Mercúrio Desliza Pelo Sol Em Espetáculo Raro

No dia 11 de novembro, o planeta mais interior do nosso sistema atravessou o disco solar, evento que se repetirá daqui a 13 anos.quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Em grande parte do Hemisfério Ocidental, os observadores estelares estavam preparados para um espetáculo celestial raro, que aconteceu no dia 11 de novembro, quando o planeta Mercúrio navegou pela face do sol. Este evento, conhecido por trânsito de Mercúrio, só vai repetir-se no ano 2032.

Durante um trânsito, Mercúrio passa entre a Terra e o sol, tornando-se numa silhueta pequena e redonda contra o brilho amarelo do disco solar. É obrigatório usar proteção ocular para observar estes eventos diurnos – nunca se deve olhar diretamente para o sol sem proteção adequada devido aos riscos que isso representa para a nossa visão

E verdade seja dita, a olho nu não se consegue ver grande coisa; a partir da Terra, Mercúrio é um ponto negro, 160 vezes mais pequeno do que o disco solar, portanto, são necessários recursos visuais de alta potência, equipados com filtros solares, para assistir a um evento como este. Com o equipamento certo, existem muitos eventos públicos feitos por clubes de astronomia, museus, planetários e pelas faculdades de muitos países.

 

Este ano, Mercúrio demorou cerca de 5 horas e meia a concluir a sua jornada, fazendo o primeiro contacto com o disco às 12:35 (hora portuguesa). O planeta alcançou o ponto médio às 15:20, terminando o trânsito às 18:04.

Nas regiões onde as condições atmosféricas assim o permitiram, a melhor observação do trânsito aconteceu durante o dia. Isto incluiu a costa leste da América do Norte, a América do Sul, a Europa Ocidental e o oeste de África. Na costa oeste das Américas, o trânsito já estava a decorrer quando o sol nasceu, ao passo que em zonas de África, da Europa Oriental e em grande parte da Ásia o trânsito aconteceu durante o pôr do sol.

Lágrimas negras

Mercúrio e Vénus orbitam mais perto do Sol do que a Terra, sendo por isso os únicos planetas que podem fazer trânsitos solares observáveis da nossa perspetiva. Com uma órbita rápida de 88 dias, Mercúrio passa entre a Terra e o Sol a cada 4 meses. Mas em comparação com o plano orbital da Terra, a órbita de Mercúrio é inclinada; ou seja, na maioria das vezes, a partir da nossa linha de visão, o pequeno planeta passa por cima ou por baixo do disco solar.

Esta configuração orbital significa que os trânsitos de Mercúrio acontecem apenas 13 a 14 vezes a cada 100 anos – o evento anterior mais recente aconteceu em 2016. Os trânsitos venusianos são ainda mais raros, ocorrendo em média apenas uma vez por século. O último trânsito de Vénus foi em 2012 e só veremos outro em 2117.

Na Terra, só vamos ver Mercúrio a cruzar o sol novamente em novembro de 2032. Os norte-americanos terão um período de espera ainda mais longo, pois terão de esperar até 2049 pelo próximo trânsito de Mercúrio visível na sua parte do globo.

Uma das visões mais interessantes de um trânsito é o chamado efeito gota preta, uma ilusão de ótica que acontece quando o planeta começa a entrar ou a sair do disco solar. Quando Mercúrio toca no sol pela primeira vez, o planeta parece esticar-se, fazendo a silhueta parecer uma lágrima. Este efeito acontece novamente quando Mercúrio é engolido pelo disco solar.

Observar um planeta a navegar pelo sol também é um testemunho do método crucial usado pelos astrónomos para encontrar planetas para além do nosso sistema solar. A antiga missão Kepler da NASA conseguiu identificar e confirmar 2662 exoplanetas por toda a galáxia recorrendo aos eventos de trânsito como o de 11 de novembro.

Em muitos casos, a nossa linha de visão está alinhada de uma forma que os telescópios na Terra conseguem detetar intermitências minúsculas na luz das estrelas – quando um exoplaneta transita a sua estrela. Com base nestes dados, os astrónomos conseguem calcular o tamanho, a órbita e até algumas propriedades físicas destes mundos alienígenas.

Para quem conseguiu observar o fenómeno, a experiência foi verdadeiramente única. Para quem não conseguiu, a NASA tem imagens captadas pelo satélite de observação solar SDO que oferece uma perspetiva dramática do acontecimento.

Céus limpos!

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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