Ciência

Tal Como os Humanos, Este Dinossauro Gatinhava Antes de Andar

Fósseis sugerem que os dinossauros como o “rato lagarto” estão entre os poucos animais que fizeram uma alteração específica na sua locomoção, relacionada com a idade.Monday, May 27, 2019

Por Jason Bittel
Na sua infância, o dinossauro Mussaurus patagonicus apoiava-se nas quatro patas. Mas com o crescimento, o seu centro de massa alterava-se e este mudava para uma locomoção de duas pernas.

O momento em que um bebé deixa de gatinhar para começar a andar é muito especial, sobretudo se levarmos em consideração a raridade desta transição no reino animal. Só existem algumas espécies onde se acredita que esta transição possa acontecer com a idade – e são todas de dinossauros.

Agora, os investigadores acrescentaram novas provas convincentes a um membro dessa lista: um saurópode chamado Mussaurus patagonicus.

O Mussaurus patagonicus bebé era pequeno o suficiente para caber em mãos humanas.

Quando o Mussaurus eclodia, era pequeno o suficiente para caber confortavelmente em mãos humanas, adquirindo um nome de género que significa "rato lagarto". Mas depois de oito anos a devorar vegetais, esta criatura podia pesar mais de uma tonelada.

Esta explosão dramática, no tamanho e forma corporais, trazia consigo uma alteração no movimento do animal, debatida por cientistas num novo estudo publicado no dia 20 de maio na revista Scientific Reports.

Recorrendo a uma série notável de fósseis quase completos, que retratam três estágios-chave de vida, os cientistas conseguiram criar modelos interativos em 3D do dinossauro jurássico e descobrir onde ficaria o seu centro de massa corporal à medida que este envelhecia. Na sua infância, a enorme cabeça e pescoço do animal inclinavam o seu corpo para o suporte dos antebraços mais bem desenvolvidos. Mas à medida que a sua cauda crescia, o seu centro de gravidade deslocava-se para a zona pélvica, forçando o animal a adotar uma postura vertical, permitindo-lhe andar sobre duas pernas.

“Não sabemos se este padrão se aplicava a todos os saurópodes”, diz o líder do estudo, Alejandro Otero, paleontólogo no Museu La Plata, na Argentina. “Mas o facto deste grupo de animais ter feito uma transição na sua locomoção de uma forma tão semelhante à dos humanos é fascinante.”

Vislumbres da Pré-história
Uma das coisas que torna o estudo de animais extintos tão difícil é que os cientistas geralmente só conseguem ter pequenos vislumbres da vida de cada criatura. Muitas vezes, esses vislumbres não incluem crias ou animais juvenis, que são mais pequenos e menos propensos à fossilização.

"Existem poucos dinossauros para os quais temos uma boa série de estágios de vida – desde ovos ou bebés a adultos – e o Mussaurus tornou-se num deles, suscitando novas questões empolgantes que não eram viáveis há 20 anos", diz John Hutchinson, coautor do estudo e professor de biomecânica evolutiva no Royal Veterinary College da Universidade de Londres.

Por exemplo, foi preciso mais de meio século para reunir um conjunto de fósseis que conseguisse suportar este estudo. Estes conjuntos são apelidados pelos cientistas de séries ontogenéticas e são altamente valorizados.

"Normalmente pensamos nas espécies de dinossauros como se fossem uma entidade monolítica, mas como qualquer outro animal, eles tinham fases de crescimento que normalmente não temos a oportunidade de observar, já que os fósseis de dinossauros são tão raros", diz Shaena Montanari, paleontóloga e membro da AAAS Science and Technology Policy Fellow que não esteve envolvida no estudo.

Dinossauros Pioneiros
O Mussaurus é apenas um ramo da árvore da família dos dinossauros que pode ter alternado entre modos de locomoção com a idade.

“Hipoteticamente, vários dinossauros podem tê-lo feito, incluindo animais como os Maiasaura, Iguanodon, Psittacosaurus, Dryosaurus e Massospondylus”, diz Kimi Chapelle, estudante de doutoramento que investiga as alterações de locomoção nos dinossauros na Universidade de Witwatersrand, na África do Sul.

Os paleontólogos têm uma série ontogenética do Mussaurus patagonicus, um conjunto de fósseis quase completos que retratam três estágios-chave de vida, incluindo este crânio juvenil.

Para além disso, algumas espécies exibem mudanças na direção oposta, passando da locomoção de duas pernas para quatro, diz Chapelle, que não fez parte do novo estudo. A propensão para a mudança é refletida na evolução dos dinossauros.

“Os dinossauros ancestrais eram bípedes, mas os quadrúpedes evoluíram de forma independente em duas linhagens principais”, diz Chapelle. Isso inclui o ramo Ornithischia, que produziu diversos dinossauros quadrúpedes mais conhecidos, como o Triceratops, o Stegosaurus e o Ankylosaurus.

Apesar de todas estas alterações entre os dinossauros, os cientistas ainda têm muitas dificuldades em encontrar um exemplo desse comportamento em animais vivos.

“Os humanos acabam por ser o melhor – e provavelmente o único – exemplo bem conhecido”, diz um dos coautores do estudo, Andrew Cuff, investigador de pós-doutoramento no Royal Veterinary College da Universidade de Londres. “É algo muito raro de se encontrar, sendo por isso muito excitante observá-lo no registo fóssil desta espécie.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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