Ártico: Uma Das Regiões Do Planeta Com Mais Plástico

O plástico viaja com as correntes oceânicas e pelo ar até ao extremo norte, onde se acumula – às vezes dentro dos animais que vivem na região.quinta-feira, 21 de novembro de 2019

MAR DA GRONELÂNDIA, A BORDO DO NAVIO KRONPRINS HAAKON – Numa plataforma de gelo, no mar da Gronelândia, no Círculo Polar Ártico, Ingeborg Hallanger está a recolher plástico.

Estamos num trecho de "gelo permanente", que tem esta denominação porque é mantido no lugar através de uma mistura de icebergues ancorados a uma plataforma de gelo, na costa nordeste da Gronelândia. Esta planície de gelo, repleta de poças de água azul e fendas que parecem teias de aranha, estende-se até ao horizonte. Ao longe, vemos os glaciares da Gronelândia.

Hallanger, investigadora no Instituto Polar Norueguês, em Tromsø, na Noruega, espreita por um buraco perfurado no gelo, com uma espessura de 90 centímetros, e coloca uma mangueira até à água que se encontra abaixo da superfície. Os outros membros da expedição de investigação patrulham a área à procura de ursos-polares, enquanto Hallanger começa a bombear pequenas partículas de água do mar.

No Ártico, a centenas de quilómetros de distância da cidade mais próxima, estão algumas das maiores concentrações de plástico do planeta. Existem mais microplásticos no gelo marinho do que nas infames “ilhas” de lixo oceânico. E um relatório recente mostra que os microplásticos presentes no ar estão a cair no extremo norte, juntamente com a neve.

Hallanger é ecotoxicologista e quer saber como é que este dilúvio de materiais sintéticos pode afetar a vida nos habitats gelados que formam a base da cadeia alimentar oceânica.

“Se verificarmos que o gelo tem realmente este plástico todo, os habitats dos organismos que aqui vivem podem estar entre os mais contaminados do oceano."

Plástico polar

A área onde Hallanger está a trabalhar tem uma das maiores concentrações de poluição por plástico do Ártico. Um estudo feito recentemente nesta passagem, entre o leste da Gronelândia e as ilhas Svalbard da Noruega – um núcleo de correntes oceânicas chamado Estreito de Fram – encontrou mais de 12.000 partículas de microplástico por litro de gelo marinho. Este valor é semelhante ao das concentrações mais elevadas que flutuam nas costas urbanas. E é superada pelas 14.000 partículas por litro encontradas recentemente na neve do gelo marinho do Estreito de Fram.

Mas esta invasão de plástico no Ártico não se limita ao Estreito de Fram. Os cientistas estão a encontrar microplásticos no mar de Beaufort, nos arquipélagos do Canadá e nas águas da Sibéria. As águas superficiais do Oceano Ártico retêm o maior número de plásticos de todas as bacias oceânicas. O número de partículas em algumas partes das águas do Ártico é o mais elevado do mundo. E na vida selvagem da região estão a surgir fragmentos de materiais artificiais – sobretudo nas aves. As pardelas-brancas, pássaros semelhantes a gaivotas, parecem ter um magnetismo especial para o plástico.

"Nos últimos 30 anos, todos os grupos de pardelas que observámos no Ártico tinham plástico dentro de si", diz Jenn Provencher, chefe da unidade de saúde de vida selvagem no Canadian Wildlife Service.

Os cientistas estimam que até 12.7 milhões de toneladas métricas de lixo plástico são despejadas no mar todos os anos, pelo que a inundação de plástico nos oceanos é um problema global. Mas o Ártico, para além de ter uma das maiores concentrações de microplásticos do mundo, tem uma cadeia alimentar limitada e é particularmente vulnerável aos efeitos das alterações climáticas.

"Estamos constantemente a colocar sob tensão os animais que vivem neste ambiente", diz Hallanger, que está a examinar os níveis de exposição, as rotas e os impactos dos microplásticos nas aves, nas raposas e em outros animais do Ártico. "Este pode ser o fator que vai empurrar estes animais para além dos limites da sobrevivência.”

Plástico omnipresente

De regresso ao Kronprins Haakon, um quebra-gelo de investigação do Instituto Polar Norueguês, Hallanger e o estudante de graduação Vegard Stürzinger decidem fazer uma experiência com os microplásticos. As amostras de Hallanger, que também incluem núcleos de gelo, pedaços de gelo recém-formado e água das profundezas do mar, ainda precisam de ser analisadas no laboratório em Tromsø. Mas na embarcação filtram e analisam ao microscópio várias amostras de gelo derretido, raspadas do topo da plataforma.

Este método é completamente não-científico. As medições não são calibradas ou padronizadas, e a contaminação não é escrupulosamente evitada, dado que Hallanger ainda precisa de fazer as análises reais – mas o laboratório está limpo e selado e as roupas sintéticas não são permitidas.

Mesmo assim, os resultados são muito reveladores. “O número é bastante elevado!” diz Hallanger sobre as quantidades de plástico encontrado.

Plástico em movimento

Erik van Sebille, oceanógrafo na Universidade de Utrecht, na Holanda, está a mapear o movimento dos plásticos nos oceanos. Existe tanto lixo nos mares do norte que Eirk encontrou o que parece ser a formação de outra “ilha” de lixo no Mar de Barents, a norte da Noruega e da Rússia. Grande parte deste lixo parece vir do noroeste da Europa e da costa leste da América do Norte.

Erik especula que os plásticos se acumulam perto da região sul do Oceano Ártico – a água a norte do Atlântico arrefece e afunda-se nessa zona, colocando em movimento um poderoso sistema de corrente oceânica chamado Circulação Meridional do Atlântico. E como o plástico flutua, fica à superfície.

Mas grande parte dos microplásticos não flutua – mistura-se na coluna de água. E estes elementos submersos acumulam-se no Ártico e também se movem em direção à Antártida. Erik van Sebille e os seus colegas fizeram um estudo onde descobriram que as correntes subterrâneas conseguem mover quantidades significativas de microplásticos, a partir das latitudes médias, até aos dois polos. “Quando os microplásticos são transportados pelas correntes subterrâneas, as probabilidades de irem parar às regiões polares são maiores", diz Erik.

Para além disso, Erik acredita que os plásticos também se movem em direção aos polos através das ondas, um processo de transporte marítimo chamado Stokes Drift. Mas, como a maioria dos modelos que fazem estimativas sobre o plástico oceânico não incluem o efeito Stokes Drift, a quantidade de plástico no Ártico pode ser consideravelmente maior.

O gelo marinho transporta e armazena quantidades enormes de microplásticos no Ártico. Mas com a velocidade do degelo, este armazenamento deve ser considerado temporário, diz Ilka Peeken, bióloga marinha no instituto alemão Alfred Wegener.

Ilka estuda os efeitos das alterações ambientais nos organismos que vivem no gelo do Ártico e encontrou 17 tipos diferentes de plástico – e as embalagens, as tampas de garrafas, tintas, nylon, poliéster e peças que provavelmente começaram como pontas de cigarro representam cerca de 50% de todas as partículas. O nylon e as tintas vieram provavelmente de fontes locais, como equipamentos de pesca e navios, diz Ilka, enquanto que os itens como as embalagens e as tampas de garrafas podem ter percorrido longas distâncias. Alguns dos plásticos podem ter escapado da Grande Ilha de Lixo do Pacifico e fluíram para norte, através do Estreito de Bering.

Agora, um novo estudo sugere que os microplásticos também flutuam nas correntes de ar e acabam no Ártico sob a forma de neve revestida de plástico. Juntamente com a água, estas partículas minúsculas e quase invisíveis podem ser inaladas, diz a autora do estudo, Melanie Bergmann, ecologista marinha no Instituto Alfred Wegener.

Possibilidades assustadoras

Sabe-se relativamente pouco sobre a forma como a poluição por plástico está a afetar os ecossistemas do Ártico. De acordo com um relatório apresentado recentemente, para além das aves, também já foram encontrados microplásticos no estômago de algumas espécies de peixes polares, em mexilhões, caranguejos e estrelas do mar. Mas existem poucos estudos feitos nesta região remota e, embora  tenham sido encontrados danos nas poucas investigações feitas até ao momento – como o comportamento alterado nos peixes expostos aos microplásticos – não se conhece o alcance total dos impactos na saúde animal.

Ainda assim, Hallanger diz que os estudos feitos em laboratório mostram que os produtos em decomposição, ainda mais pequenos que os microplásticos, chamados nanoplásticos, conseguem atravessar as paredes celulares e podem penetrar na barreira hematoencefálica. E também conseguem atravessar a placenta até ao feto. Para além disso, as condições do Ártico – o congelamento e o degelo, a trituração do gelo, os ventos e as ondas fortes – podem ser propícias à transformação dos microplásticos em nanoplásticos.

“É assustador”, diz Hallanger.

Tal como acontece noutros lugares, a perspetiva de os plásticos entrarem nos alimentos também é uma preocupação no Ártico. Quando ingeridos pelas criaturas mais pequenas, na parte inferior da cadeia alimentar, os microplásticos podem "bio-magnificar" o problema – à medida que esses organismos são comidos por organismos sucessivamente maiores – chegando eventualmente aos humanos.

E os plásticos estão de facto a ser ingeridos pelos humanos. Um novo estudo descobriu que comemos e bebemos cerca de 52.000 partículas de plástico por ano – número que aumenta quando adicionamos os plásticos inalados.

Mas o Ártico não é como os outros lugares. Nesta região, a poluição por plástico representa um problema diferente, pois é o lar de muitas pessoas que dependem quase inteiramente do ecossistema marinho.

"No Ártico, a cadeia alimentar marinha está intimamente ligada ao consumo humano", diz Provencher. "Se tivermos plástico nestas espécies... e pessoas que dependam destas espécies enquanto fonte de alimento, podemos ter um efeito muito mais amplo, ao contrário do que acontece noutras regiões do planeta."

Peter Murphy, coordenador regional do Alasca do Programa de Detritos Marinhos da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos EUA, concorda.

"A subsistência no Alasca é uma preocupação real, porque temos comunidades onde muitas das calorias vêm da terra e da água", diz Peter sobre os grupos indígenas do Alasca.

“Nestas áreas, a poluição tem um impacto muito mais linear.” Um estudo feito entre 2015 e 2017, que mediu os microplásticos presentes na areia das praias do Parque Nacional dos EUA, descobriu que a poluição nalgumas zonas costeiras remotas do Alasca é semelhante à poluição observada em áreas densamente povoadas.

Ainda não existem evidências claras de que a poluição por plástico se move pela cadeia alimentar, ou que representa um risco para as pessoas que comem peixe ou marisco. Mas a poluição por plástico e os efeitos da mesma no Ártico vão ser alvo de um empreendimento de monitorização que está prestes a começar. Este projeto, liderado pela Islândia, ao assumir a presidência do Conselho do Ártico, envolve um grupo de trabalho especial do Programa de Monitorização e Avaliação do Ártico. Hallanger e outros investigadores vão participar nesta iniciativa.

Os cientistas que estudam o Ártico dizem que ainda temos muito para aprender sobre as consequências da omnipresença do plástico.

“Não temos realmente noção da situação”, diz Hallanger, enquanto olha do navio para um pedaço de gelo flutuante repleto de aves marinhas à procura de peixe.

“O Ártico é uma boa forma de mostrar que estamos perante um problema global, portanto, temos de agir globalmente.”

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

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