norma na idade adulta, como se pode observar em muitos crânios pré-históricos estudados nos últimos trinta anos. Mas quando as sociedades adotaram novas técnicas agrícolas, como o cultivo de grãos de cereais e a criação de gado, as dietas mudaram. Assim que as papas, o queijo e outros alimentos mais tenros começaram a dominar os cardápios da antiguidade, os dentes começaram a sofrer menos desgaste, permitindo que mais pessoas mantivessem o chamado overbite na idade adulta.

Segundo o raciocínio, um overbite mais comum cria a possibilidade de sons como f e v, que fazemos quando encostamos os lábios inferiores aos dentes superiores. Se os nossos dentes superiores forem mais saídos, esses sons, que os linguistas chamam de labiodentais, são teoricamente mais fáceis de reproduzir.

Na realidade, Blasi e os seus colegas não são os primeiros a defender esta teoria. O influente linguista Charles Hockett sugeriu uma ideia semelhante, num ensaio publicado em 1985. Mas a teoria de Hockett apoiava-se numa afirmação específica de C. Loring Brace, um antropólogo influente da Universidade de Michigan. Um ano depois do ensaio de Hockett, Brace afirmou que já não pensava da mesma forma – fazendo com que Hockett rejeitasse a sua própria ideia.

Durante décadas, os debates de Hockett e Brace foram considerados a palavra final sobre o assunto. Portanto, quando há vários anos Blasi e os seus colegas revisitaram esta teoria, fizeram-no para fins demonstrativos. Mas quando a equipa começou a analisar estatisticamente os bancos de dados de idiomas mundiais e a sua distribuição, começaram a ver uma relação teimosa que não conseguiam explicar.

“Passámos meses a tentar demonstrar que esta correlação não existia... mas depois pensámos, se calhar existe algo aqui”, diz Steven Moran, coautor do estudo e linguista na Universidade de Zurique.

A equipa realizou análises de acompanhamento, incluindo algumas em que utilizaram um modelo dos ossos e músculos do rosto, feito em computador. Os modelos descobriram que requer menos energia, cerca de 29%, para reproduzir labiodentais com overbite do que sem.

A equipa de Blasi afirma que a partir do momento em que o f e o v começaram a ser energeticamente menos dispendiosos, começaram a ser mais comuns – ao início pode ter acontecido de forma acidental, já que as pessoas vocalizavam mal os sons provocados pelo toque de ambos os lábios, como p ou b, algo que os linguistas chamam de bilabiais. Mas assim que os sons labiodentais surgiram, talvez pela sua distinção útil, já não desapareceram. Frases como “a água dá para ferver” e “a água dá para beber” têm significados muito diferentes.

Quando a equipa de Blasi comparou os registos linguísticos com os dados sobre a forma como as diferentes sociedades adquiriam alimentos, descobriram que as sociedades modernas de caçadores-coletores usavam cerca de um quarto dos sons usados pelas sociedades agrícolas, sugerindo uma possível correlação com a dieta. E quando observaram a vasta família de línguas indo-europeias, descobriram que até há 4 ou 6 mil anos as probabilidades de existência de sons labiodentais eram inferiores a 50%.

A época de ascensão dos sons labiodentais coincide mais ou menos com a altura em que os seus falantes começaram a usar laticínios e a cultivar grãos de cereais. A equipa de Blasi argumenta que isso não é uma coincidência.

“A paisagem sonora da qual dispomos é fundamentalmente afetada pela biologia do nosso aparelho vocal”, diz Balthasar Bickel, coautor do estudo.

CLIQUES PERSISTENTES

Assim sendo, conclui-se que tudo, desde a estrutura social até as modas de curta duração, pode moldar a linguagem – e a ascensão da agricultura trouxe mudanças sociais profundas. Os linguistas também realçam que, mesmo dentro de uma única população, a fala das pessoas pode variar muito.

Khalil Iskarous, linguista da Universidade do Sul da Califórnia que não esteve envolvido no estudo, está disposto a considerar os argumentos probabilísticos do artigo. Mas indica que os órgãos da fala humana não despendem muita energia em termos de movimento, e são tão flexíveis que muitas vezes conseguem compensar as diferenças na estrutura óssea. Os sons mais difíceis de reproduzir, devido a um overbite, como os bilabiais, podem vir a diminuir – apesar de muitas línguas não abdicarem obviamente deles.

Para além disso, se os gastos energéticos desempenham realmente um papel determinante nas línguas, muitos dos sons mais difíceis enfrentariam uma batalha complicada na sua adoção. Iskarous dá como exemplo os cliques que ainda são essenciais para muitas das línguas khoisan da África Austral.

“Se um esforço inócuo é capaz de afetar as probabilidades de fazermos um som ou não, então seria de esperar, por exemplo, que nenhuma linguagem utilizasse cliques. Mas estes não só existem, como se espalharam por diversas línguas que não os usavam anteriormente”, diz. “Os cliques exigem muito mais esforço, mas isso não interessa: Existem forças culturais que decidiram que estes se deviam propagar.”

Mas Blasi insiste que as afirmações da sua equipa não excluem a cultura.

“As probabilidades [das labiodentais terem surgido acidentalmente] são relativamente baixas, mas com tentativas suficientes – ou seja, cada vez que falamos é uma tentativa – ao longo de várias gerações, conseguimos atingir o indício estatístico que observamos”, diz. “Mas não é um processo determinista, certo?”

Enquanto os académicos continuam a debater a questão, a equipa de Blasi já tem algumas ideias sobre o que fazer a seguir. Por exemplo, a equipa diz que os seus métodos podem ajudar a reconstruir a forma como as antigas línguas escritas eram faladas em voz alta, catalogando assim os infindáveis fonemas linguísticos.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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