Ciência

Maior Vulcão do Mundo Regressou

Um novo olhar sobre a montanha subaquática no Maciço de Tamu revela que esta já não detém o recorde de maior vulcão do mundo – e pode nem sequer ser um vulcão.quarta-feira, 31 de julho de 2019

Por Robin George Andrews
Explosões de lava no Mauna Loa, no Havai, que mais uma vez detém o título de maior vulcão da Terra.

Em 2013, uma equipa de cientistas abalou os fãs de geologia quando revelou que o Mauna Loa, um vulcão-escudo com mais de 5 mil metros quadrados, no Havai, já não era provavelmente o maior vulcão do mundo. Esse prémio, segundo a equipa, pertencia ao Maciço de Tamu, uma montanha vulcânica extinta no fundo do mar, a leste do Japão, que parecia ser um vulcão-escudo independente, cobrindo mais de 250 mil metros quadrados, aproximadamente o tamanho do estado do Arizona.

Mas agora, um novo estudo da Nature Geoscience reexaminou o Maciço de Tamu e chegou a uma conclusão completamente diferente: não é um vulcão-escudo, o que significa que o Mauna Loa está de regresso ao trono. Curiosamente, o principal autor de ambos os estudos é a mesma pessoa: William Sager, geofísico marinho na Universidade de Houston.

"Isto é espantoso, porque é assim que a ciência deve funcionar", diz Bill Chadwick (que não esteve envolvido no estudo), geólogo que estuda o fundo do mar no Laboratório Ambiental Marinho do Pacífico, no Oregon. "Nós usamos as evidências que temos à nossa frente, independentemente de contradizerem algo em que acreditávamos anteriormente."

Sager concorda, destacando que a revisão da sua equipa sobre a enorme estrutura submarina revela que podemos estar perante uma crosta oceânica colossal para qual ainda não existe uma explicação adequada – pode ser algo ainda mais estranho do que um vulcão singular gigante.

Na sua essência, diz Sager, o Maciço de Tamu “ainda é extraordinário, mesmo que não possamos reivindicar o seu grau superlativo”.

Ou tudo ou nada
Sager começou a estudar o Maciço de Tamu há mais de 25 anos, muito antes de lhe dar o nome. A estrutura fica no noroeste do Oceano Pacífico, no Shatsky Rise, um planalto oceânico.

Uma das teorias sugere que estes pisos vulcânicos elevados e espessos são o equivalente oceânico dos basaltos de inundação continentais – originados pelas expansões gigantes e prolongadas de lava. A ideia é a de que o topo superaquecido de uma pluma de rochas no manto se ergue, descomprime, derrete e desencadeia enormes quantidades de magma na crosta, seja na terra ou no fundo do mar.

Vários trabalhos feitos na década de 1990, incluindo um com a coautoria de Sager, expuseram e apoiaram a ideia do modelo de pluma para a criação do Shatsky Rise e do Maciço de Tamu. Em 2009, Sager e o International Ocean Discovery Program perfuraram o Maciço de Tamu em várias zonas e encontraram fluxos de lava solidificada, com cerca de 120 metros de espessura, sugerindo que este maciço foi de facto formado por erupções gigantescas.

As secções sísmicas transversais, observadas pouco tempo depois, pareciam sugerir que todos os rios de lava tinham origem na mesma fonte. Para a equipa, parecia que o Maciço de Tamu era um gigantesco vulcão-escudo – um tipo de vulcão que surge quando os fluxos de lava entram em erupção e se acumulam por camadas, criando uma estrutura em forma de cúpula que se assemelha a um escudo gigante e rochoso. Assim sendo, o Maciço de Tamu seria o maior vulcão-escudo do mundo, uma noção que convenceu a Nature Geoscience na época, diz Sager.

Melhorias maciças
Em 2013, quando o estudo foi publicado, o frenesim gerado pelos meios de comunicação meteu o artigo nas bocas do mundo, fazendo com que muitas pessoas lessem a investigação, algo que foi certamente bem-vindo, diz Sager.

“Mas havia uma coisa ou outra que me incomodavam naquele trabalho”, diz Sager. As assinaturas magnéticas pareciam demonstrar que estava a acontecer algo de estranho.

O Maciço de Tamu está situado no ponto de encontro de três dorsais oceânicas. Aqui, o magma borbulha, solidifica numa nova crosta e afasta-se da dorsal. O processo de formação de novas crostas nas dorsais deixa um registo do campo magnético global da Terra.

Por vezes, o campo magnético da Terra inverte-se, e essas chamadas inversões ficam registadas como se fossem um código de barras no fundo do mar. Assumindo que a formação de crosta é um processo estável ao longo do tempo, os segmentos no código de barras devem estar razoavelmente ordenados, algo que o crescimento caótico de um vulcão submarino gerado pelo modelo de pluma não teria.

“É mais fácil estudar vulcões noutros planetas do que no fundo dos nossos oceanos.”

por JANINE KRIPPNER, PROGRAMA GLOBAL DE VULCANISMO SMITHSONIAN

O Maciço de Ori, uma montanha comparativamente menor, perto do Maciço de Tamu, exibe esse padrão magnético no código de barras, uma forte indicação de que  foi criado pelo magma que saiu das dorsais oceânicas.

Por outro lado, os conjuntos de dados das assinaturas magnéticas do Maciço de Tamu não eram muito boas, mas graças à atenção obtida com o artigo de 2013, Sager conseguiu angariar financiamento privado para fazer um trabalho de acompanhamento e mapear as faixas magnéticas do maciço – com detalhes sem precedentes. E, embora as faixas centrais possam ter sido contorcidas por um segmento da dorsal, que faz uma rotação ao longo do tempo, os mapas revelavam claramente um cruzamento gigante de faixas magnéticas no maciço.

Isto significa que o Maciço de Tamu não é realmente um vulcão-escudo. Na verdade, parece ser uma coleção colossal de crosta oceânica, com 30 km de espessura, quatro vezes mais espessa do que a média global. Ainda não se sabe ao certo como é que isto é possível, mas sugere que o ritmo de formação de crosta na zona é desordenado, novamente por razões ainda por desvendar.

O planalto oceânico de Shatsky Rise também está completamente coberto com faixas magnéticas muito reveladoras, algo que implica que os próprios planaltos oceânicos não são versões submarinas dos basaltos de inundação continentais, e não são forjados pelos modelos de pluma. Ou seja, são forjados por algo a que Sager se refere como um tipo aumentado de propagação do fundo do mar.

Em retrospetiva, Sager diz que o estudo de 2013, feito com alguns perfis e amostras sísmicas, foi “como tentar construir um novo dinossauro com um dente e um osso”.

O regresso do rei
Bill Chadwick, que nunca esteve convencido com o artigo de 2013, acredita que, com este novo trabalho, os autores estão no caminho certo, e cita os dados magnéticos convincentes.

Mas Ken Rubin, geoquímico e vulcanólogo na Universidade do Havai, em Manoa, ainda não está convencido. Rubin diz que “os dados concretos para testar o modelo de vulcão-escudo, o modelo de vulcanismo dorsal, ou qualquer outro modelo nesses moldes, são, até hoje, extremamente escassos".

Contudo, obter dados melhores não é uma tarefa fácil. Ao contrário do que acontece com os vulcões terrestres, estudar as características vulcânicas subaquáticas é um empreendimento incrivelmente problemático e repleto de dificuldades logísticas; não podemos simplesmente andar pelo vulcão a recolher amostras onde queremos, e muitas vezes dependemos de observações indiretas. Também é extremamente difícil detetar características vulcânicas submarinas, a maioria das quais ainda está por descobrir.

“É mais fácil estudar vulcões noutros planetas do que no fundo dos nossos oceanos”, diz Janine Krippner, do Programa Global de Vulcanismo Smithsonian.

Até sabermos mais sobre as dimensões, distribuições e origens dos fluxos de lava, e até que sejam feitos mais estudos de imagiologia geofísica para descortinar as estruturas subjacentes, Rubin suspeita que as ideias sobre as origens do Maciço de Tamu e do Shatsky Rise continuam a ser hipotéticas e especulativas.

E enquanto isso, o Mauna Loa continua a reinar no papel de maior vulcão singular do nosso planeta.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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