Ciência

Fóssil Raro Dentro de Fóssil Revela Última Refeição de Dinossauro

A descoberta não só revela uma nova espécie de lagarto antigo, mas também muda a nossa compreensão sobre a cadeia alimentar de há 140 milhões de anos.Monday, July 29, 2019

Por Michael Greshko
Há mais de 120 milhões de anos, onde atualmente fica o nordeste da China, um dinossauro emplumado chamado “Microraptor” devorou um lagarto e morreu pouco tempo depois. O fóssil resultante desse evento fornece agora a primeira evidência direta de que o “Microraptor” comia lagartos – e revela um novo género de réptil antigo.

Nos mitos védicos do hinduísmo, a divindade Indra luta contra um dragão que a engole por inteiro. Agora, nos registos fósseis, os cientistas encontraram uma história com semelhanças notáveis: uma espécie de lagarto recém-reconhecida que encontrou o seu destino na barriga de um dinossauro.

Com o nome de Indrasaurus wangi – uma homenagem ao encontro mítico – o desafortunado réptil foi encontrado dentro do abdómen de um dinossauro emplumado conhecido por Microraptor. O fóssil foi desenterrado na biota de Jehol, com 130 milhões de anos, um tesouro de fósseis do período Cretáceo onde atualmente fica o nordeste da China.

A descoberta - descrita hoje na revista Current Biology - é o quarto fóssil do Microraptor a preservar o conteúdo do estômago, mas é o primeiro a mostrar que o Microraptor comeu lagartos. Fósseis anteriores capturaram-no comendo pequenos mamíferos, peixes ou pássaros. O espécime também revela que, como algumas aves predadoras que existem hoje em dia, o Microraptor apreciava engolir lagartos inteiros, começando pela cabeça.

O fóssil do dinossauro emplumado “Microraptor” também preserva a última refeição do animal: um lagarto que parece ter sido engolido inteiro.

O pequeno dinossauro “parece ter sido muito generalista, perseguia tudo o que lhe cabia na boca”, diz o paleontólogo Scott Persons, investigador de pós-doutoramento na Universidade de Alberta. Persons não esteve envolvido no novo estudo.

Agora que o fóssil e a sua última refeição foram identificados, o espécime pode ajudar a reconstruir a antiga cadeia alimentar de Jehol. Jingmai O'Connor, a principal autora do estudo e paleontóloga no Instituto de Paleontologia e Paleoantropologia de Vertebrados da China (IPPV), juntamente com a sua equipa, descreveram o Indrasaurus e fizeram um estudo aprofundado sobre a alimentação neste mundo perdido.

A base desta complexa cadeia alimentar residia em pelo menos seis tipos de plantas, com sementes que alimentavam os herbívoros da região. Os lagartos e os dinossauros alimentavam-se da abundância de peixe do ecossistema do lago, e os pequenos mamíferos desempenhavam o papel de predadores e presas. O Sinocalliopteryx, um carnívoro de dois metros e meio de comprimento, parece ter sido um predador, enquanto que o Microraptor ficava algures no meio, aproveitando o que conseguia apanhar.

A biota de Jehol “é um dos melhores registos que existem no mundo sobre a alimentação dos dinossauros, e de outras coisas também”, diz Persons.

Engolir sem mastigar
Descrito em 2003, este fóssil do Microraptor passou vários anos sem revelar os seus segredos. O fóssil foi comprado por Xiaoting Zheng (um antigo chefe de uma empresa estatal de mineração de ouro) a um agricultor local, e acabou no enorme Museu Natural de Tianyu, fundado posteriormente por Zheng. A coleção de fósseis do museu está recheada com milhares de exemplares, e navegar por todas essas riquezas é uma tarefa extenuante.

“Já atingimos um ponto em que vimos todos os fósseis do museu, mas quando só temos cinco horas para observar 3 mil espécimes, não conseguimos processar tudo”, diz O’Connor. “Eu sabia que já tinha visto aquele fóssil, mas não reparei no seu conteúdo estomacal, embora agora perceba que é realmente óbvio.”

O antigo lagarto “Indrasaurus wangi”, visto aqui num plano aproximado, tem o nome da divindade védica Indra e do paleontólogo chinês Yuan Wang, diretor do Museu Paleozoológico da China.

A equipa conseguiu identificar o lagarto porque os seus ossos estão muito bem preservados. E este estado excecional de conservação levanta algumas questões sobre a forma como os dinossauros – incluindo as aves – evoluíram os seus aparelhos digestivos.

Para sustentar o voo, as aves modernas evoluíram o seu sistema digestivo de forma eficiente e especializada. Em vez mastigarem a comida com dentes, engolem-na por completo. A comida fica num esófago grande – em muitas aves este órgão forma uma espécie de bolsa. Os alimentos percorrem depois um labirinto de dois estômagos. O primeiro segrega enzimas digestivas que desfazem quimicamente a comida. O segundo, um órgão musculado chamado moela, tritura a comida com a ajuda de pedras minúsculas.

Algumas aves de rapina, como as corujas, vão mais além e cospem pequenas bolas de ossos, penas e pelos não digeridos. Este comportamento parece remontar à antiguidade: o dinossauro emplumado Anchiornis, um parente ancestral das aves modernas, também aparenta ter cuspido bolas de ossos – com base na análise feita a seis fósseis com 160 milhões de anos.

“Gosto de imaginar o pequeno Anchiornis numa árvore a vomitar uma bola de pelo de um mamífero da antiguidade”, diz Persons.

Largar lastro
Alguns paleontólogos acreditam que este comportamento do Anchiornis é um sinal de que a formação de bolas gástricas foi uma adaptação necessária para a evolução do voo nas aves. De acordo com esta teoria, algumas aves voadoras, ao cuspirem ossos e penas, não teriam de suportar o peso desnecessário.

Mas as penas adaptadas para o voo do Microraptor parecem sugerir que o animal conseguia voar sem grande esforço – e a julgar pelo estado bem conservado do Indrasaurus, incluindo outras refeições do Microraptor, nem todos os dinossauros voadores vomitavam bolas de comida. E os quatro espécimes de Microraptor com conteúdos estomacais fossilizados têm pedaços inteiros de ossos.

Embora o tamanho desta amostra seja pequeno, O'Connor e os seus colegas suspeitam que o Microraptor mantinha as suas refeições no estômago durante mais tempo que o Anchiornis e as aves modernas, expelindo os ossos nas fezes, como o Tyrannosaurus rex.

Partindo do princípio que o Microraptor e o Anchiornis são parentes próximos, a diferença é surpreendente. Talvez as bolas gástricas do Anchiornis sejam uma indicação de que a sua linhagem está mais próxima da dos antepassados das aves modernas do que dos dromeossauros, o grupo de dinossauros ao qual pertence o Microraptor.

Mas O'Connor refere que os sistemas digestivos podem ter evoluído mais de uma vez. E cortar pedaços indigestos de comida não é exclusivo das aves; os crocodilos e os cachalotes também o fazem. E tal como acontece com outras características, como as penas, por exemplo, o sistema digestivo das aves pode não ter sido assim tão evolucionário.

"É impossível apontar uma mudança ou evolução e afirmar que foi isso que contribuiu para o sucesso das aves”, diz O'Connor. “Os antepassados dos pássaros modernos sobreviveram à extinção no final do Cretáceo, provavelmente porque eram a única linhagem que tinha todas essas adaptações, tinham evoluído várias vezes... eram os animais que reuniam tudo num único pacote".
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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