Órgão Recém-Descoberto Pode Estar Sob a Pele

Identificado em ratos, é provável que este simples órgão também exista nos humanos, oferecendo novas perspetivas sobre a forma como sentimos picadas e pressões dolorosas.sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Por Catherine Zuckerman

A maioria das pessoas que já foi picada por uma agulha conhece o processo: primeiro a perfuração, depois uma dor aguda e ardente. Embora o circuito exato responsável por esta reação quase universal não seja completamente percetível, os cientistas podem agora ter encontrado uma peça importante do puzzle: um órgão sensorial anteriormente desconhecido dentro da pele.

Com o nome de complexo nociceptivo glio-neural, esta estrutura é diferente da de um órgão complexo, como o coração ou o baço. Em vez disso, é um órgão simples, constituído por uma rede de células chamadas células da glia, que são conhecidas por rodear e apoiar as células nervosas do corpo. Neste caso, as células da glia formam uma estrutura em forma de malha, entre as camadas externa e interna da pele, com protuberâncias semelhantes a filamentos que se estendem até à camada exterior da pele.

Segundo os dados apresentados pela equipa do estudo no dia 15 de agosto, na revista Science, este humilde órgão parece desempenhar um papel fundamental na perceção da dor mecânica – desconforto provocado por pressão, picadas e outros impactos na pele. Até agora, acreditava-se que as células individuais chamadas fibras nociceptivas eram os principais pontos de partida para este tipo de dor.

"Há quase um século que pensamos que a dor é iniciada a partir dos nervos na pele", diz o coautor do estudo, Patrik Ernfors, neurobiólogo molecular no Karolinska Institutet, na Suécia. "Mas o que mostramos agora é que a dor também pode ser iniciada nestas células da glia".

Progressão da dor
Primeiro, a equipa identificou o novo órgão em ratos e testou a sua funcionalidade medindo as respostas dos roedores a diferentes tipos de dor. Quando desligaram as células do órgão através de edição genética, os animais tiveram uma resposta normal à dor térmica – desconforto provocado pelo calor ou frio. Mas, com o complexo glial desativado, também tiveram uma resposta reduzida à dor mecânica.

As descobertas mudam a forma como os cientistas encaram o início e a progressão da dor – pelo menos em ratos. A equipa ainda não verificou se o órgão existe nos humanos, mas Ernfors diz que as probabilidades são elevadas.

"Considerando que todos os outros órgãos sensoriais previamente conhecidos nos ratos também existem nos humanos, é muito provável que este órgão sensorial também esteja presente na nossa pele.”

Assim sendo, este trabalho pode ajudar a desenvolver tratamentos para uma variedade de distúrbios da dor neuropática, que afetam cerca de 10% da população nos EUA, e entre 7 e 10% da população na Europa, diz Ernfors. Por exemplo, encontrar formas de alterar essa rede celular pode beneficiar pessoas que sofrem de alodinia, uma condição onde a pele se torna tão sensível que até um leve toque ou uma escova podem ser horríveis.

"Esta descoberta é muito interessante", diz Luana Colloca, neurofisiologista e professora na Faculdade de Medicina de Maryland (não participou no estudo). "É emocionante saber que existe um sistema que vai para além das fibras nociceptivas que ensinamos aos nossos alunos."
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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