Pata de Ave Antiga Encontrada em Âmbar Tem Dígitos Estranhamente Longos

O fóssil encontrado no Myanmar tem patas que não se encontram em nenhuma outra ave, viva ou morta.segunda-feira, 29 de julho de 2019

Se conseguíssemos viajar no tempo até ao Myanmar de há 99 milhões de anos, poderíamos ver florestas repletas de parentes dentados das aves modernas, chamados enantiornitinos. Vistas de longe, estas aves antigas parecem um pardal moderno – tirando os dígitos estranhamente longos nas patas, uma adaptação nunca antes vista em qualquer outro pássaro, vivo ou morto.

A ave Elektorornis chenguangi, recém-descrita na revista Current Biology, foi encontrada enterrada em âmbar. Este pedaço de resina fossilizada preserva parte de um membro da ave. Apesar de existirem sinais claros de apodrecimento – a pele, congelada no tempo, está a soltar-se do osso – o fóssil preserva a estrutura da pata da ave, incluindo os dígitos médios extraordinariamente longos.

Se as mãos humanas tivessem proporções semelhantes às das patas da Elektorornis, os nossos dedos médios seriam 60% mais longos que os indicadores – proporções bizarras cuja função ainda não foi descoberta pelos cientistas.

"O mais interessante é estarmos perante uma ecologia que já não existe, e mesmo assim temos atualmente entre 9.000 e 18.000 espécies de aves", diz Jingmai O'Connor, paleontóloga no Instituto de Paleontologia e Paleoantropologia de Vertebrados da China (IPPV).

Para além disso, a Elektorornis é o primeiro género de ave descrito a partir de um fóssil preservado em âmbar. Apesar de já terem sido encontrados outros pedaços de âmbar com restos de aves, esses fósseis não estavam muito completos, não permitindo a sua identificação ao nível de género. Com a Elektorornis isso não acontece, as suas patas destacam-se claramente e possibilitam a sua classificação.

"Isto é muito importante para o estudo do âmbar", diz por email Lida Xing, coautor principal do estudo, Explorador National Geographic e paleontólogo na Universidade de Geociências da China. Xing diz que a Elektorornis "é um animal completamente novo".

Testar as possibilidades
Existe uma pista intrigante que pode revelar a razão pela qual a Elektorornis tinha dígitos tão longos: a pata enterrada em âmbar preserva pedaços de pele e de penas, incluindo filamentos de escutelo escamoso. As aves da atualidade têm estruturas com uma aparência semelhante que agem um pouco como os bigodes dos gatos – ajudam as aves a percecionar insetos voadores ou mudanças subtis no fluxo do ar durante o voo. Não se sabe exatamente o que esta ave fazia com as patas, mas é provável que as usasse para sentir as coisas.

A melhor palpite até agora é o de que a Elektorornis usava os seus dígitos para sondar as árvores à procura de insetos, como uma pequena versão aviária dos aie-aies de Madagáscar, um lémure que usa os seus dígitos alongados para apanhar larvas de insetos.

"Eu sei que é uma teoria muito simplista, mas de momento é tudo o que temos", diz O'Connor. “Sabemos que muitas das penas têm funções táteis, e estas penas estranhas, que parecem cerdas ao longo da pata e do dígito mais alongado, podem ter sido usadas para forragear, como acontece com os aie-aie.
A interpretação é plausível, diz Santiago Claramunt, curador associado de ornitologia no Museu Real de Ontário, em Toronto. Alguns pássaros da atualidade, como os Campylorhamphus trochilirostris, da América do Sul, e os Phoeniculus purpureus, da África subsaariana, também perscrutam madeira podre à procura de insetos, mas fazem-no com os seus bicos especializados.

"Estes pássaros primitivos tinham dentes e as suas zonas bocais eram diferentes, semelhantes às dos lagartos", diz Claramunt. “Provavelmente, estas aves não conseguiam desenvolver bicos muito longos, finos e curvos, pelo que podemos estar perante um equivalente ecológico”.

A descoberta de novos fósseis pode ajudar a esclarecer como é que a Elektorornis vivia. Por exemplo, Claramunt gostava de poder ver o crânio, o cóccix e o esterno da ave, algo que poderia ajudar a revelar como é que comia e se conseguia realmente escalar pelos troncos das árvores, em vez se empoleirar apenas nos galhos e ramos. Mas, de momento, Claramunt está impressionado com a pata. E O'Connor sugere que existem coisas ainda mais estranhas para descobrir no âmbar.

"Esta ecologia em particular não é utilizada pela diversidade de aves da atualidade. E temos outros espécimes em âmbar, que iremos publicar brevemente, e que podem revelar coisas muito interessantes ", diz O’Connor. “Temos duas coisas para revelar que pertencem a nichos ecológicos claramente extintos."

Campo de minas científico
O pedaço de âmbar polido que contém a Elektorornis está no Museu de Âmbar de Hupoge, em Tengchong, na China. O museu também tem uma cria enantiornitina envolta em resina fossilizada. A espécie chama-se chenguangi, em homenagem a Guang Chen, um dos curadores do museu.

De acordo com Xing, Chen teve conhecimento desse fóssil em 2014, quando um mineiro lhe mostrou uma pata estranha de um animal. O mineiro pensava que o apêndice comprido pertencia a um antigo lagarto, dada a sua semelhança com os lagartos da região. Mas quando Chen viu que a pata tinha apenas quatro dedos, entrou em contacto com Xing.

“Na altura, fiquei muito surpreendido com o fóssil. Era indubitavelmente a pata de uma ave”, diz Xing por email.

Esta descoberta é apenas uma de muitas a emergir do Vale Hukawng, uma região no estado de Kachin, no norte do Myanmar, que abriga minas de âmbar há pelo menos 2 mil anos. Há cerca de 99 milhões de anos, esta região tinha florestas costeiras repletas de árvores que libertavam resina. Essa gosma acabou por endurecer, preservando os vestígios de muitos dos residentes de menor porte deste ecossistema. Até agora, os paleontólogos já descobriram restos de dinossauros emplumados, pássaros antigos, cobras e invertebrados de todos os tipos – incluindo a concha de um molusco marinho extinto.

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Na última década, as descobertas de fósseis em âmbar birmanês aumentaram consideravelmente, em grande parte devido ao trabalho de Xing. A sua investigação – incluindo o seu trabalho com a Elektorornis – é parcialmente financiada pela National Geographic Society.

Mas com a intensificação dos estudos sobre âmbar birmanês, o escrutínio ético no terreno também aumentou. Durante décadas, a minoria étnica Kachin lutou amargamente pela independência contra as Forças Armadas da Birmânia, e a riqueza mineral da região – incluindo o âmbar – ajudou a financiar o conflito.

Tecnicamente, é ilegal exportar fósseis do Myanmar sem permissão, mas o âmbar em bruto é classificado como uma pedra preciosa e, por isso, entra regularmente nos mercados do oeste da China, onde é cortado, polido e comercializado. Os investigadores, revendedores e colecionadores costumam rondar os mercados à procura de descobertas cientificamente valiosas, existindo pessoas que gastam anualmente centenas de milhares de euros nesta busca. Alguns fósseis chegam até às instituições científicas, mas outros seguem para coleções particulares, e os proprietários podem ou não apoiar as investigações sobre as suas propriedades.

O Museu de Âmbar de Hupoge fica algures no meio de tudo isto. O museu pertence à Associação de Âmbar da Cidade de Tengchong, um grupo que também possui duas lojas enormes de âmbar, uma em Myitkyina, a capital do estado de Kachin, na Birmânia, e a outra na cidade chinesa de Tengchong. Xing acrescenta que o curador, Chen, possui algumas minas de âmbar, além de um museu particular para espécimes de âmbar particularmente raros.

Xing, por exemplo, espera que os museus como o de Chen ajudem a trazer mais coleções particulares para o público. Outros museus privados, como o Museu de Âmbar Lingpoge, em Xangai, não têm muita presença pública e só acolhem cientistas externos por convite.

“Esta história é muito longa, mas para simplificar, digamos apenas que estou comprometido em apresentar formalmente todos estes colecionadores em grande escala”, diz Xing por email. “Esta é uma boa oportunidade.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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