Ciência

Vírus Ébola: O Que É? Pode Ser Travado?

O vírus Ébola desenvolve uma doença que mata até 90% das pessoas que a contraem, mas uma vacina promissora pode oferecer proteção.quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Por Michael Greshko
Filaments from an Ebola virus bud (green) swarm an infected cell.

O vírus Ébola, formalmente chamado Ebolavírus Zaire, é um vírus raro que infeta humanos e animais, como porcos e outros primatas. É um de vários vírus do género Ebolavírus, dos quais apenas quatro são conhecidos por infetar humanos: Ébola, Sudão, Taï Forest e Bundibugyo.

Alguns vírus do género Ebolavírus não provocam sintomas em humanos, como o ebolavírus Reston, a variante que o livro e série de televisão, The Hot Zone, centra as suas atenções (embora provoque doenças em porcos e primatas). Uma variante do vírus, chamada Bombali, foi recentemente encontrada em morcegos, mas atualmente ainda não se sabe se também infeta outros animais. Num esquema mais abrangente, o Ebolavírus fica dentro de um grupo chamado filovírus, que inclui patógenos semelhantes, como a Febre Hemorrágica de Marburg e o Cuevavírus.

O Ébola é uma zoonose, ou uma doença que pode "transbordar" para os humanos a partir de animais em estado selvagem que sejam portadores da doença. Os investigadores não sabem com exatidão quais são os animais portadores do Ébola, mas existem evidências de que os morcegos-da-fruta podem desempenhar um papel na disseminação do vírus pelos outros animais, como chimpanzés, gorilas e antílopes. Os humanos, por seu lado, podem entrar em contacto com o vírus através da interação com animais infetados – na caça ou na preparação de carne de animais selvagens.

O vírus provoca a doença viral Ébola (EVD), uma doença grave que pode ser fatal. Provoca febre, diarreia, fadiga, vómito, dor de estômago, hemorragias e hematomas inexplicáveis. Em média, os sintomas surgem entre os 8 e os 10 dias após a exposição.

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O Ébola transmite-se através do contacto com fluidos corporais – como sangue, urina, fezes, vómito, leite materno e saliva – de pessoas que adoeceram ou morreram de EVD. O vírus entra no corpo através de ruturas na pele, ou através de membranas mucosas, como as dos olhos, nariz ou boca. Agulhas ou seringas contaminadas também podem transmitir o vírus, e existem fortes probabilidades de também se poder transmitir sexualmente. E o vírus consegue persistir no sémen, mesmo depois de um homem recuperar de EVD.

Quão perigoso é o Ébola?
Dependendo da resposta imunitária do paciente e do acesso a cuidados médicos, a fatalidade do Ébola oscila entre os 35% e os 90%, razão pela qual as autoridades locais e globais de saúde trabalham tão arduamente na contenção de surtos.

O surto de 2014-2016 na Guiné, Libéria e Serra Leoa – o pior alguma vez registado – infetou 28.600 pessoas e foi responsável direto pela morte de 11.325 pessoas. Um estudo de 2016 alegava que a fragilidade dos sistemas de saúde nas regiões afetadas e a pobreza eram sinónimo de efeitos devastadores. Em 2014, estimava-se que 5 milhões de crianças, entre os 3 e os 17 anos, não estudavam devido à epidemia de Ébola. Os programas de vacinação infantil também foram interrompidos temporariamente, deixando centenas de milhares de crianças expostas a outras doenças fatais, como o sarampo. Uma estimativa de 2015 sustentava que a epidemia podia ter resultado em 120.000 mortes maternas, em parte devido ao colapso do sistema de saúde.

Por mais graves e sérios que o Ébola e outros vírus semelhantes possam ser, também é perigoso deturpar ou exagerar a sua ameaça. Por um lado, os receios do Ébola "ser transmissível pelo ar", como declararam alguns comentadores durante o surto de 2014-2016, são infundados: não existem evidências de que o Ébola esteja a evoluir para se disseminar eficazmente pelo ar.

Também não existem indícios fortes de que as interdições rigorosas nas viagens, como as que foram sugeridas durante o surto de 2014, sejam eficazes no retardamento e propagação de um vírus como o Ébola. A proibição de viajar pode até piorar alguns surtos, isolando e estigmatizando as próprias comunidades que mais precisam de ajuda. Durante o surto de 2014-2016, os Centros dos EUA para o Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) fizeram campanhas de informação e outros esforços para limitar os riscos de propagação do vírus, e minimizar a perturbação do comércio e do movimento internacional.

O Ébola está longe de ser o único vírus letal que os humanos enfrentam. Desde outubro de 2018 a março de 2019, um período de 5 meses, morreram de gripe entre 28.000 a 46.800 pessoas nos EUA, segundo estimativas do CDC. Em 2017, o sarampo matou 110.000 pessoas em todo o mundo. Antes da vacina contra o sarampo, cerca de 2.6 milhões de pessoas morriam anualmente com a doença.

Como funciona o Ébola?
O exterior do vírus Ébola é um filamento que parece uma cobra, com menos de um milionésimo de metro. O filamento abriga o RNA do vírus, uma cadeia de material genético com cerca de 19.000 pares de bases que codificam 7 proteínas. A membrana externa do vírus está repleta de complexos específicos de proteínas e carboidratos, chamados glicoproteínas, que agem como chaves esqueléticas para as várias "fechaduras" que existem no exterior das nossas células corporais.

O Ébola usa as glicoproteínas como um disfarce enganador: a parte exterior do vírus permite-lhe imitar quimicamente os detritos resultantes da apoptose, a morte programada e ordenada de uma célula. Normalmente, as células nas proximidades conseguem detetar os restos mortais das suas vizinhas e absorver os restos para os descartar – o que significa que, quando detetam o Ébola, recebem-no inadvertidamente no interior da célula. Ao início, o Ébola está preso dentro de uma espécie de autocarro celular de turismo, uma bolha membranosa chamada vesícula. Mas o vírus tem proteínas numa das suas extremidades que lhe permitem ejetar o RNA para o exterior da vesícula – e para as entranhas da célula.

Quando o RNA do Ébola fica livre dentro de uma célula, assume o controlo da maquinaria da célula para fazer inúmeras cópias dos seus blocos de construção, que são depois montados. Ao recrutar o próprio mecanismo membranoso da célula, consegue formar novos vírus. Eventualmente, transforma-se numa fábrica de viroses demasiado forte para a célula suportar e esta morre.

Os sintomas do Ébola devem-se ao tipo de células atingidas, que incluem um grupo de células imunitárias, chamadas células dendríticas, que agem um pouco como as câmaras de segurança do nosso corpo. Na sua ausência, outras classes de células imunitárias perdem o rumo – fazendo com que o vírus se consiga replicar rapidamente. Para além disso, o Ébola consegue afetar a capacidade das células produzirem interferão – uma molécula de sinalização antiviral – e pode até provocar a autodestruição de algumas células do sistema imunológico.

Quando o Ébola entra noutras células imunitárias, a infeção enfraquece os vasos sanguíneos e desencadeia a formação de inúmeros coágulos sanguíneos pequenos, levando às hemorragias observadas em alguns casos de Ébola, mas não em todos. As células do fígado, a glândula adrenal e o trato gastrointestinal sofrem consideravelmente, mergulhando o corpo de uma pessoa infetada no caos.

Quais são os tratamentos?
Em primeiro lugar, as autoridades de saúde enfatizam a importância de prevenir o contacto com o Ébola, seja na lavagem das mãos ou a evitar o contacto com pessoas ou animais infetados pelo vírus. Depois de uma pessoa ser infetada, os tratamentos concentram-se em cuidar dos sintomas. Oxigénio e fluídos intravenosos ajudam, assim como os medicamentos para a diarreia e perda de pressão arterial.

Mas os investigadores fizeram progressos enormes no desenvolvimento de uma vacina experimental contra o Ébola, chamada rVSV-ZEBOV. Em 2015, testaram a vacina em 11.841 pessoas, na Guiné, e a sua eficácia provou ser de 100%. O CDC diz que a vacina deve ser oficialmente licenciada pelas autoridades dos EUA ainda em 2019.

E também estão a ser desenvolvidos medicamentos antivirais experimentais que podem interromper a replicação do Ébola.

Resumo dos surtos de Ébola
O vírus Ébola foi identificado formalmente pela primeira vez no outono de 1976, depois de um surto atingir os arredores Yambuku, uma vila perto do rio Ébola, no norte da República Democrática do Congo (então Zaire). Nesse ano, desde o dia 1 de setembro até ao dia 24 de outubro, sucumbiram à febre 318 pessoas; cerca de 8 em 9 morreram. Enquanto isso, no Sudão, 284 pessoas – incluindo 37% dos trabalhadores de uma fábrica de algodão – ficaram doentes com um vírus semelhante, 151 das quais morreram poucas semanas depois de serem infetadas. Entre 1977 e 1988, as autoridades de saúde acompanharam um total de 35 casos no Sudão e na República Democrática do Congo, 23 dos quais terminaram em mortes.

Em 1989, nas Filipinas e nos EUA, as pessoas enfrentaram o cenário que mais tarde viria a inspirar a série The Hot Zone. No dia 2 de outubro de 1989, foram enviados 100 macacos das Filipinas para a cidade de Nova Iorque, e levados para a Hazelton Research Products, uma empresa em Reston, no estado da Virgínia, que mantinha e vendia animais para testes em laboratório. No dia 12 de novembro, 14 dos macacos morreram ou foram alvo de eutanásia, depois de mostrarem sinais de febre hemorrágica.

A preocupação aumentou quando os testes revelaram que os macacos tinham uma espécie de vírus Ébola. As análises feitas a quatro trabalhadores da unidade também deram positivo para o Ébola, e um deles parece ter sido infetado pelo vírus quando se cortou acidentalmente com um bisturi, enquanto estudava um macaco morto pela infeção. Alarmada, a empresa pediu ajuda aos cientistas do Exército dos EUA para estabilizar a situação. Sem causar o pânico ou ameaçar a saúde pública, os cientistas tiveram de sacrificar silenciosamente os restantes macacos e esterilizar as instalações.

Felizmente, as pessoas expostas ao vírus não apresentaram sintomas. Nas Filipinas, estudos feitos com tratadores de animais mostraram que, apesar de alguns deles terem anticorpos para o vírus, não apresentavam sintomas. Em 1992, quando a mesma vertente de Ébola apareceu numa instalação de primatas em Itália, os humanos também não tiveram problemas de saúde. Esta espécie de Ébola – agora chamada ebolavírus Reston – não provoca sintomas nos humanos.

Em 1995, as autoridades de saúde tiveram de enfrentar o maior surto de Ébola até à data: 315 casos na cidade de Kikwit e arredores, na República Democrática do Congo. Inicialmente, o vírus disseminou-se entre famílias e hospitais; e 1 em cada 4 casos eram de profissionais de saúde. Mas, graças aos equipamentos de proteção, como máscaras e fatos, os casos entre a equipa médica caíram abruptamente. Ao todo, morreram 250 pessoas, 79% das pessoas infetadas.

Nos 20 anos seguintes, surgiram ocasionalmente casos isolados e surtos: um surto de 425 casos no Uganda, no ano 2000, e a morte de um técnico de laboratório russo exposto ao vírus em 2005. Até agora, o maior surto começou no final de 2013 e atingiu o estatuto oficial em março de 2014, depois das autoridades de saúde identificarem 49 casos de infeção e 29 mortes, na Guiné.

Em julho de 2014, o Ébola tinha-se espalhado até Conacri, capital da Guiné, e até à Monróvia e Freetown, as capitais da Libéria e Serra Leoa. Em junho de 2016, quando o surto foi oficialmente contido, outros 7 países – Itália, Mali, Nigéria, Senegal, Espanha, Reino Unido e Estados Unidos – também relataram vários casos de EVD, alguns de infeções entre trabalhadores de saúde.

O surto de 2014 marcou a primeira vez que o Ébola se infiltrou em áreas urbanas com densidades populacionais enormes, tornando-o particularmente sério e difícil de controlar. Quase 75% dos casos eram de transmissões entre membros da mesma família, mostrando que entrar em contacto com os corpos de pessoas que morreram de Ébola era uma das formas mais eficazes de propagar o vírus.

A Organização Mundial de Saúde e outros órgãos de saúde alertam que só os profissionais com equipamentos de proteção é que podem enterrar as pessoas que morreram de Ébola – e os enterros devem ser realizados o mais rapidamente possível. Mas seguir esse conselho com dignidade pode ser complicado, dado que interrompe uma das nossas experiências mais íntimas e profundas: despedirmo-nos de entes queridos que partiram.

Neste momento, em algumas regiões da República Democrática do Congo, as autoridades de saúde locais e internacionais estão a enfrentar um dos piores surtos de Ébola. Desde o dia 4 de abril deste ano, um total de 1.100 pessoas – 75% com menos de 18 anos – tiveram casos confirmados ou prováveis de EVD: 690 morreram. Cerca de 81 casos – e 27 fatalidades – são de profissionais de saúde que tentam combater a epidemia.

A contenção do surto tem-se revelado muito complicada, em grande parte devido à desconfiança da comunidade. Os relatos dos meios de comunicação e da Organização Mundial de Saúde dizem que as comunidades se sentiram alienadas pela abordagem usada pelos grupos de ajuda humanitária e pelo governo local. As autoridades dizem que estão a trabalhar ativamente para recuperar a confiança e conter a vaga de infeções.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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